Carter ainda sentia como se flutuasse no chão. O caminho de volta pra casa, dentro daquele carro, fora silencioso. Ele passava a mão pela face, se lembrando do curto momento em que seus lábios tocaram os dela. Quando os irmãos chegaram em casa, era quase meia noite, aquele dia tinha passado tão rápido. Isabela olhou para o irmão, jogando a mochila com força em cima do sofá e cruzando os braços. Carter seguiu par a geladeira, voltou da cozinha com uma garrafa de cerveja em mãos e sem entender o por que dá irmã olha-lo daquela forma.
— O que foi?
— Eu quem te pergunto! Que cara de trouxa é essa?
— Nada. — Disse forçando a feição a ficar séria. — Devaneios.
— Quando vou poder ver a mamãe?
— Ela não pode receber visitas.
— Então por que não me levou contigo?
Carter respirou fundo. Colocou a garrafa de cerveja em cima da mesinha de centro. Estendeu os braços em direção aos ombros dela. Os olhos da garota estavam marejados, quase se desmanchando em litros e litros de lágrimas.
— Ela vai ficar bem!
— Você nem ao menos me deixou vê-la! Ela é minha mãe também, Carter! Tenho tanto direito quanto você.
Ele respirou fundo, soltou os ombros dela e foi em direção a minúscula varanda, abrindo a porta para o ar entrar.
— Acredite, foi melhor não ter visto. Isso não ia fazer bem a sua cabeça.
— Eu sei o que faz bem ou não a minha cabeça.
— Sabe? — Caminhou com passos largos e revoltos, estendeu um dos braços da garota, arregaçando a manga da camisa. Expondo o braço repleto de cortes recentes, e incontáveis cicatrizes. — Tem certeza de que sabe?
Ela arrancou o braço das mãos dele. Escondendo os cortes, tentando entender como ele sabia daquilo.
— Não precisa esconder eles, Isa... Não vou te julgar! Mas isso me preocupa, eu sei que esse tipo de coisa não é de uma pessoa mentalmente saudável.
— Como se você fosse um exemplo de sanidade! — Disse gargalhando, debochando do irmão. Passou os dedos sob as pálpebras, suspirando em agonia. — Podemos ir dormir sem brigarmos hoje?
Saiu da sala em silêncio, se trancando no quarto. Carter sentiu um resquício de culpa apertar seu peito, era fortemente angustiante. Olhou para o canto das sala, fitou o velho violão de seu pai, ainda bem cuidado, com cordas de aço recém trocadas, porém havia alguns dias desde que ele entoara qualquer melodia. Sentou-se no sofá, trazendo o instrumento consigo, dedilhou por algumas horas, até esquecer que o tempo haveria de passar, acabou adormecendo.
O som de batidas na porta, quase fez com que Carter caísse do sofá. Esqueceu-se de onde estava, acordou atordoado, sem saber que dias ou que horas eram. Levantou-se, vendo que não tinha terminado a bebida da noite passada, dentinho uma dor horrível no pescoço. Quase tropeçou no violão que estava no chão, soltou um palavrão quando bateu um dos dedos do pé na madeira do sofá. E a porta continuava estrondando-se em batidas.
— Já vai!
Olhei através do olho mágico antes de abrir, me surpreendendo com quem encontrei do lado de fora. De fato, era um rosto que eu não esperava encontrar, não naquele dia, abri a porta com um sorriso largo e folgoso no rosto. Encarei aquele par de olhos cor de mel, o cabelo crespo, crescido em um Black Power perfeitamente redondo, as roupas que mais se assemelhavam a de um gigolô, é claro que não podiam faltar os óculos dourados pendurados na a******a da camisa.
— Achou que eu ia esquecer de você, bonitão?
— Imaginei que viria, mas não tão rápido. — Disse fazendo uma reverência exagerada para que ele entrasse.
Tony era o tipo de cara que conseguia qualquer coisa que você quisesse. Trabalhava para meu pai, mesmo de um presídio, isso tinha sido uma escolha dele. A verdade é que Tony sempre gostou de viver na adrenalina. Eu era prova disso.
