Capítulo 7 - Bruno

3166 Words
- Quando você fica nervosa começa a falar feito uma vitrola e me deixa nervoso também. E parece que abraços não estão mais funcionando... - Você me beijou. – Ela ainda parecia em choque. Bruno suspirou, observando o caminho para onde a conversa ia. - É, beijei. E tecnicamente você também estava me beijando. - Não, não estava não. Eu estava chorando, e... – ela gesticulava como se tentasse se lembrar dos acontecimentos. – Você me beijou sem permissão. - Sim. – admitiu, querendo fazer com que o assunto acabasse logo para o que realmente importava. Mas, antes, decidiu esclarecer: – e depois, você deu passagem a minha língua, e também gemeu... - Ah, não! Pelo amor de Deus. Para! – o interrompeu. – Olha, isso não pode acontecer novamente. Eu m*l te conheço, e estou aqui a menos de um dia.  Bruno a encarava de volta. O desespero dela era tão evidente e ao mesmo tempo tão fofo que ele estava tentado a rir. Rir. Há quanto tempo não ria?  – Calma aí...você está rindo de mim?! - Serena, relaxa. Foi só um beijo -  Ela o encarou por alguns segundos. Os olhos brilhantes um pouco arregalados, a face um pouco corada. Tinha sido mesmo só um beijo? – É... Por que a gente não toma café? - Ele quebrou aquela estranha divagação. - Eu já tomei café. - Você tomou café às 5h da manhã? - 5h30, na verdade. A gravidez está me deixando com insônia, então eu m*l dormi... - Entendi... – na verdade não tinha entendido. Imaginava que gravidez dava sono nas mulheres. – Então vou tomar café...  Ele se virou e caminhou para longe dela. Porém, antes de se dirigir até a cozinha, voltou diretamente para o próprio quarto. Tomou um banho quente, sentindo a virilha muito melhor.  Que bom que não havia sido uma lesão.  Se Henrique estivesse ali, com certeza diria que fora pura sorte, e que na verdade, ele era imprudente por sentir algo errado e não pedir para sair a fim de ver o que estava acontecendo.  O irmão era um homem prudente.  Mas ele não. Se estava em campo, só haviam três alternativas que o levariam a sair: expulsão, lesão grave e término de jogo. Fora isso, seu único objetivo, como bom artilheiro do time, era fazer gol. E estava em um ótimo momento. Apesar de tudo o que passara nos últimos anos: a morte do pai, a morte do irmão, a doença da mãe... De alguma forma, toda a tristeza era revertida em mais energia, raiva, vontade de jogar. Desde garoto, o futebol era sua válvula de escape. Era seu lar. Sua vida. Bruno colocou um calção do Flamengo e saiu do quarto. Era um dia de folga, mas para continuar em forma era preciso treinar até nas horas vagas. Então iria comer e treinar. Ele entrou na cozinha e se deparou com Serena e a gata. Ela estava sentada em cima da bancada, com um pote de sorvete no colo amparado por um pano de cozinha. A gata junto dela, deitada ronronando. - achei que não fosse mais tomar café. – ela murmurou enquanto comia.  - E eu achei que você já estivesse de barriga cheia. – o comentário dele a fez juntar as sobrancelhas. - Eu não consigo resistir a pistache! É o meu sorvete favorito, e você tem vários dele aqui. - Eu também gosto. – murmurou, pegando uma maçã da fruteira. Mas então, Bruno percebeu que Serena estava diferente. Agora usava calça jeans, blusa social e sapatilha. - Onde você vai? - Como assim, onde vou? Procurar um trabalho, estou desempregada. Eu acho que já te falei isso, não? - Serena, não sei se fui claro...Você não precisa trabalhar enquanto estiver aqui, ainda mais estando grávida - explicou. – Não quero que me pague nada. Serena desceu da bancada seguida pela gata, que foi até ele, o r**o longo se enroscando em sua panturrilha. Bruno estremeceu, sentindo vontade de enxotá-la. - Eu sei. Mas não é por isso, estou pensando no futuro, até porque não vou ficar aqui a minha vida toda. Então tenho que pensar em algo para me recolocar no mercado de trabalho, ainda que o fato de estar gerando um bebê possa ser um pouco prejudicial... Ele a admirou por aquilo. Serena parecia carregar o mundo nas costas, e ainda assim, não desistia. - Qual a sua profissão? – Estava curioso. - Sou modelo. Bruno analisou ela da cabeça aos pés. A estatura magra e longa, algumas poucas curvas, e s***s grandes. Serena inspirou fundo, desconfortável.  - Faz sentido... – murmurou depois de dar uma mordida na fruta. - E você? Qual a sua profissão?  