- Preciso de um advogado que seja bom, confiável e que não seja dessa cidade – Lara informou a Laura depois do almoço, quando sozinhas na cozinha, elas terminavam de arrumar as louças.
- Por que isso? Theo é um excelente advogado.
- Eu sei disso, mas quero alguém de fora.
- Pergunte a ele, com certeza ele deve conhecer os melhores advogados do país.
- Não seja sonsa Laura, não está vendo que Lara não quer que Theo saiba do que se trata! – Larissa revirou os olhos se sentando em volta da mesa – estou errada?
- Não! – Lara admitiu a contragosto, vendo Luana também entrar na cozinha.
- é sobre o seu ex, não é? O duque gatinho – Larissa sorriu curiosa – conta aí pra gente o que rolou santinha! – Larissa pediu com um sorriso travesso.
- Hmmmm! Escondendo coisas do Theo! Nunca esperei isso de você maninha! – Luana se sentou do outro lado da mesa, animada com o rumo da conversa. Nervosa Lara olhou para os cantos da cozinha, procurando pelas crianças.
- Não se preocupe, estão todas assistindo desenho.
- Não existe nenhum ex-namorado, eu só não quero envolver o Theo nesse assunto, tipo, são coisas minhas, só isso.
- é mesmo! – Luana fez cara de que não comprava a história.
- Posso te arrumar um excelente advogado, amigo do Jonas, mas só se me contar vírgula por vírgula dessa história – Larissa brincou com as sobrancelhas, provocando a garota.
- Eu já falei que não foi nada, só houve um m*l-entendido e preciso de um advogado.
- Que m*l entendido? – Laura perguntou confusa, secando as mãos no pano de prato. Lara olhou para as três irmãs e mordendo o lábio inferior, também se sentou.
- Acabei escrevendo mais do que deveria em um caderno. O caderno caiu nas mãos do duque, que agora quer me processar porque escrevi umas coisas sobre ele, é só isso! Nada demais.
- Vixi! – Larissa perdeu o ânimo – e o que falou sobre ele? O xingou e desejou a morte dele como fazia com seus diários do colégio?
-Nunca desejei a morte de ninguém! – Lara protestou.
- Mas você matou uns tantos com sua caneta.
- Aquilo eram só histórias de terror! – Lara bufou.
- E que histórias! – Laura fez uma careta.
- Achei que tivesse parado de escrever diários, depois que a mamãe te deu uma surra e ateou fogo em todos – Laura lembrou.
- Eu parei, esse foi o último! – Lara admitiu arrependida.
- Você já conversou com o Theo sobre o seu problema? – Laura continuou fitando a garota.
- Pra que falar sobre isso? Lara nunca mais teve essas coisas, você agora é normal, não é? - Luana fitou a garota.
- é claro que é, se não fosse, ela não estaria noiva. Dããã! – Larissa deu um tapa na própria cabeça, como se chamasse Luana de burra.
- é verdade! – Luana sorriu tampando a boca – já imaginou se ela não tivesse mudado e ainda fosse parar no hospital toda vez que o cara chegasse perto dela? – Luana lembrou, entre gargalhadas que lembravam uma crise de soluços.
- Pra mim, o pior dia foi quando ela fez xixi nas calças! – Larissa caiu de joelho, rindo tanto que quase urinou no chão da cozinha.
- Nem me lembra! – Laura tampou a boca, tentando não rir.
- Vocês são ridículas! – Lara falou irritada.
- Para com isso, não seja careta, admita que também quer sorrir! – Luana provocou entre gargalhadas – Coitado do Isaque, ele achava que fedia e que era por isso que Lara corria dele! – a garota m*l conseguiu terminar de falar, de tanto que sorria.
- Que irmãs maravilhosas eu tenho! – Lara bufou se levantando, precisava retornar para o trabalho.
- Acho que seria justo falar sobre isso com o Theo, ninguém é perfeito! Todos temos problemas! – Luana abriu um bombom de chocolate.
- Eu sei que ninguém é perfeito, mas não quero falar sobre isso nem com ele, nem com ninguém. Não quero ninguém pensando que sou doida ou mais alguém pra rir de mim! – Lara falou de pé perto da porta da cozinha.
- E o que diabos escreveu nesse diário? – Luana perguntou curiosa.
- Coisas idiotas de adolescente desocupada! – Lara bufou – vai me passar o número do tal advogado? – ela olhou para Larissa impaciente.
- Que advogado? – a garota franziu o cenho perdida -Ah! Sim, claro, trago o número dele pra você depois.
- Não seja burra Lara, não está vendo que Larissa está te passando a perna? – Luana levantou balançando a cabeça em reprovação – você tem sorte do Theo ser um cara bacana, lerda como é, carregaria uma coroa de chifres na cabeça e ainda daria bom dia para os vizinhos toda manhã.
- Não chame sua irmã de burra Luana! – Violeta reclamou entrando na cozinha.
- Por que os vizinhos? – Lara não entendeu a associação.
