Brianna não tinha entendido nada do que havia se passado com Mateo. Ele tinha sumido escadas acima e depois de se despedir de Lilith, ela foi atrás dele. Os corredores da mansão eram grandes, havia quatro quartos, mas no fundo, ela já sabia onde ele estaria.
Foi seguindo essa intuição que chegou ao antigo quarto deles. O lugar era grande, mas atualmente, estava completamente vazio, em exceção pela enorme cama no meio do quarto.
Chegando lá, Mateo estava em um canto e em suas mãos, um porta-retrato, com uma foto da família deles. Era ela, Mateo e Joanne em uma viagem ao Hawaii quando a menina era um bebê.
- Esse foi um dos melhores dias da minha vida. – Falou ela, olhando a foto, mas ainda sem se aproximar. – Depois de tantos anos dizendo que eu queria ir ao Hawaii, você me surpreendeu meses depois do nascimento de Joanne. Foi uma das melhores surpresas que eu tive.
Mateo fungou.
Era bom que o quarto estivesse cercado por sombras, porque assim, ele não demonstraria nenhuma fraqueza a Brianna. Não que ele pensasse que homens não pudessem chorar. É só que Mateo era um alfa, um líder a ser respeitado e seguido. Permitir-se chorar não estava em seus termos.
- Joanne m*l queria sair do mar. – Ele passou o rosto no braço, tentando não olhar para a esposa. Sim, porque ela era sua esposa, não de James. – Você ficou preocupada que ela engolisse a água, mas JoJo parecia uma sereia que encontrou seu lar.
Devagar, ela foi se aproximando, mas não o virou ou não tocou nele.
- Eu não sei o que você sente ou o que você passou. – Começou falando um pouco baixo. – Eu sei que você quer que todos paguem pelo que fizeram, mas... Acredito que nem todo mundo merece morrer no mesmo ponto, Mateo. – Falou, sem se alterar. – As pessoas têm motivos por suas ações.
- E quais motivos essas pessoas tiveram para decidir me m***r, Brianna?! – Mateo se levantou e se virou para ela, a voz exaltada. – Me diz, quais foram os motivos do seu querido namorado de infância ter apoiado seu atual marido a atirar em mim? Em mim, Brianna! – Mateo jogou o porta retrato sobre a cama, com raiva. Era como se ele liberasse, finalmente, todo o ódio que havia dentro dele. – Eu perdi cinco anos da minha vida! Perdi cinco anos da vida da nossa filha. Eu não vi a Joanne crescer, aprender a ler ou andar de bicicleta. Não, meu amor. Eu não vi nada disso. Eu fiquei na cama de um hospital dormindo por anos e quando acordei, eu não sabia nem meu próprio nome.
Mateo não percebeu, mas as lágrimas começaram a cair. O desespero, a angústia dele, tudo começou a esvair.
Ela queria se manter forte para aquele momento, mas ver Mateo chorando, a fez ter lagrimas nos olhos. Ela enxugou as dele, pegando em suas mãos.
- Lembre-se quem realmente puxou o gatilho, quem fez você ir parar em uma cama de hospital. – Ela falou, dando de ombros. – Tem gente que merece isso bem mais do que outras. Keith sempre teve inveja e ganâncias que levaram ele a cometer muitos erros, não só esse.
Brianna se aproximou e abraçou Mateo. Ela entendia todo o sentimento dele com todos os traidores e ela não o culpava. Ele deveria só entender o porquê estava fazendo aquilo.
- Você não é assim, não é como eles. Você tem uma oportunidade de começar tudo de novo. Se é o que quer, tudo bem. Mas, não quero que se arrependa.
Mateo desabou nos braços de Brianna. Chorou feito um menino desolado, perdido na vida e sem esperanças alguma.
Ele precisava daquilo, precisava expurgar de si toda a mágoa que ele guardou e alimentou por anos. E Brianna era seu alicerce. A única para quem ele se abria e mostrava com feridas e cicatrizes tão feias que só ela poderia amá-las.
Em determinado tempo, eles foram parar na cama. Dessa vez, Mateo já havia parado de chorar e segurava em seu colo, a mulher de sua vida.