As sobrancelhas de Bruno se arquearam em surpresa. Talvez aquele fosse um grande indício que Serena não queria seu dinheiro, afinal, se ela não havia o reconhecido, de fato, não o conhecia. - Qual o seu time, Serena? – perguntou, com um sorriso torto nos lábios enquanto se debruçava sobre o balcão de mármore. Serena apertou os olhos. - Grêmio, mas não sei muito sobre futebol. – ela murmurou enquanto guardava o que restara do pote de sorvete. – Por que a pergunta? - Nada. – também deu de ombros. – Sou jogador de futebol. A boca de Serena se abriu enquanto ela analisava o calção do Flamengo nele. Depois subia o olhar pelo seu peito nu, até retornar aos seus olhos. Estar perante o olhar dela o fazia ficar nervoso. - Faz sentido. – ela repetiu o que dissera um pouco antes – Então...até mais. - Você já esteve no Rio de Janeiro, né? - Claro que sim.  Bruno ficou mais aliviado. Dava para ver que Serena não era carioca, mas se ela sabia andar no Rio, então estava tudo certo. - Então até mais – ele respondeu um segundo antes dela desaparecer e o deixar ali com a gata. Ele saiu da cozinha e foi até a academia no fundos da casa. A academia era um espaço razoável, com uma esteira, um saco de box, um puxa ferro e uma bicicleta. Todo o equipamento de última geração.  Antes de subir na esteira ele ligou o som e o conectou com o Iphone, colocando Nirvana para ressoar no ambiente. Depois disso, deu início aos trabalhos. Cada passada das pernas se fundiam ao ritmo do rock, causando mais excitação em suas veias. A adrenalina tomando o corpo e aliviando as outras emoções, e principalmente, os problemas. Bruno cantou junto com Kurt Cobain na música Lithium. - I like it (eu gosto disso) , I'm not gonna crack (eu não vou pirar)... I miss you ( eu sinto sua falta), I'm not gonna crack (eu não vou pirar)... A mente voltou ao rosto do irmão mais velho, no sorriso e olhos do cara que era seu melhor amigo. Ele engoliu em seco, impedindo o nó que se formava na garganta. Eles dois costumavam cantar aquela música quando se lembravam da perda do pai.  E agora, só sobrara ele pra cantar sozinho. Bruno não soube quanto tempo ficou ali. Indo de um aparelho a outro. e depois retornando para mais uma série. O único indício que a hora havia passado fora sua governanta. - Bruninho, o almoço já está pronto. – Silvana colocou a cabeça com os fios acobreados para dentro da sala. Ele fez um esforço para segurar o peso de 40KG sobre o peito e responder: - Oi, Silvana – Bruno respirou fundo e ergueu a barra, colocando-a no aparador. – Por onde você esteve? Ele sabia bem que a governanta não havia dormido em casa. Porque apesar de ter encontrado a sala limpa, os lençóis do quarto dele ainda estavam bagunçados, e sendo a governanta um fenômeno incansável da limpeza, se estivesse em casa, já teria arrumado. Dona Silvana entrou e foi até a janela da sala, abrindo-a para arejar. - Menino, te disse há uma semana que estou revezando noites entre você e a minha filha. – ela meneou a cabeça e estalou a língua. – Jovens... se esquecem de tudo... - Silvana abanou o ar. – Nossa, isso daqui parece uma sauna...Mas, me diz, o que o fez passar m*l ontem? Tenho certeza que deve ter sido a cerveja preta que coloquei no molho de frango... A filha dela acabara de ter um bebê, e para ajudar a filha nos afazeres, Silvana começara a cozinha maior quantidade, bem como experimentar receitas diferentes. Bruno suspirou, esperando Silvana acabar. Ele ainda achava que aquela mania dela de falar pelos cotovelos o levaria a loucura. Silvana e Serena podia dar as mãos nesse quesito. -Silvana...Não foi eu quem passei m*l, então não foi seu molho de frango. - Oxi, então quem foi? Ah, com certeza uma de suas raparigas... Estava bêbada, não é? – Silvana ia dizendo sem filtro algum, algo que ele tolerava em poucas pessoas. - Na verdade, ela estava grávida... e eu sinto muito por não ter limpado... – Ele murmurou passando a toalhinha na testa. - Quê?! – Dona Silvana praticamente gritou, uma névoa de ar saindo pela grande boca. – Você é o pai?! Bruno esperou que o espanto passasse, que previa ele, um susto pelo qual muitas pessoas passariam. Na verdade, não sabia bem o que fazer com toda aquela história, que apesar de tantas justificativas, ainda era motivo