06. Lasciva

3008 Words
Chovia, eu estava sozinho em casa, dedilhando em minha guitarra, refletindo sobre tudo o que estava acontecendo. A tempos eu não ficava completamente sozinho, Isa havia me pedido para dormir na casa de uma amiga, e eu havia decidido que tiraria madrugada para fumar e refletir sobre a vida. Tudo estava embaralhado, mas aos poucos, a medida que a fumaça do cigarro subia, os devaneios se emergiam. Pensei em me tocar um pouco, ali mesmo no sofá, na esperança de aliviar um pouco minha libido, eu estava tenso demais, ocupado demais para conseguir descontrair tudo o que eu estava prendendo, e certamente desconcentrado demais para me tocar. — Vamos Carter... É só... Um soco na porta. Me assustei de imediato, quase pulei do sofá ao ouvir o barulho. Pensei que não haveria de ser nada, não estava esperando Isa, e o barulho podia ter sido causado pela chuva que caia do lado de fora. Foi quando vieram mais algumas batidas. É, realmente havia alguém batendo a minha porta numa madrugada chuvosa, e pelo jeito que batia, estava em desespero. Quando abri a porta, a surpresa veio para mim gloriosamente. Porém ela estava chorando, desgrenhada e assustada. — Amélia? — Me deixe entrar! Correu em direção ao meu peito, como uma criança amedrontada. A luz estava fraca, mas pude notar que sua face estava avermelhada, seus olhos heterocromáticos estavam tão assustados quanto as de uma presa indefesa. — O que aconteceu? Ela chorou. Chorou desenfreadamente em meu peito, e não me disse o porquê chorava, se recusava a dizer qualquer coisa. — Como veio parar aqui? Desse jeito? — Ah! Cale a boca, Carter! — num impulso, talvez embebido de rebeldia, ela puxou meus lábios para os seus, afagando-os delicadamente. Seu beijo fora alagado pelas lágrimas que não paravam de descer de seus olhos, lágrimas de uma infelicidade que tentava se compadecer de outro sentimento. Empurrou-me em direção do sofá, ainda com os lábios grudados aos meus. Sua roupa, que estava rasgada, ia caindo quase que naturalmente por seu corpo a medida em que meus dedos deslizavam por sua pele. Eu sentia seu arrepio, sentia sua raiva em forma de beijo, abrindo-se estranhamente para mim. Notei que seu beijo, além do gosto das lágrimas, estava embriagado, mas eu não queria perguntar o porquê, queria que ela continuasse me guiando daquela forma. Enfim a vi nua. Não apenas de corpo, mas também de alma, com os sentimentos a flor da pele. Queria que a pouca luminosidade daquele momento não fosse tão egoísta, para admirar aquele corpo, queria vê-la com mais detalhes, cada parte, cada centímetro. Ela estava com raiva, ávida por algo que eu poderia proporcionar. E eu, que esperei tanto por aquilo, nem ao menos sabia me comportar. O que eu deveria fazer? Era como se a primazia de todas as divindades estivesse sob mim. E eu, um mero mortal sedento, talvez não fosse o mais indicado para tal regozijo. Como se fosse um maestro, meus dedos se guiaram sorrateiramente por seu corpo, acariciando seu divido ser. Enquanto a sensação de penetrá-la ocupava minha mente. Nem os sete céus seriam capazes de explicar aquela sensação, tudo em seu ser remetia a mais pura lasciva que se pode desejar. Eu não deveria deixá-la cansar, o certo seria fazê-la amazona de mim? A puxei com um dos meus braços, colocando-a embaixo de mim, nossos lábios não se distanciaram, segurei ambos os seus pulsos com uma das mãos, continuei penetrando-a, sentindo-a de tantas formas. Seus gemidos em meus ouvidos eram como gasolina, nem ao menos me importei com o barulho que o sofá fazia de encontro a parede, ou com o fato de estarmos quase tocando o chão. Tudo naquilo era bom. Amélia se estremecia debaixo de mim, e eu não tinha pena de suas súplicas. Em seu ouvido eu ordenava para que aguentasse mais, na mesma medida em que seus lábios me pediam mais. —Segure-se. — Repeti, com ela apertando-se cada vez mais. Dessa vez desviamos para o chão, por sorte havia um tapete sob ele. Eu queria levá-la ao prazer incontáveis vezes naquela madrugada, e o faria, e diversas maneiras e rimos diferentes. Conduzindo-a feito um maestro, controlando cada respiração, cada gemido, cada palpitação. A energia de nossos corpos estava numa sintonia