Pedi que se sentasse a frente do balcão da cozinha, assim eu conseguiria passar o café e conversar com ele ao mesmo tempo. Ele o fez, vasculhando pelos armários um cinzeiro, o mesmo que sempre usava quando me visitava. Acendeu o cigarro, cruzando as pernas, enquanto o cheiro do café e da fumaça se misturavam pelo local.
— Seu pai tem estado preocupado.
— Ele sempre está.
— Por que não foi visitá-lo? Ou contar que recebeu ameaças?
Ajeitei a postura, no geral eu sempre fui alto, mas naquele momento podia jurar ter chegado aos dois metros de altura.
— Diga a meu pai que eu me resolvo sozinho! Ele está naquele lugar a anos! — Servi o café para Tony, batendo os dedos no balcão enquanto conversava. — Ele não se sente responsável por nossa desgraça? Mamãe doente, Isa se jogando na melancólica e eu tendo que me desdobrar pra manter as coisas em ordem... — Parei de falar quando a mão dele veio em direção do meu rosto. Gostava de quando fazia aquilo. Me lembrava dos velhos tempos, quando o Tony era apenas o cara com que eu saia, não o maldito jagunço que havia se tornado.
— As vezes acho que gosta de sofrer... E entre nós dois — Engoliu o café por entre as palavras que dizia. — achei que esse cargo fosse o meu.
— Eu gosto de ser responsável.
Tony gargalhou, sabia que eu estava blefando sem ao menos sentir.
— Sei, senhor responsável.
— Estou tentando ser.
— Carter, não precisa mentir pra mim. Pode ter me fodidö várias vezes, mas eu não sou as mães de família infelizes que você leva pra cama!
Tony e sua sinceridade quase assassina.
— Não pode me julgar por se um jagunço, e eu não posso te julgar por se vender desse jeito! — Disse soltando fumaça pelas narinas. — mas seu pai não tem gostado de ter um filho prostituto.
— Não sou prostituto!
— E eu não sou gay! Quer grana? Quer sair desse lugar? Pagar as contas de sua mãe e de sua irmã? Faça um serviço sujo de verdade!
Olhei para cima, respirando fundo, como se um resquício de dignidade ainda existisse em mim. Ser filho de quem eu era, não havia sido uma escolha em minha vida, mas tomar as mesmas decisões, aplicar os mesmos erros, era.
— Vou precisar pensar...
Tony travou o cigarro, levantando as sobrancelhas, julgando-me com seu olhar.
— Leve o tempo que precisar. Mas acredito eu, que outras pessoas precisam de sua resposta o quanto antes.
…
Chovia naquele fim de tarde, mas nada se comparava com a tempestade dentro de minha cabeça. Eu estava no meu carro, dirigindo em direção a casa de Amélia, tragava cigarro atrás de cigarro, ansioso com meu futuro totalmente incerto. Ao meu lado estava minha irmã, escolhendo as músicas por mim. Ela sempre carregava fitas consigo, e escolhia a melhor estação de rádio. A músicas que tocava mexeu comigo de formas inimagináveis, era a voz dos anos 50, Amélia Montenegro, cantando suas desilusões. Eu tentava descolar aquela cena de minha mente, tentava esquecer da excitação que aquela mulher causava em mim. Tentava lutar contra um sentimento que nitidamente estava sendo mais forte do que eu. Tudo por culpa daquele maldito beijo!
— Por que está tão calado assim?
— Não estou calado.
— Então eu estou ficando louca! Passou o dia todo respondendo coisas como “ah, claro!” ou “esta certo!” fica franzindo a testa o tempo todo... E deve ter fumado umas 3 carteiras de cigarro!
— São só coisas, Isa.
— Que tipo de coisas?
— Coisas... De homem. — Disse por final, esperando que com aquilo ela deixasse de me questionar coisas.
— Do jeito que te conheço, Carter, sei que isso tem a ver com algum r**o de saia. Como consegue pensar nesse tipo de coisa com tantos problemas ao redor de nossa família?
— É justamente isso que me faz conseguir passar por isso ileso.