- Quando Jackson me contou que você tinha casado com McLean, por um minuto, eu quis morrer de verdade. – Ele disse, passando a mão no rosto de Brianna. Seus olhos brilhavam fixos nos dela. – Tive medo de que você tivesse me esquecido. Que você tivesse deixado de me amar. Foi o minuto mais longo da minha vida. Meu cérebro demorou a entender o que meu coração dizia: que nosso amor era mais forte que a morte.
Brianna suspirou.
- Eu tive que fazer isso para manter minha vida e a de Joanne intactas. Fiz mais por ela do que por mim. James queria ser como você. Ele queria ser você. – Ela abaixou a cabeça. – Eu fiquei doente, chorava pelos cantos. Me perguntava como nossas vidas tinham virado de cabeça para baixo. – Ela olhava o chão, lembrando de tudo o que havia se passado. – Eu sentia nojo quando ele me tocava, quando tentava ser quem não era. – Ela voltou a olhá-lo. – Você não sabe o quanto eu desejei que você estivesse vivo, aparecesse em casa e matasse James. – Ela sorriu. – Eu sonhava com isso, de verdade. Quando acordava, percebia que tinha uma realidade completamente diferente.
E era o que ele mais queria. O dia que James seria morto.
Mateo nem conseguia imaginar o quanto fora difícil para Brianna se sujeitar a se casar com alguém tão imundo quanto James. O que só o fazia sentir mais orgulho de amá-la.
- Sabe de uma coisa? – Ele segurou o queixo dela, com carinho. p***a, Brianna tinha o dom de fazer o coração dele disparar. – Aquele i*****l não é seu marido de verdade. O casamento de vocês não tem validade nenhuma, porque eu estou vivo. – Mateo deu de ombros, como se não se importasse. Então, riu. – Não que eu não esteja adorando esses encontros as escondidas. Ser o amante misterioso é até divertido. Mas, você é minha mulher.
A voz de Mateo foi diminuindo o tom, algo que ele sabia bem que afetava de Brianna de uma maneira única.
- Minha e apenas minha, Brie. – Mateo fechou os olhos, seus lábios próximos do de Brianna. – MINHA mulher... Pobre do infeliz que ousou se colocar entre nós. Ele vai pagar com sangue.
Brianna se arrepiou com o modo que ele havia falado. Nunca deixou com que outro homem falasse daquele jeito, apenas o único que conquistou o seu coração.
- Eu concordo. Todos eles vão pagar. Ousaram tirar de mim o meu mundo, mas ele voltou para mim e agora, eu vou fazer de tudo para que paguem por isso. – Ela encostou sua testa na de Mateo, com o coração acelerado. – Eu te amo demais, você não sabe o quanto essa ausência só me fez concluir de que fomos mesmo feitos um para o outro e vamos voltar a ter nossas vidas de novo.
E assim, ela não deu tempo que Mateo respondesse, apenas o beijou. Beijou com toda necessidade que tinha, de todo o tempo que esteve longe. Agora, eles iam ter suas vinganças.
***
Quando Jackson O’Brien lhe propôs se infiltrar no bando de Garret Ottman e conquistar o posto mais alto de confiança do dono da American Dream, Luis Martinez não questionou.
Até mesmo se tornar o cão de guarda e aguentar os insultos de Lilith, ele aceitou. Mas, andar no shopping feito um carregador de compras para uma mulher baixinha e abusada não estava lhe deixando satisfeito.
Luis respirou fundo, vendo Lexi caminhar... Não, a mulher não caminhava, ela saltitava como a p***a de uma criança feliz, indo de loja em loja, enchendo os braços dele e de Tom de sacolas.
- Eu sei que a senhorita Savóia disse que era para comprar bastante coisas, mas acho que isso é um exagero. – Luis reclamou, mexendo os braços, mostrando as diversas sacolas que carregava para Tom.
Eles estavam em frente a mais uma loja de sapatos. A quarta em menos de meia hora. Qual era o problema das mulheres com os sapatos?
Tom sentia a mesma raiva que o colega de profissão ao seu lado. Ele aguentou muita coisa, mas nem Brianna e sua raiva por ele o fazia carregar tantas sacolas.
- Essa baixinha abusada está se divertindo as nossas custas, isso sim. – Ralhou, bufando. Ia acabar com aquele martírio. – Senhorita Cabrera, acredito que já deu de compras por hoje.
Lexi estava dentro da loja, provando vários sapatos e desfilando com eles. Tudo o que comprava, entregava aos dois seguranças. Eles já estavam cansados e irritados, mas ela, só estava se divertindo.