- Do que estão rindo? – Violeta quis saber.
- Dos chiliques que a Lara dava quando chegava perto dos garotos bonitos – Luana continuou sorrindo.
- Não há nada de engraçado nisso! – Violeta fez sinal de reprovação com a cabeça – se eu fosse vocês, iria ver o que as crianças estão aprontando, elas estão silenciosas demais!
Laura imediatamente correu para a sala constatando que a casa realmente estava mais silenciosa que o normal.
- Vitor! – o grito de Laura estourou seguido do choro estrondoso do garoto.
- Você bateu no meu filho? – Luana pulou ao lado do filho como uma Leoa.
- Olha o que ele fez no cabelo da Beatriz! – Laura mostrou o bolo de chicletes grudado na cabeça da menina – Eu vou ter que raspar a cabeça dela! – Laura falou quase chorando.
- Você sabe bem que o Vitor tem hiperatividade e que ninguém pode gritar com ele – Luana abraçou o filho que chorava trêmulo abraçado a ela.
- Se sabe disso, deveria ter mais atenção com o seu filho, não pode deixar ele sair fazendo tudo o que quer.
Naquela tarde entre uma tradução e outra, Lara ligou para alguns advogados da capital mais próxima de Gramado, sempre perguntando a idade do advogado e o valor dos honorários. Depois de várias ligações, conseguiu agendar uma visita para o outro dia, o que havia sido o verdadeiro divisor de águas, pois quase todos os escritórios de advocacia não forneciam atendimentos aos sábados.
Quando Lara saiu da matriz B&A, Theo a estava esperando, eles ainda não haviam se falado desde que haviam retornado de viagem. Ela olhou para o carro pensativa, mas logo entrou nele.
- Você está bem? – Theo perguntou dando um beijo leve nos lábios dela.
- Sim e você? – ela prendeu o cinto de segurança.
- Senti falta de uma ligação ou uma mensagem! – ele reclamou em um tom amigável.
- O dia foi tão corrido que nem vi passar! – ela respondeu como se nada houvesse acontecido entre eles.
- Mamãe quer que vá almoçar conosco amanhã! – Theo passou o recado de Luiza.
- Amanhã terei que acompanhar Larissa até a capital.
- Se quiserem posso levá-las.
- Não se preocupe, Jonas vai nos levar.
- E por que precisa ir, se o esposo dela vai junto? – Theo perguntou tentando não demonstrar muito interesse.
- Só pra fazer companhia mesmo – Larissa era a única das três irmãs casadas, que ainda não tinha filhos.
- Bom, já que é só um passeio, poderíamos ir no meu carro e eles vão no deles – Theo sugeriu e Lara ficou em silencio – a menos que não queira que eu vá, é claro!
- Eu gostaria de ir sozinha! – ela não olhou pra ele.
- Está certo! – Theo respondeu em um tom de voz frio, ao perceber que Lara estava mentindo pra ele.
- Me desculpa, eu... – ela tentou se justificar.
- Vai encontrar um advogado! – ele respondeu seco – não sou i****a Lara!
- Não queria mais aborrecê-lo com esse assunto – ela se justificou.
- O assunto não me aborrece, até me desperta bastante interesse, o que não suporto são mentiras – falou ríspido – desde que você recebeu essa intimação, parece outra pessoa. Nunca te imaginei mentindo pra mim.
- Eu não menti, eu só não falei o que iria fazer. – Ela se justificou e Theo deu um sorriso irônico, com os lábios repuxados para baixo, sem mostrar os dentes, como se estivesse rindo de si próprio.
Os dois permaneceram em silencio até chegarem à casa da garota.
- Você vai entrar? – ela perguntou ao perceber que Theo saiu do carro, mas não fez menção de entrar.
- Você quer que eu entre? – ele a avaliou infeliz, olhando para a casa como se não tivesse mais o direito de entrar nela.
- Por favor Theo! Não torne tudo mais difícil! – Lara olhou pra ele aborrecida.
- Eu recebi um e-mail da embaixada com todo o processo anexado- Theo falou e os olhos de Lara se arregalaram carregados de pavor – gostaria que soubesse que vou ler os documentos.
- Não! – a voz de Lara soou firme, carregada de convicção – eu não permito que você leia, entendeu? – Ela falou tomada de fúria.
- Não acho que possa me impedir de fazer isso! – ele pronunciou as palavras com uma frieza c***l, que até ele desconhecia.
- Se fizer isso – Ela o fitou nos olhos com uma determinação que Theo jamais presenciara – nosso relacionamento estará acabado – Theo olhou para a garota perplexo, levando alguns segundo para digerir as palavras, depois entrou no carro e saiu sem se despedir. Lara tremendo caminhou vacilante para as sombras formadas entre sua casa e o muro que a contornava e se sentando no chão começou a tremer descontroladamente. Naquele momento tudo o que ela mais desejou foi voltar no tempo e nunca ter visto Hurg na vida.