magnética, guia-la não era uma tarefa difícil, afinal eu havia passado dias desejando aquilo, agora que acontecia, faria o possível para que durasse. Novamente, debaixo de mim ela estava se estremecendo, arfava, o prazer que exalava dela era tão genuíno que tomou sua voz, seus lábios se moviam, mas estava muda, muda de prazer, observar aquilo me deu ainda mais gás. Aos poucos sua voz foi voltando, juntamente com o balbuciar, implorando por mais. ••• — Que diabos! — Tragou o cigarro, deitada sob meu peito. — Quem lhe ensinou isso? — Passei a não pelos cabelos dela. — Já amanheceu, conseguiria continuar? — Sim. Mas você merece um descanso. — meus olhos estavam quase fechados, dividimos aquele cigarro. — Isso foi... Maravilhoso. — Não esperava tanto? — Para ser sincera, não. Sorri soltando a fumaça por entre os dentes. — Que bom que surpreendi. Ela olhou para mim por cima, me fazendo abrir um pouco mais dos olhos, notei mais uma vez a mancha em sua face. — Quem lhe fez isso? — Isso não foi nada. Uma besteira que sai em dois ou três dias. Fui eu mesma quem causou. — Você socou a própria cara? — Ironizei, Amélia me fuzilou com o olhar. — Não quero atrapalhar o momento, me desculpe. — Foi um militar! Eu estava com a Divina, e alguns militares apareceram por a pra fechar o bar... Eles nos ameaçaram. Eu disse que era Amélia Montenegro e recebi o tapa no rosto. Me levantei ao ouvir aquilo. Não era um bom sinal, no geral os militares não se metiam nas áreas dos jagunços. Isso significava que a situação estava começando a sair do controle. — Isso não é bom. — Você sabe de mais alguma coisa, Carter? Assenti. — Acho que já passou da hora de eu ir ver meu pai. — Continuei encarando-a, ainda com o olhar sedento. — O que foi? — Quando é que vamos repetir? ••• Eduardo e eu decidimos nos encontrar naquela tarde, ele alegou que iriamos buscar a tia no aeroporto, e que depois decidiríamos o que faríamos quanto aos diretos autorais das músicas de Amelia. Vivian estudava em outro estado, era letrada, falava no mínimo umas cinco línguas, quase nunca passava tempo com a irmã mais velha, e sempre arranjava uma desculpa para se poupar disso. Talvez tivesse lhe faltado desculpas, ou havia um bom dinheiro em jogo, se havia algo que as duas irmãs gostavam era dinheiro, e faziam tudo o que estava em seu alcance para mantê-lo. — Para piorar, tio Dantas está lá em casa, chegou cedo demais como de costume, e minha mãe o trata com uma falsidade insuportável! — Ela quer convencer ele a esquecer do processo, e quer manter a fortuna que vocês dois tem. — Ele quer ser meu contador. Trouxe uma carta assinada por meu pai em que ele manifestava interesse em ter meu tio mantendo-se a par de nossas finanças. — Às vezes eu me sinto atordoado em como nossos problemas são diferentes. Ele gargalhou, estava segurando uma placa com o nome da tia escrito, coçou a orelha me olhando de lado, carregava um semblante engraçado na face. — Agora você também mais fazer parte disso, cara. Ele nem imaginava o sentido daquelas palavras, nem se querer pensava na relação em que Amelia e eu estávamos envolvidos, mas tinha razão em dizer que eu estava completamente envolvido nos problemas de sua família. Ficamos em silencio por alguns minutos, pensei que aquele seria um ótimo momento para a contar a ele sobre a visita de Tony, juntamente com o convite, que mais parecia uma ameaça. É claro que eu estava preocupado com aquilo. Conhecia muito bem meu pai, ele não desistiria de me fazer voltar aos serviços sujos. Por sorte, havia puxado sua teimosia, e também não cederia tão facilmente, ainda mais com a proposta de trabalho que Amelia me oferecera. A carreira de músico seria bastante lucrativa, e é claro que eu tinha vários interesses nisso. O foco agora era pagar as despesas de saúde de minha mãe, quitar a dívida que fizemos na casa, e manter minha irmã num lugar decente. Ela merecia aquilo, merecia estar bem, eu finalmente conseguiria sustentar Isabela. —Pedi demissão do clube. Estou oficialmente desempregado. — Acho que aquele lugar vai a falência sem você. —Disse levantando uma das sobrancelhas. — Ah, eles têm outros instrutores! — Não tão empenhados quanto você. — Carregava um deboche