- Ordens são ordens, patetas e vocês estão aqui para me ajudar. – Ela fez pose com uma sandália de tiras preta. – O que acham?
Luis engoliu seco, tentando não focar seus olhos na perna bem torneada de Lexi.
- É uma sandália, senhorita. – Respondeu, dando de ombros. – Para mim, é igual as outras que já comprou.
Lexi balançou o pé para um lado e depois para o outro, analisando as tiras da sandália e se eram confortáveis. Levantou-se do banco e caminhou, até os seguranças, dando uma voltinha.
- As outras foram para Brie. Já esta é especial. – Ela explicou, calmamente, desfilando até a frente de um espelho. – É de um estilista bem famoso e Lili precisa impressionar o i*****l do Ottman para fazê-lo achar que ela está fazendo suas vontades. – Mexendo a mão, ela chamou por Tom. – Vem cá, tatuado. Ajeita a fivela para mim, por favor.
Ninguém nunca havia feito Tom ficar sem jeito, até aquele momento. Ele engoliu em seco e trocou olhares com Luis. O homem só deu de ombros.
Então respirou fundo, largou as sacolas e assim que abaixou, Lexi colocou o pé em cima do banco. Ele admirou a mulher de baixo para cima. Havia um sorriso em seus lábios que o deixava um tanto apreensivo. Arrumou a sandália e se levantou, enquanto ela saiu olhando pelo lugar.
- Perfeito. Vou levar. Vai ficar lindo naquele vestido verde que comprei para ela. – Comentou Lexi, toda sorridente.
Tom acompanhou ela com o olhar.
- Essa baixinha abusada até que é interessante. – Disse em voz alta, sem tirar os olhos da mulher. – Já se sentiu diferente com alguém?
Luis foi tirado de seus pensamentos pela pergunta do colega. Ele olhou, carrancudo para Tom.
- Está tentando me dizer que se interessou pela baixinha abusada?
Tom não respondeu e continuou observando Lexi conversar com o vendedor da loja, pagando as compras. Ele não sabia o porquê, mas aquilo o incomodou. O interesse de Tom por Lexi não era de sua conta, certo?!
- Alkmmar, além de amiga dos patrões, a senhorita Cabrera é nossa missão por hoje. – Falou, aprumando os ombros e enchendo o peito de ar. – Se eu fosse você, me lembraria disso. Ela é proibida.
Tom não respondeu novamente. Apenas voltou a olhar Lexi, que voltava feliz por mais uma compra. No fundo, ele estava sim interessado nela, mas ao mesmo tempo, ele sentiu que as palavras do colega eram de modo completamente diferente. Então, que o tempo falasse se realmente, aquela abusada seria proibida para ele.
***
Os jardins da mansão Hale já viveram dias melhores. Lilith lembrava bem de como o gramado era verde e grandes roseiras cobriam as cercas. Nos fundos, uma área de lazer com churrasqueira, piscina e brinquedos de parquinho construídos para Joanne. Do outro lado, havia o chafariz e um balanço embaixo de uma árvore.
Lilith caminhou, sabendo que estava sendo seguido por Chuck e Jackson. Ela estava feliz, mesmo sabendo que levaria algumas semanas para que tudo voltasse ao "normal". Se é que depois de tanta dor, ainda existisse um pedaço dela que poderia se regenerar e voltar a ser como antes.
Lilith se sentou no balanço e começou a mexer as pernas devagar, apenas para que se balançasse um pouco.
- Jackson, como está sua casa? – Perguntou, de repente. Lilith tinha um apartamento na zona norte da cidade, mas na época que namorava Chuck e Jackson, ela passava mais tempo na mansão O’Brien. – Garret não deixou que eu pegasse minhas coisas e ainda vendeu meu apartamento. – Ela bufou. – i****a.
Jackson encostou de um lado da estrutura do balanço, colocando as mãos nos bolsos.
- Bom, lá está... Apresentável. – Respondeu ele, pensativo. Olhou para os lados, mesmo que fosse seguro estar ali, ele não queria se arriscar. – Quer dizer, tudo ficou diferente nos últimos anos, eu não foquei muito na arrumação ou qualquer coisa. – E olhou para Chuck. – Eu tinha outros assuntos a tratar.
Chuck abaixou a cabeça, sabendo muito bem do que se tratava. Suspirou.
