Laís 🌹
Segui o menino e o morro ainda tá do mesmo jeito, mudou bem pouca coisa. Cada rua que eu passava lembrava de uma aventura com a Aline e meus amigos da época. Aline tava chorando e eu tava me segurando pra não chorar. O menino parou em uma rua sem saída, na frente de uma casinha toda destruída. Não tinha ninguém na rua, só tinha três homens armados na entrada da casa.
Aline: Tem certeza que vai lá sozinha, amiga?
Laís: Sim, a Min-ji tá dormindo, não vamos deixar ela aqui no carro e nem vamos levar ela lá pra dentro.
Ela concorda e sai do carro. O menino da moto foi até os seguranças que estavam na porta da casa.
X: Qual foi?
X: Essa veio ver o chefe.
Essa? Fiquei só olhando eles conversarem.
X: Jae, espera aí, marca 5 que já volto.
Morei aqui, mas não lembro de nada dessas falas. Os homens que estavam aqui não paravam de me olhar. Me afastei um pouco e fui pra perto do carro. Passaram uns 5 minutos, o homem voltou e me aproximei.
X: Segue direto e dobra à esquerda, na última porta é o escritório do patrão.
Só concordei e entrei. Assim que passei pela porta já me deu vontade de vomitar. O lugar era nojento, várias garrafas de cerveja, camisinha em todos os cantos, o cheiro de mijo é forte. Cheguei na porta e bati. Demorou uns segundos e eu escutei um “ENTRA”, uma voz grossa. Coloquei minha mão na maçaneta e senti meu corpo arrepiar. Abri a porta e entrei. Fechei a porta com cuidado e me aproximei. O homem tava de costas, mexendo em uma gaveta.
Ele era musculoso, alto, cabelo com luzes, o braço cheio de tatuagem.
Laís: Licença — falei me aproximando da mesa — Sou a filha da Dona Júlia da 10.
Ele bateu a gaveta com tudo e se virou. Quando eu encarei bem, não tava acreditando que era ele. Por que logo ele? Por que ele é dono disso tudo?
Ele não mudou nada, continua o mesmo. O jeito de arrumar o cabelo, o cordão com a inicial da mãe dele, o jeito de me olhar ainda é o de 10 anos atrás.
Encarei ele e não falei nada. Ele me olhava e eu encarei com raiva. Ficamos assim por uns minutos, mas quebrei o silêncio.
Laís: Vim ver minha mãe, mandaram eu subir pra falar com você. Tá eu e minha amiga — falei amiga, não quero parecer íntima desse homem. Falei desviando o olhar dele e com frieza.
DG: Já pode subir, sabe onde é né? — fala se sentando e mexendo nas coisas em cima da mesa, com a voz grossa.
Laís: Não sei onde é, mas vou dar um jeit... — Não terminei de falar, entraram duas pessoas na sala.
X: Viemos assim que soubemos da gatinha.
X: Cadê a patricinha linda que cheg... — quando ele me viu, parou de falar na hora — Não acredito, p***a, é tu mesmo — se aproximou de mim e me abraçou.
Laís: Oi, meu malandro — abracei ele e o tanto que eu senti saudade desse abraço não tava escrito — Surpresa — falei dando um beijo no rosto dele — Caramba, Danilo, você tá grandão.
Danilo: Oi, minha doutora, que saudade de ti, maninha. c*****o, tu tá lindona, viu — diz fazendo eu dar uma voltinha — Por que não me avisou que tava chegando, pô? Ia pegar você no aeroporto.
Laís: Depois nós conversa, ele me chamou aqui — digo olhando pra ele, que tava fumando.
DG: Pode ir, leva ela, depois volta aqui pra nós trocar uma ideia, pô — fala pra Danilo, que só concorda.
Os meninos saíram comigo e fomos até meu carro.
Laís: Aí, mano, que saudade de você — falo abraçando ele. Aline abaixa o vidro do carro.
Aline: Eita que esqueceram de mim aqui, né? — diz sorrindo e olhando pro Danilo — Virou um gatão, nem não, coisa chata.
Danilo: Entrei e nem vi tu aí no carro — fala indo até a porta do carro e abrindo — c*****o, e ainda mais linda pessoalmente — diz passando a mão no rosto da nenê — Tu é mó feia e a princesa do padrinho é mó lindona.
Aline: Eu vou ficar na minha pra não me estressar contigo — fala com cara feia. Esses dois, desde criança, eram assim, como cão e gato. Brigavam por tudo. A gente até falava que eles iam casar quando ficassem grandes.
Laís: Vocês dois nem começam, por favor. Quero ir ver minha mãe, vamos lá — falo fechando a porta e dando a volta — Me desculpa, nem me apresentei. Prazer, Laís — falo com o menino que entrou junto com o Danilo.