vicioso na fala, tinha razão, não eram todos os instrutores que levavam as clientes para cama, isso era visto como um serviço extra. Mas por ser um clube famoso numa cidade litorânea, a fama foi subindo entre as donas de casa ricas, que voltavam para lá mesmo em época de baixa estação. Digamos que minha fama cresceu junto com a do hotel, e sempre surgiam novas senhoras em busca do jovem ruivo dançarino. Agora isso havia acabado. Por mais que esse tipo de serviço me ajudasse a satisfazer a hipersexualidade, não gostava de ser pago por isso, não queria que o sexo fosse meu trabalho, sim minha diversão. — Tony esteve em minha casa por esses dias. Dessa vez ele não sorriu, sabia o peso que aquelas palavras tinham para mim. — Como ele descobriu onde vocês estão? — Acho que é justamente por descobrir coisas que o faz ter o trabalho que tem. — Carter, se Tony descobriu onde você e sua irmã estão, já deve saber sobre sua mãe. — Parou de falar abruptamente quando viu uma jovem de pele amarronzada vindo em nossa direção, seus cabelos estavam cortados, nem chegavam à altura das orelhas, se vestia como uma hippie, com grandes óculos no rosto, uma calça folgada e um lenço de plumas no pescoço. Aquela era Vivian. — E ai seus molengas! —Mascava chiclete, tirou os óculos para falar conosco. —Esse é o garoto? —la me julgou com os olhos, senti isso exalar dela. — Garoto? — Prefere ser tratado coo garota? Posso fazer isso! — Pega leve com ele, tia Viv! — Eduardo disse aproximando-se da tia para dar-lhe um beijo. — Quem dos dois vai levar minhas malas? — disse roendo as unhas, me senti incomodado com o barulho, mas não tive reação. Em silencio, peguei sua mala do chão e a levantei sem muito esforço, enquanto Eduardo tomou para si a mala de rodinhas que ela empurrava com uma das mãos. Fiquei em silencio, os seguindo, ouvindo Vivian contar as inúmeras aventuras que teve fora do país. Como aprendeu a jogar o jogo sujo dos empresários em Nova York, ou como o sol italiano era quente demais no verão. A verdade é que não demorou muito tempo para ela começar a me irritar. Principalmente quando ela começou a dizer o que mudaria em mim para me deixar mais atrativo. Falou de meu cabelo, que era muito cacheado, falou que minhas roupas precisavam mudar, falou do meu jeito de falar, até dos meus dentes separados, tudo isso enquanto ainda estávamos colocando suas malas dentro do carro. — Mas você realmente toca guitarra não é? A fuzilei com o olhar, corri para encarar Eduardo, que arregalava seus olhos como se dissesse “ignore esses comentários por favor!” — Você realmente me perguntou isso? — É uma pergunta válida, sou sua empresária. Preciso saber se você é um artista de verdade, ou se a intensão de minha irmã era ter um rostinho bonitos em capas de revistas. Bati a porta do porta-malas com força, eduardo já havia notado minha impaciência. — Ele toca esplendidamente bem. — Eduardo disse entrando no carro, ia se sentar na frente, mas o lugar fora tomado por sua tia, para meu azar, ela passaria o resto da viagem ao meu lado. — Isso eu quero ver! —Agora era ela quem adentrava ao carro, olhando para todos os cantos. —É um carrinho ajeitado apesar de velho! —Esse carro é meu. —Imaginei, duvido muito que Amelia teria uma velharia dessas. Mas isso vai mudar, logo vai poder comprar um carro melhor e jogar essa lata velha fora! — Eu gosto desse carro aqui, do jeito que ele é. —Disse com rispidez. — Vai poder fazer a merdä que quiser com seu dinheiro. Eu prefiro andar de moto... acho que umas fotos suas em uma Davidson ia ser maravilho, já que vai querer ficar com esse cabelo. — Vai gostar de ver ele tocando, Carter faz um solo incrível! —E canta? — Paramos no sinal, aproveitei para acender um cigarro, estava me sentindo nervoso com os comentários dela. —Imagino que sim com essa voz rouca e grossa. Que marca de cigarro é essa? — Perguntou indo buscar o maço de cigarros no porta-moedas, virou o maço de Camel na direção do seu rosto. —Boa escolha, é de cravo? Me surpreendi com o elogio. — Sim, depois que provei esse não conseguir fumar outra coisa que não tivesse esse gosto. — Graças a deus concordaram em algo. — Que tal irmos tomar um trago em um bar? Senti tanta