- Eu nem sei como é lá mais. – Comentou, olhando para frente. Ele olhou à frente, deixando seus olhos azuis em destaque com a iluminação natural do dia. – Quando voltarmos, vou ajudar na limpeza. Novos tempos, não é mesmo?
É.
Talvez.
Apesar de perceber que os irmãos voltaram as boas, Lilith notava que alguns obstáculos entre os três ainda estavam ali. Tão presentes que podiam ser tocados.
- É isso o que você quer? – Lilith ergueu os olhos para o gêmeo loiro. – Eu disse a Jackson que entenderia se nosso relacionamento mudasse. Foram muitos anos, eu precisei estar com Garret e vocês... – Um suspiro longo e profundo cortou a frase de Lilith. Deus, como era dificil aquela conversa. – Jackson me disse que não, mas vocês tiveram outras mulheres, não é? Não precisam mentir para mim, eu sei que tiveram. – Outro suspiro. – O que eu quero dizer, é que você não me deve nada, Chuck.
Chuck e Jackson trocaram olhares.
- Passa-se os anos e a sua insegurança nunca muda, não é, Lilith? – Perguntou Chuck, olhando para ela. – Você e Brianna não tiveram outra escolha a não ser sobreviver. – Ele tentou fazer com que a ruiva entendesse tudo aquilo que eles passaram. – Acho que tudo isso que passamos foi um grande aprendizado para todos e o maior de todos... – Ele pensou. – Foi para perceber que não dá para ficar longe de quem amamos. Foi nessa que eu me enfiei nas drogas e nas bebidas de vez.
Jackson respirou fundo.
- Eu e Chuck vamos cuidar muito bem de Garret e fazê-lo pagar por tudo, a pergunta é se você realmente quer continuar. Eu percebi que estava insegura na reunião em relação a tudo. Não quero que se sinta obrigada a fazer isso. Podemos acabar com Garret de outros modos. Eu ia amar colocar uma bala na cabeça dele.
Era tudo o que ela mais desejava. Garret morto e no inferno para que ele nunca mais a machucasse.
- Eu não me sinto obrigada, Jackson. – Disse Lilith, se levantando do balanço. Ela cruzou os braços e ficou de frente para os dois homens, dando as costas para o chafariz. – Eu faço tudo o que for necessário para ter nossa família de volta. Se eu tenho que fingir carinho por aquele nojento, eu vou fingir. Mas, vocês precisam entender que eu não sou mais a Lili que vocês conheciam. Algumas coisas... – Ela tinha que falar tudo a eles. Só assim, Lilith teria certeza se o amor deles ia vencer no final. – Caramba! Vocês dois tem alguma ideia do que ir para a cama com Ottman todos esses anos fez comigo? Tem ideia de que...
O estômago de Lilithe embrulhou. Ela arfou, levando a mão a boca. Um cheiro de podre, de musgo molhado e mofado chegava até a ela e lhe deixava com ânsia.
Os dois homens se precipitaram a frente para socorrê-la.
- Lili. – Falou Chuck, segurando em seu braço. – Lili, o que foi? O que você tem?
Jackson olhou de um lado para o outro.
- Eu vou buscar água para ela. – E saiu correndo na direção da mansão.
Chuck continuou com ela, que parecia enjoada e a fez voltar para o balanço, agachando na frente dela.
- Você precisa parar de ficar dizendo que mudou por dormir com aquele verme. Precisa entender que nesses cinco anos, todo mundo teve suas lutas, suas barreiras para enfrentar. Lili, nada vai ser como antes, ninguém será como antes. A vida que tivemos no passado não será mais vista. Só o tempo nos dirá como estaremos. – Ele pegou uma de suas mãos. – Mas saiba que sem você, nossas vidas não será a mesma.
- Chuck...
Lilith sussurrou, tentando respirar pelo nariz e soltar pela boca. Pensou se havia tomado café da manhã, mas estava tão ansiosa que engoliu a comida de qualquer jeito. Seria isso?
Ela passou a mão pelo rosto de Chuck, vendo nos olhos azuis dele toda a sinceridade de seu sentimento.
- Eu te amo. – Confessou, com uma lágrima rolando pelo seu rosto. – Eu te amo e eu não quero te perder de novo. Nem você. Nem Jackson. Por favor, por favor... Eu não posso continuar mais se vocês não estiverem esperando por mim.