***
Sim. Eu tinha um probleminha. Um dos grandes, e isso me acompanhava a vida toda. Ou pelo menos desde quando comecei minha vida s****l. Eu devia ter 13 ou 14 anos na primeira vez que notei o quão viciante era aquilo. E desde lá não parei. É claro que um homem jovem tem um vigor s****l elevado, mas no meu caso era insaciável. Por um momento, pensei que havia algo de errado comigo, que eu estava doente, ou que tinha desenvolvido algum tipo de síndrome.
Então, no auge dos 17 anos, completamente carregado pelo ardor s****l interminável que corria por meu corpo, decidi compreender mais o que me acontecia. Eu podia passar horas a fio trepando com quem quer que fosse, ou até mesmo sozinho, nada conseguia me satisfazer por completo e eu sempre queria mais e mais. Talvez tenha sido em um dos livros da biblioteca que descobri essa palavra pela primeira vez, e, ainda adolescente, não entenderia o real significado dela.
Satiríase.
Também conhecida como hipersexualidade. Uma obsessão que nascera comigo e me acompanhava dia após dia em minha vida. Não era como se tudo em minha vida se guiasse diretamente esse impulso, por mais que quase tudo fosse, durante um tempo eu conseguia controlar.
Porém, depois daquele fatídico dia, eu me senti descontrolado. Repleto de uma vontade lascívia dentro de mim. Acho que Amélia não imaginava que sua presença despertará a pior das obsessões que tive em tempos. Ou talvez soubesse. Ela lia isso em meus olhos, cada vez que me encontrava. E eu sentia como se meu corpo bradasse, e que quisesse devora-la horas a fio. E o pior de tudo, era que aquela maldita mulher gostava de me provocar.
***
O salto fino batia no chão de mármore, vi sua curvas vindo de trás do corredor, com seu decote avantajado completamente guiado pelo corpete do vestido vermelho.
Por que ela usou vermelho naquele dia?
Seu sorriso veio até mim, provocante, sabendo da cobiça de meus olhos. Ela sempre sabia de tudo, e julgo dizer que gostava de ser admirada por mim dessa forma.
— Preciso de um guitarrista. — Ela disse para mim, carregando uma gota de raiva no fundo da garganta. — Querem um Blues. Consegue imaginar Amélia Montenegro cantando Blues?
— É o jeito de conseguir tocar a nova geração. — Disse Eduardo, que a esse ponto estava sentado ao meu lado no sofá da sala, observando a mãe eufórica com a novidade.
— Eu gosto do Jazz, gosto da Bossa Nova, gosto de ouvir instrumentos de verdade! — Caminhou até às garrafas de conhaque, costumava beber o que fosse mais forte para aguentar estar com seus empresários. Porém, dessa trouxe um copo para mim. Ela nunca dividia sua vontade de beber com outras pessoas, principalmente quando o motivo para a bebedeira era a causa de sua chateação.
— Me insulta quando diz que o instrumento que toco não é “de verdade” — Pude ouvir o leve gargalhar de Isabela, mas não olhei para o rosto dela, eu encarava Amélia, e desejava saber suas reações.
— Vai aceitar minha proposta ou não, Carter?
— Proposta? Isso foi uma proposta?
— Vai consegui pagar tudo o que deve! Vai ganhar bem! Vai ter um contrato com uma gravadora!
— Não, eu vou ter um contrato com você! Assim você seria minha chefa!
— Ah! Pelo amor de deus! Viu precisar desenhar para que entenda? — Respirou fundo. — Não vou ser a droga da sua chefa, vou ser sua empresária! Você vai lançar minhas canções como suas e me chamar para fazer o vocal... — levou os olhos para cima, fazia isso quando refletia profundamente sobre algo. — ninguém precisa saber que estamos fazendo isso. Eu não confio em mais ninguém nesse ramo de merda.
— Acho que seria melhor se tia Vivian empresariasse ele. — Sugeriu Eduardo.
Amélia estalou os dedos trazendo um sorriso malicioso de volta aos lábios.
— Você é genial, Edu! — voltou os olhos para mim. — O que me diz?
— E existe a possibilidade de lhe dizer um não, Amélia?