Danilo: Ah, pô, esse aí é o Gui, filho da Dona Fátima.
Laís: Caramba, aquele menino que vivia com a gente e não falava nada? — falo assustada. Ele vivia querendo brincar com a gente, mas a gente meio que não deixava e ele também não falava nada. Ele tinha uns 15 anos e era mó tímido. Eu achava ele um fofo e gostava bastante dele — Você tá grandão, vem aqui me dar um abraço — puxei ele pra um abraço e ele nem sabia o que fazer.
Gui: Oh, ih, qual foi? Já entendi, relaxa aí — fala me afastando dele — Pensei que tu ia crescer pelo menos um pouco, mas me enganei.
Comecei a rir e voltei a abraçar ele de novo.
Aline: Tá bom, chega de abraço. Vamos logo sair daqui, meu senhor — fala gritando de dentro do carro.
Entrei no carro e os meninos passaram na frente em cima das suas motos.
Laís: Sabe quem é o dono do morro agora?
Aline: Quem é? A gente conhece?
Laís: A gente conhece e vivemos com ele.
Aline: Para de suspense e fala, mulher!
Laís: Diego.
Aline: Diego? Aquele Diego? — Só concordei e não falei mais nada. Ficamos em silêncio até ela quebrar o silêncio — Realmente nós voltamos, né, amiga? — diz me olhando com os olhos cheios de lágrimas.
Laís: Sim, amiga, nós voltamos. Mas assim que a mamãe melhorar, nós voltamos pra casa, pra nossa vida e, se nós conseguirmos, vamos levar ela com nós — dou um sorriso fraco e volto minha atenção nas ruas. Os meninos parecem doidos em cima dessas motos, misericórdia. Depois de 20 minutos chegamos na frente da casa da minha mãe, a casa que ela me mandou várias fotos toda feliz, porque tinha conseguido realizar o sonho dela. Na frente da casa tinha vários seguranças fortemente armados. Saí do carro e fui ajudar a Aline com a bebê, que ainda estava maravilhosamente dormindo.
Aline: A tia não mentiu quando falou que a casa era grandona, né? — diz admirando a casa.
Laís: Não mesmo, é muito linda.
Danilo: Quer ajuda com ela? — diz pra mim.
Laís: Sim, ela pesa demais, pega ela aqui — coloco a nenê no colo dele. Ele tava morrendo de medo de deixar ela cair.
Aline: Cuidado com minha filha, canalha — diz piscando pra ele e ele dá o dedo do meio pra ela.
Ele passou na frente e abriu a porta, deu espaço pra nós entrar. Por dentro a casa é ainda mais linda.
Danilo: Oooooh, mãaaaae, olha quem veio visitar a senhora — diz gritando e Aline dá um tapa nele por assustar a nenê, que abriu os olhos e voltou a dormir de novo.
Júlia: Menino, tu só sabe gritar. Quem é um... — ela parou na hora e ficou olhando pra nós duas — Não acredito, são vocês, minhas meninas — começou a chorar e fomos na direção dela e abraçamos ela — Não acredito, meus amores, são vocês mesmo.
Aline: Surpresa, tia — diz beijando ela no rosto — A senhora tá lindona.
Laís: Oh, mãe, que saudade da senhora — tava chorando igual criança — Mãe, te amo demais — o abraço que precisei por 10 anos, o abraço que me cura de tudo. Ficamos ali abraçadas por uns minutos.
Júlia: O que vocês estão fazendo aqui? Vem, vamos sentar. Ai, meu Deus, tô tremendo — pega na nossa mão e vamos pro sofá — Por que vocês não avisaram que estavam vindo? Não acredito, são vocês mesmo — abraça nós de novo e ela tava tremendo.
Danilo: Oh, bonitona, se acalma aí, viu? A senhora não pode ficar nervosa, tá tremendo aí — diz sentado no sofá com nós e a Min-ji no colo dele — A menina desse tamanho pesa pra c*****o, tá doido, mané.
Começamos a rir.
Júlia: Deixa eu ver minha neta aqui — diz se levantando e indo até perto do meu irmão — Meu Deus, que perfeição é essa, minha filha — diz olhando pra Aline — Ela é linda demais, olha esse cabelinho liso, essa pele, é muito perfeita, vovó — diz passando a mão no rostinho dela.
Aline: Muito linda, né, tia? — fala jogando o cabelo pra trás — É a mãe toda.
Danilo: Para de mentir, a mina é a cara do pai, porque não parece nenhum pouco contigo, parceira — diz encarando ela e começou a chatice desses doidos — Mas fala pra nós aqui, vocês estão lindas pra c*****o, mó gatinhas.