Chuck tomou as mãos dela por completo e as beijou.
- Então entenda que sem você, nada disso vai funcionar. Então, aguente mais um pouco, vamos fazer tudo dar certo, logo Garret estará morto e vamos tentar buscar nossa felicidade de volta. – Ele olhou para ela, sorrindo. – Consegue esperar? Só mais um pouco... Por nós.
Por nós...
O mesmo pedido que Jackson lhe fizera semana antes.
Lilith abriu um sorriso, já chorando.
- Por nós, meu amor.
Lilith se jogou nos braços de Chuck e o beijou. Ela o amava e não queria se separar dele. Nem de Jackson. Imagina que horas mais tarde não estaria ao lado deles, partia seu coração. Lilith queria ficar ali, perdida nos beijos e nos braços dos homens que ela pertencia.
O cheiro voltou a incomodá-la e Lilith se afastou.
- d***a, manda Mateo limpar esse chafariz. – Reclamou, levantando de novo e vendo Jackson se aproximar com a água. – Está podre. Deve ter bichos e mosquitos. – Ela estendeu a mão. – Amor, me dê isso ou vou vomitar.
- Isso está estranho. – Falou Jackson, entregando a água para Lilith. – Não estamos sentindo esse cheiro que você está sentindo.
De repente, Mateo e Brianna surgiram pela porta dos fundos, indo na direção deles. Brianna escutou o que Jackson havia dito.
- O que houve?
- Lilith está se sentindo enjoada e disse ter sido o cheiro do chafariz. – Falou Chuck, tendo a atenção de todos. – Eu acho que é o calor. Está muito quente hoje.
Brianna cerrou o cenho, olhando a amiga. Aquilo estava estranho demais. Talvez fosse um pouco da paranoia ou até mesmo o calor como Chuck havia dito, mas ela ficou desconfiada, pois já havia sentido aquilo antes.
Lilith bebeu o copo todo de água.
- Não. – Falou, devolvendo o copo para Jackson. – Tenho certeza de que é o chafariz. Olhem para essa água. Deve estar parada aí há semanas. Esse cheiro está insuportável.
Mateo cerrou o cenho, avaliando o chafariz desativado. Havia mesmo água no fundo, com uma cor esverdeada e era provável ter lodo no fundo.
- Vou pedir para alguém ver isso, não se preocupe. – Disse ele, com as mãos nos ombros de Brianna. – Mas, agora você e Brie precisam se arrumar. Tom, Luis e Lexi estão voltando. Parece que ela seguiu ao pé da letra seu conselho de exagerar nas compras.
A informação fez Lilith sorrir. Estava escorada em Chuck.
- Ótimo, os cachorros devem estar superfelizes de carregarem as sacolas. – Lilith tentou brincar, mas ela sabia que tinha algo errado com o que estava sentindo.
***
Nascido e criado em Royal Echo, Keith Speno aprendeu que nem tudo é o que parece ser. Óbvio que a conversa com Garret Ottman o deixou com uma pulga atrás da orelha, mas antes de atirar em Jackson O’Brien, Speno precisava saber se o sócio tinha mesmo desviado a mercadoria.
Jackson tinha dinheiro. Ele não precisava roubar, certo?
Todas as vendas das armas e dos contrabandos eram divididos por quatro partes iguais, embora James McLean, por ter a liderança da cidade, recebia um extra de 10%.
Keith dirigiu seu carro pela zona oeste da cidade, se perguntando porque Garret foi tão calmo em relação às armas que faltavam. Era como se o dono da American Dream quisesse que Speno fosse m***r Jackson. Isso sim, seria perfeito para Garret.
Em dúvidas, Keith parou o carro na frente da mansão O’Brien. O lugar parecia vazio, mas um segurança o recebeu. No escuro, Keith quase jurou estar vendo um fantasma tamanha semelhança dos gêmeos com seu primo morto, Mateo.
- Nathan ou Samuel? – Perguntou Keith, depois de sair do carro. O segurança olhava para ele, mas não respondeu. – Bom, tanto faz. O’Brien está aí? Preciso falar com ele.
- Pode entrar, vou avisá-lo pelo rádio. – Respondeu, sabe-se lá qual dos gêmeos.
Será que eles não podiam ter nascido como O’Brien? Fáceis de serem distinguidos? Keith acenou com a cabeça e passou pelo portão de ferro enferrujado.