falta dos bares daqui eles tem uma bebida de pêssego maravilhosa! — EU acho uma ótima ideia! —Disse Eduardo quase pulando do banco de trás. —Podemos ir ao Jonas, você vai amar aquele lugar, Tia Viv. O bar em questão era da Divina, o melhor lugar da cidade para beber drinks de pêssego, ou levar alguém do mesmo sexo pra cama. E eu sempre fazia ambas as coisas, não na mesma ordem, as vezes ao mesmo tempo. — Carter consegue pear qualquer pessoa naquele bar. — Eduardo disse isso como se fosse um mérito para mim. — Qualquer pessoa? — Ela trouxe uma ênfase na palavra pessoa, como se houvesse mais de uma pergunta ali. —Ele é igual a gente, tia. —Limpou a garganta. —Mais parecido com você do que comigo, quer dizer, você me entendeu. Foi assim que descobri que Vivian, assim como eu, gostava de homens e mulheres. — Aposto 50 pratas que não consegue pegar a pessoa que eu escolher. Ela arrancou um sorriso sincero de mim. Virei a esquina, estávamos chegando ao Jonas. — Como é esse lugar? —Tem uma lanchonete em cima, ele fica escondido no porão de um prédio. Mas acredite, o lugar é incrível! Tem até música ao vivo. — Um bar GLS escondido no centro da cidade? O dono deve pagar uma nota preta aos miliares. — Dona. — Eduardo e eu falamos em uníssono. — Gente finissima! Divina o nome dela. Não demorou muito para chegarmos ao bar, que em cima funcionava normalmente. Fui recebido pelas funcionárias, que não deixaram de perguntar por minha irmã e por minha mãe, notei a surpresa na face de Vivian ao ver como elas estavam empolgadas ao me ver. O que aumentou mais ainda a vontade dela em me ver pondo seu desafio em prática. Descemos em seguida, sem precisar de muita cerimonia, eu já era de casa. Por dentro as luzes amarelas e vermelhas davam ao lugar um ar sedutor, já havia algumas pessoas chegando ao local, a banda se organizava no palco, enquanto isso era possível escolher o disco que tocaria até a apresentação de fato começar. — Sabia que seu cabelo lembra muito o de um hippie que conheci em Londres? —Disse Vivian enquanto nos sentávamos a mesa. —Podia incorporar isso ao seu visual. — Não sou hippie. — Eu sempre achei o Carter muito mais parecido com esses caras que cantam rock. — Eu trouxe o disco de uma banda que conheci em Londres, Black Sabbath, eles são muito bons! Se trouxermos essa essência, vai dar mais do que certo. O rock agora tem se tornado uma coisa mais pesada, mais gritada... Ai, Amelia vai odiar as ideias que tenho pro Carter. —Eu gosto de um som mais pesado. —Haviam poucas coisas que me davam a euforia do sexo, tocar era uma delas. Era como se a guitarra em minha mão de repente se tornasse uma mulher, e meu dedilhar eram os toques que a guiava. Então, quanto mais intensa a canção, quanto mais pesada fosse a melodia, quanto mais o solo exigisse de meus dedos deslizando pela guitarra, mais tësão naquilo eu sentia. — Que bom que concordamos nisso! As pessoas estão cansadas de verem o chato e branco som dos anos 50. Estamos entrando em outra década, ou minha irmã acompanha isso, ou fica pra trás. — Ela vai aceitar nossas exigências. —Disse dando uma piscadela para ela. Logo depois levantei um dos braços para chamar o garçom até nossa mesa —Mas pelo jeito que fala, tem pensado em coisas fora da banda de sua irmã. Ela aplaudiu, carregando um sorriso tentador no rosto. —Meus parabéns pela dedução, Carter. Mas falemos disso depois. O garçom chegou à mesa, também me reconheceu. — Está radiante essa noite Carter! O que vão querer? — Uisque. —Disse eu. — Aquele drink de pessego. —Pediu ela. — Batida de frutas. —Pediu eduardo. — E pra comer? Nos três nos entreolhamos. — Uma porção de bolinhas de queijo e uma porção de bolinhas de carne. Anotou os pedidos e saiu da mesa. Vivian passou a mão pelos cabelos, cruzou as pernas e estendeu as mãos sobre a mesa, a procura do maço que eu havia deixado ali. Levou o cigarro a boca esperando que eu acendesse, o fiz, e pela primeira vez naquele dia, pus os olhos nela me sentindo atraído. — Então, Carter... Quando foi que você descobriu que curte de tudo? Sorri, pela primeira vez em minha vida alguém havia me perguntado aquilo e eu tinha muito a contar.
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