King Narrando
Acordei com a voz da minha coroa vindo corredor, deve de tá falando com a minha irmã. Abri os olhos meio na marra, aquele sol já querendo atravessar a janela, cabeça ainda pesada da madrugada, mas levantei. Fiz minha rotina de sempre: lavei o rosto, escovei os dentes, joguei uma água na cara pra acordar de vez. Depois acendi aquele beck logo cedo, só pra clarear as ideias, porque sem isso parece que a mente não funciona direito. Dei umas tragadas, senti o pulmão aquecer, fechei os olhos e soltei a fumaça devagar, deixando a mente dar aquela alinhada.
Desci as escadas tranquilo, com a fumaça ainda no corpo, e já senti o cheiro do café preto da minha coroa. Entrei na cozinha e ela tava lá, mexendo na panela, ajeitando as coisas como sempre. Na mesa já tava minha princesa, Olívia, prontinha pra ir pra escola, uniforme no corpo, mochila do lado e um sorriso de quem não tem peso nenhum na vida.
— Bença, mãe.
— Deus te abençoe, meu filho.
Cheguei nela, dei um beijo no rosto. Depois fui na Olívia, abençoei também, baguncei os cabelinhos dela e beijei a cabeça.
— Minha princesa. — Ela deu aquele sorrisinho bobo, que só ela sabe dar.
Perguntei pela Flávia. Minha mãe suspirou fundo, como quem já tá cansada de repetir a mesma história.
— Tá dormindo.
Só balancei a cabeça, porque já sabia qual era a fita.
Foi aí que minha coroa largou o café e virou pra mim com aquele olhar sério, de quem precisava soltar algo que já tava guardado fazia tempo.
— Felipe, eu não tô conseguindo fazer tudo sozinha, meu filho. Preciso de ajuda pelo menos pra cuidar da Olívia. Você sabe como é sua irmã, um dia tá bem, no outro passa a semana inteira daquele jeito que a gente já conhece, deitada, sem querer saber de nada e nem de ninguém. Eu já tô cansada, não tenho mais a força que tinha na juventude.
Fiquei quieto, só ouvindo. Ela continuou, voz embargada de leve:
— Eu queria pedir sua permissão pra procurar alguém que cuide da Olívia. Não aguento mais carregar tudo nas costas.
Traguei o resto do beck na mente, mesmo já tendo apagado lá atrás. Respirei fundo, olhei pra minha coroa e vi o peso dela estampado na cara. Eu sabia que a barra tava dura. Eu cuidava de muita coisa, mas não dessas paradas de casa, de criança, de lição de escola, essas fita aí não são meu dom.
Balancei a cabeça devagar, mostrando que tava junto.
— Vê aí, mãe. Mas tem que ser alguém de confiança, tu tá ligada. Eu não vou deixar qualquer uma meter a mão na criação da minha sobrinha, não.
Ela assentiu, e deu pra ver o alívio batendo. Soltei um sorriso de lado, botei a mochila da Olívia nas costas dela e falei:
— Vamo, princesa, que eu te deixo na escola.
A gente saiu, ela segurando minha mão, com aquela mãozinha miúda enquanto caminhava toda saltitante. Esse momento, por mais simples que fosse, me dava uma paz que não tem preço. Botei ela no carro. Fui trocando ideia com ela pelo caminho, perguntando das matérias, se a professora ainda implicava, essas coisas. Ela foi me contando tudo, rindo, falando dos coleguinhas, e eu só curtindo a inocência dela.
Chegamos no portão da escola, desci e peguei ela, agachei, dei mais um beijo na testa dela.
— Se comporta, hein, princesa. Faz as lição tudo e escuta a professora.
— Tá bom, tio. — Ela riu e saiu correndo, toda feliz, mochila balançando.
Fiquei olhando ela sumir no meio da molecada entrando. Soltei um suspiro pesado, acendi outro beck e fiquei parado na calçada, pensando na conversa da minha coroa. Eu sei que ela tem razão. A vida já tinha puxado muito dela, e agora ela quer dividir um pouco do peso. Não é fraqueza, é necessidade. E eu, por mais que eu seja o King do pedaço, também não posso bancar o que dá conta de tudo.
Cheguei na boca, já aquele movimento de sempre. Molecada no corre, vapor gritando preço, rádio chiando nos cantos. Cumprimentei uns, passei direto, cabeça já em outro lugar. Nem sentei direito e meu celular vibrou. Olhei a tela: número do investigador. Atendi de imediato.
— Até que enfim, cüzão. Três dias já, pörra! — soltei na lata.
Ele deu uma risadinha sem graça e mandou:
— Acabei de enviar tudo pro seu e-mail. Espero que você esteja preparado.
A ligação caiu seca, sem mais papo. Fiquei com aquela coceira no peito. Levantei, subi pro meu canto, fechei a porta e liguei o notebook. O barulho do cooler rodando parecia até tambor de guerra. Abri o e-mail, e lá tava a mensagem do safado. Um arquivo anexado, nome da Thaís Maria estampado.
Cliquei. O documento abriu e eu comecei a ler, cada linha batendo na minha mente igual martelada.
“Thaís Maria. Considerada morta em Itatiaia, enterro forjado.”
Parei na hora. — Carälho... essa mina enterrou a própria vida. — Pensei alto, puxando o beck e soltando a fumaça pesada. Continuei a leitura.
“Casada com delegado conhecido como Luiz Urubu, envolvido com agiotagem e crimes diversos. Líder de um grupo de extermínio.”
Meu sangue ferveu. Delegado? Esse pörra que devia proteger a lei era bandido do pior tipo. Agiota, matador, escudo de farda. Senti a revolta subir. Quis socar a tela, quebrar tudo. Minha mente já pensava em arrancar o couro desse cara.
Mas a ficha ainda continuava.
“Registro de violência doméstica não oficial. Suspeita de tentativa de homicídio. Delegado esfaqueou a esposa.”
Parei de novo, encostei na cadeira. Senti um nó na garganta. O cara não só era bandido, como ainda esfaqueou a mulher que dividia a cama com ele.
— Filha da püta — soltei baixo, punho fechado.
Foi aí que caiu a ficha. Olha o que essa mina já passou. Forjou a morte, fugiu da cidade, vive desconfiada de tudo e de todos. Aquele olhar dela, sempre em alerta, sempre calculando saída, agora fazia sentido. Não era frescura, era sobrevivência.
Soltei mais uma baforada e falei sozinho:
— Agora eu entendi, Thais. Tu carrega cicatriz na alma.
Me deu uma mistura estranha. Raiva do delegado, ódio de quem usa a farda pra esconder o demönio que é. E, ao mesmo tempo, pena da Thais. Não pena de coitadinha, mas de guerreira que apanhou do mundo e ainda tá de pé. A dona Vânia já tinha pedido pra eu dar proteção, e eu sempre fico com um pé atrás nessas fita. Mas agora, vendo esse resumo, não tenho como negar. Ela precisa de proteção, e precisa pra ontem.
Mas também não sou otärio. A vida me ensinou a nunca abaixar a guarda. Então sim, vou dar o respaldo que a dona Vânia pediu, vou cercar essa mina pra não deixar ninguém encostar nela. Só que isso não quer dizer que eu não esteja de olho. Ninguém entra no meu círculo sem eu testar, sem eu sentir a verdade no olhar.
Fechei o notebook devagar, apaguei o beck no cinzeiro e encarei o nada, já pensando no próximo passo. Thais Maria não é só mais uma história. É um quebra-cabeça inteiro.