de desconfiança. - É uma amiga... – no mesmo instante em que dizia, a gata de Serena entrou na sala e foi até ele, enroscando-se no seu tornozelo suado. Gatinha chata, cara. Ele olhou os pelos sedosos da Maria não sei das quantas. Não tinha como olhar para ela sem sentir pena pelo nome bizarro que ganhara – Essa gata é dela... ela vai ficar alguns dias...ou meses aqui com a gente. Silvana olhava para ele espantada. Ok, ele não era conhecido por ser amigo dos pets. Afinal teve um infância assustadora com uma alergia do c*****o. Tudo que a mãe o deixara ter fora um jabuti, que ainda que o bicho morasse com ele, apenas o visita a cada uma semana quando saia de algum lugar desconhecido para comer e cagar.  Bruno baixou os olhos para a gatinha manhosa. Não sabia o porquê, mas não tinha como ter raiva daquela ali. - Querido... está tudo bem, né? - Silvana indagou com a expressão ainda mortificada, ele refletiu um pouco enquanto afagava os pelos da gata. - Acho que sim. Na medida do possível... - Hum... – a governanta parecia avaliar a situação. Depois de anos trabalhando para a mãe dele, e agora para ele, Silvana já não era mera empregada, mas sim uma mãe... bem rabugenta e intrometida, mas ainda assim, da família. – Vamos comer então – ele foi intimado. – Eu fiz lasanha. E não me venha dizer que vai comer frango com batata doce não... Bruno se levantou e a seguiu até a cozinha rindo. Ele m*l comia na mesa de jantar. Não gostava muito de receber um grande número de visitas, e quando recebia, era para apenas churrasco, que deixava claro ser somente do lado de fora, na área gourmet da casa. Ainda todo suado, ele foi até a pia da cozinha e lavou as mãos logo depois se sentando no banco da ilha, onde já estava posicionado um prato com garfo e faca. Enquanto Silvana o servia, ele checava o i********:. O telefone dele tocou. - Oi. - Bruno. – era a mãe dele. – Como estão as coisas? - Bem. – ele murmurou após uma garfada. - Que bom. – a voz da mãe se alegrou um pouco. – Depois eu vou até ai, comprei algumas coisas para o meu neto. De repente a lasanha bolonhesa tomou um gosto amargo em sua boca, e quase não desceu pela goela. - Fala sério, mãe. Não dá... para a senhora ir com calma? - Estou indo com calma. - Não, não está. m*l conhecemos a mulher... se duvidar, na semana que vem a senhora aparece com um berço. - E eu sei que ela vai precisar de um, já que está grávida. – apesar de seu tom preocupado, a mãe parecia animada com a ideia. – Filho, essa mulher pode estar fingido, tudo pode ser uma mentira, eu sei. Mas também acho que essa é uma oportunidade, Deus está mandando um pouco de alegria para as nossas vidas... - E se for mentira, hein? vamos voltar à estaca zero novamente?  Ele entendia que, mais que ninguém, a mãe precisava de uma distração, algo que a levantasse à vida, mas ainda assim, não queria ser o responsável por ela ir ao fundo do poço depois. - Bruno, acredito que é melhor vivermos o presente e esperar o melhor do que ficar na preocupação se antecipando pela possibilidade do pior. - Está bom, mãe. – ele não iria discutir com ela. Só sabia que, se algo de pior viesse a acontecer, ele somente se responsabilizaria pelo próprio modo de lidar com as coisas. - Ótimo. – O tom de Izabel azedou. Não era difícil esconder o que sentia de sua mãe. Aliás, de todos. Viver na mentira não era algo que podia fazer. – Estarei aí às 18h. - O combinado não era vir para o almoço? - Bruno, estarei aí hoje, só que mais tarde...dá no mesmo. – A mãe desligou na cara dele. Bruno deu de ombros. Silvana, que não tinha se retirado da cozinha, e estivera todo o tempo escutando a conversa e fingindo lavar a louça, se virou e disse: - Bem que eu estava desconfiada que essa criança seria sua... Ele encarou Silvana. Bruno sabia que nada do que dissesse a convenceria que ele não era o pai. Silva assentiu, se achando dona da verdade e voltou a louça. - Depois eu vou até a casa de minha filha. – Silvana murmurou, secando as louças. Bruno não sabia se ela estava falando com ele ou só pensando em voz alta, então não respondeu. Depois que terminou, Silvana se virou para ele, os olhos castanhos enrugados. – Mas Bruninho... não importa se o bebê é seu ou não. Se é verdade ou mentira. Tudo o que importa é que, onde há bebê, há vida. – ela estendeu o pano que usava para secar louças no puxador do fogão e saiu.  