Laís: Sempre fui linda, meu querido, agora fiquei ainda mais linda — falo mandando beijinho pra ele.
Aline: A gente sempre foi linda, parceiro — diz me abraçando e começamos a rir.
Ficamos ali conversando e minha mãe não tava acreditando que nós realmente estávamos ali. Ela chorava e parava, falava alguma coisa e chorava de novo. Conversamos várias coisas: a nossa vida na Coreia, a gravidez da Aline, o nascimento da Min-ji, entre várias coisas. Mamãe falou sobre as coisas dela aqui e descobri que meu irmão é sub do morro. Eu não sabia que ele fazia isso, pra mim foi um choque real. Minha mãe não gostou muito, mas aceitou, né? Ele é de maior e sabe o que faz. Como ela falou: “Vou orar e pedir a Deus que o proteja todos os dias”. Ele ficou um pouco com nós e ajudou Aline a colocar a nenê no quarto e teve que voltar pro trabalho. Fiquei matando a saudade da minha rainha. Aline e eu só sabíamos chorar. Ainda não chegamos no assunto da cirurgia, vou deixar pra conversar isso amanhã.
[...]
Já era quase 21:30 da noite e eu tava na varanda do quarto. Tinha acabado de tomar banho, coloquei uma roupinha simples. O movimento do morro tava intenso. Vamos ficar aqui até a próxima semana, vou alugar um apartamento fora daqui. Mamãe chorou ainda mais quando Min-ji acordou e, quando viu minha mãe, só faltava gritar de felicidade.
Me sentei na varanda e fiquei pensando em tantas coisas que passei nesse morro, desde a hora que cheguei aqui. Não consigo tirar ele da minha cabeça. A primeira pessoa que eu vi foi ele. Por que logo ele? Queria evitar ele, mas foi logo ele. Ele não mudou quase nada, só ficou mais musculoso e bem grande. Saí dos meus pensamentos com alguém batendo na porta. Mandei entrar e entraram Aline e Danilo.
Laís: Logo vocês? — falei virando meu rosto pra rua. Eles sentaram do meu lado.
Danilo: Ainda não acredito que vocês estão aqui, mané — diz pegando na nossa mão.
Aline: Até eu ainda não acredito que tô aqui — fala olhando pro céu — Jurei nunca voltar e olha eu aqui. Engraçado a vida, né?
Ficamos calados e ele já sabia que voltar não estava no nosso plano. Ele é um irmão que apoia em tudo, sempre me deu conselho quando eu tava aqui e quando fui embora. Ele não aceitou muito no começo, mas depois viu que eu tava sofrendo. Ele me apoiou muito.
Danilo: Vamos dar uma voltinha, comer um açaí? — diz quebrando o silêncio e se levantando.
Laís: Sem chance — corto logo ele — Por mim vou ficar dentro dessa casa até minha mãe melhorar.
Aline: Não tava muito afim, mas é açaí, né? — diz me olhando com aquele olhar de cachorro que caiu da mudança e sabe que consegue tudo que quer.
Laís: Vocês são chatos, aff. Vamos lá logo então, mas vamos de carro, não quero andar não.
Danilo: Muito fresca, credo. Vão se arrumar, vou esperar vocês lá embaixo — ele sai e Aline também.
Abro a mala e procuro uma roupa confortável. Escolhi uma blusa de manga comprida preta e um short preto com umas listras brancas. Coloquei um tênis branco, peguei uma bolsinha só pra colocar a chave do carro e o celular. Deixei o cabelo solto. Não sou de vesti roupa assim, mas Aline enche o saco e comprou várias roupas pra usarmos aqui.
Já estava pronta. Tirei uma foto e saí do quarto e os dois já estavam na sala só me esperando.
Aline: Eita, doutora Laís, que perfeita — diz rindo — Tá linda, amiga.
Esse estilo de roupa não é muito minha praia, mas fazer o quê, né? Por mim eu só ia ficar com roupa social ou pijama.
Laís: Obrigada, amiga. Vamos antes que eu desista — falo pegando a chave do carro que tava na mesinha.
Danilo tava com uma calça comprida preta, uma blusa branca da Lacoste e um tênis preto, corrente no pescoço. Deu pra ver a arma marcada na cintura e tava cheiroso demais. Meu irmão é maravilhoso e lindo demais.
Aline tava com um conjunto cor de vinho, uma sandália brilhante e uma bolsinha de lado. Minha amiga é simplesmente perfeita.
Saímos de casa e fomos de carro. Entramos e Danilo me falou o caminho. Fomos conversando e rindo muito. Minutos depois já estávamos na pracinha.