Andou por todo o jardim, sabendo que estava sendo vigiado, mas não olhou para trás. Era natural que desconfiasse dele. Talvez, ele devesse ter trago seus seguranças também.
Endireitando os ombros, ele bateu na porta principal da mansão.
Jackson havia sido informado por uma mensagem em seu celular que Keith estava em seu portão. Ao inves de se preocupar, ele sorriu. O plano perfeito estava em andamento, por isso, avisou as pessoas certas sobre a visita.
Em sua sala, esperou o homem chegar. Quando a campainha tocou, rumou para a porta. Ao abri-la, ele simulou uma expressão de surpresa.
- Keith? – Disse Jackson. – Ahn, que surpresa, entre. – Keith entrou, olhando para todos os cantos. A mansão de Jackson era muito espaçosa e muito bem mobiliada para um homem só. – O que devo a sua visita surpresa a essa hora?
Keith olhou bem para Jackson. Desde o aparecimento dele na reunião na American Dream e depois na festa de aniversário de casamento de James e Brianna, o homem parecia ter saído do exílio autoimposto. E, sendo sincero, ele parecia bem demais.
- Houve um problema com as mercadorias. – Keith falou logo. Não tinha tempo para rodeios. Nem mesmo se preocupou em sentar-se. – Pelo o que constava, viriam dois fuzis em cada caixa e só havia um. Alguma coisa está errada, Jackson e eu não quero pensar que o problema é dentro da nossa cidade. Você me entende, não é?
Jackson cerrou o cenho, levando Keith para a sala.
- Então, temos um pequeno problema, Keith. – Falou ele, ainda de pé. – O acordo era apenas uma arma por caixa, não duas. De onde você tirou isso? – Perguntou, olhando uma vez disfarçadamente pela janela.
Keith estreitou os olhos.
- Ottman disse que o acordo eram duas. – Ele estava começando a se exaltar. Não gostava de ser feito de bobo. – Olha só, O’Brien! Eu te ajudei naquela reunião. Eu entendo que Chuck esteja passando por uma fase difícil, mas se precisava de mais dinheiro, podia ter confiado em mim e pedido. Eu ia ajudar.
Jackson ia abrir a boca, quando surgiu uma sombra na porta.
- Que eu saiba, faz mais ou menos um mês que meu irmão não precisa pagar nada das minhas paradas, Keith. Estou limpo. – Chuck surgiu na porta, sério ao escutar o que o homem havia dito. Ao vê-lo, Keith olhou bem surpreso. O loiro permaneceu na porta, encostado e com as mãos nos bolsos. – Eu acho que você é muito esperto para acreditar nos contos do Ottman. – Continuou Chuck. – Você escolheu muito m*l o lado para apoiar, amigo.
Keith engoliu seco e deu um passo para trás. Queria ter a visão total da sala, para ter a certeza de que nas mãos de Jackson e Chuck não havia nenhuma arma.
Não era seguro estar ali.
- Eu não apoiei nada. – Mentiu Keith, dando mais um passo para trás. Seria melhor ir embora. – Mateo morreu e os negócios tinham que continuar. Eu acho melhor marcarmos uma reunião todos juntos e verificar essa história da quantidade de armas. – Assentindo com a cabeça, Keith colocou a mão na maçaneta da porta. – Boa noite para os dois.
- Fugindo como o covarde que você é, certo Speno?
Keith congelou.
Não era possível estar ouvindo aquela voz. Mateo Hale estava morto há cinco anos. Não, não, não estava delirando. Mas, então, quem era o homem que caminhava na sua direção, saindo do corredor que dava acesso aos quartos da mansão.
Keith soltou a maçaneta e se virou.
- Hale?! – Exclamou, espantado. – Não, isso não é possível. Você morreu. – Keith olhou para Jackson, para Chuck e depois voltou a olhar Mateo. – Não, não, isso é uma brincadeira. Eu tenho certeza de que você morreu.
Mateo sorriu.
- Da próxima vez que for tentar me m***r, Speno, faça você mesmo o serviço.
E, sem ter a chance de responder, Keith sentiu uma pancada forte na cabeça. Ele só teve tempo de dobrar os joelhos e cair no chão da sala, antes de desmaiar.
A última coisa que viu, foram os olhos azuis de Chuck e o sorriso debochado dele.