Bruno sentiu a fome se esvair. Depois de forçar a comida, ele foi até o quarto e ligou a tv. Precisava de algo sangrento. Então colocou no VT da luta de UFC que havia acontecido no final de semana anterior. A cada soco e chute dos homens, seu pensamento se acalmava ainda mais. Devia ter ficado horas ali, observando cada gotejar de sangue, imaginando a intensidade de cada golpe. Quando saiu do quarto, o sol já beijava o chão através das cortinas no lado oeste da casa. A poucos minutos iria anoitecer. Ele entrou no corredor de cor cinza que dava até a academia. Quando chegou lá, a gata estava sentada na esteira, olhando através do blindex para a porta de entrada da casa dele. Serena. Onde estaria a mulher até àquela hora? Mas ele não fez muita questão de saber. Depois daquela sessão de porrada, chegara a hora dele dar as deles.  Soco. Soco. Chute. Chute.  E já se passaram mais uma hora. A noite já era um fato. Havia um incomodo no estômago dele. Daqueles que sentia quando havia um jogador prestes a lhe fazer uma falta. A gata ainda estava imóvel, no mesmo lugar. Ele pegou o celular e discou o número da mãe. - Bruno, eu já estou chegando. O que foi? - Mãe, você pode me passar o telefone de Serena, por favor? - Claro... aconteceu alguma coisa? Eu falei com ela mais cedo e ela disse que já estaria em casa... - Não, não aconteceu nada. – Ele não iria preocupar a mãe. – Ela já está vindo. É só porque ainda não tenho o número dela. A mãe passou o número de Serena e ele prontamente ligou. Uma ansiedade estranha crepitando nas entranhas dele. - Serena? - Oi... Bruno? – A ligação não estava boa. Serena parecia estar um lugar com ventania. - Sim, sou eu. Onde você está? - Um silêncio pairou ao fundo, somente o zumbido da ventania soando. – Serena, me diga onde você está. - Como faço para chegar na... – ele ouviu um barulho de papel. Ela estava se guiando por um mapa? – Praça XV? - Serena, só posso ajudar se me disser onde está. - Aquela situação estava estranha. - Eu também gostaria de saber...  Serena estava perdida. - Droga, Serena... - Eu não preciso da sua ajuda. - Não precisa, mas vai ter. – ele já estava na sala, se preparando para sair quando a campainha tocou. – Está perto da onde? – abriu o portão para mãe, que entrou desconfiada. – Só um minuto, Serena. – ele avisou, antes de tirar o celular da orelha. – Mãe, vou buscar Serena... - Ela se perdeu, não foi? - Izabel entrou com um papel de presente com embalagem de zebrinha embaixo do braço e a bolsa a tiracolo. Como a mãe sempre sabia das coisas, ele não sabia. Não dava para mentir mais. - Sim.  - Vá buscá-la. – a mãe praticamente o mandou. - Sim, senhora. – ele assentiu com a cabeça e saiu porta a fora, já entrando no carro. – Serena...onde está? – o telefone já estava na orelha novamente. - Minha bateria está acabando... eu... estou perto do mar, na verdade... do porto. - Você está vendo a ponte Rio-Niterói? - Sim. Não sei bem que ponte é essa, mas tem uma ponte bem grande. - Tudo bem, continue falando. - Tem um aeroporto perto também... - Sei onde é, continue. - Bruno, a minha bateria vai acabar... Serena estava ficando desesperada. - Diga outra coisa, está perto de qual prédio? Qual rua? – estava tentando manter a calma. - Eu, eu não... – o telefone desligou. Bruno sentiu a agonia embaralhar a cabeça.  Não sabia como, mas iria achá-la.  Depois de meia hora ele já estava no centro, perto do porto. Fizera o que pudera para fugir da hora do Rush. Bruno estacionou o carro e saiu na noite gelada, somente de calção e um boné para tampar o máximo que podia do rosto. Tudo o que não precisava era se reconhecido. Passou na frente do museu do amanhã, procurando-a por todos os rostos que estava na praça. Nada. Continuou andando, passando por espaços vazios e ruas quase desertas. Haviam alguns sem-teto arrumando suas camas para passar a noite fria. Continuou, os passos mais rápidos. Até que se tornassem uma corrida. Já eram quase 20h da noite. Estava quase chegando perto do aeroporto quando viu uma silhueta feminina virada para o mar, abraçando o próprio corpo. Os cabelos curtos voando devido ao vento fustigante. Ainda não dava para ver o rosto. Mas ele sabia, era ela.   
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