Capítulo 18
Julia narrando
Eu estava tonta, sentindo o mundo girar ao meu redor, e decidi sair da casa da Malu, deixando tudo para trás. Pedrinho estava com Maiara, e eu me sentia aliviada em saber que ele estava bem, talvez até melhor do que eu.
Comecei a subir pelo caminho que levava ao nosso lugar secreto, aquele refúgio no morro onde Ph e eu sempre íamos. Estava escuro, e eu só tinha a luz da lanterna do celular para iluminar o caminho. Conforme subia, tudo parecia igual — o morro não havia mudado nada. As casas, os becos, as paredes pichadas… tudo me trazia memórias que eu achava que tinha deixado para trás.
Cheguei ao topo e me sentei, olhando para o morro iluminado pela luz fraca da noite. Deixei algumas lágrimas descerem pelo meu rosto. E se eu não tivesse decidido ir embora? Será que algo teria mudado? Será que minha mãe ainda estaria viva? As perguntas martelavam minha cabeça, mas não havia respostas. Só o silêncio da noite e o vento frio que batia no meu rosto.
De repente, ouvi o ronco de uma moto. Meu coração acelerou, e eu me escondi atrás de um canto. A moto estacionou e um homem de preto desceu.
PORRA, PH! — uma voz conhecida gritou. — Você disse que iria me trazer a Joana, cadê você?
O homem tirou o capacete, e eu reconheci imediatamente.
Miguel? — perguntei, incrédula. — Perigo… Miguel, você está vivo?
Julia — ele respondeu, surpreso. — O que você está fazendo aqui? Por que está aqui? Espera, você não estava nos Estados Unidos?
E você… morto? — perguntei, ainda sem acreditar. — Foi o que Malu me contou. Ela me disse, chorando, que você morreu para salvar a vida delas. E agora, te vejo aqui, vivo, na minha frente.
É uma história longa — ele disse, sério. — Você não pode falar que me viu.
Por quê? — perguntei, confusa. — Vai ficar escondendo que está vivo, Perigo?
É necessário que eu me esconda para que seu irmão não volte — respondeu ele.
Você sabe que eu não considero aquele filho da p**a como meu irmão — disse, cruzando os braços. — Você sabe tudo que ele me fez.
Eu sei — ele disse, se aproximando — e foi apenas uma forma de dizer. Ele ameaçou a Joana, e você sabe o quanto eu fiz m*l à sua irmã. Ela não seria feliz com Rd se eu tivesse vivo ali. Agora, eles estão casados, felizes.
Isso não tá certo — falei, com a voz trêmula.
Você sabe tudo que eu fiz contra ela — ele continuou — foi a forma de me redimir com Malu. Eu jamais deixaria Kaio matá-la ou machucar Joana. Ele queria minha morte, eu sabia que algo iria acontecer, e estava pronto para qualquer coisa.
Rd sabe disso? — perguntei, curiosa.
Não — respondeu. — Apenas Ph e Bn sabem.
Claro, Ph — murmurei, balançando a cabeça. — Sempre fingindo, sempre escondendo.
Ele sorriu ao me ver, e um calor estranho me invadiu.
Estou feliz que você esteja aqui — ele disse, sincero. — Que você está bem.
Eu tenho um filho — falei, e ele sorriu ainda mais. — Pedro Henrique.
O Ph é o pai? — ele perguntou.
Sim — confirmei. — Voltei porque fiquei sabendo que todos estavam vivos, mas cheguei aqui e dei de cara com ele pedindo a Rosa em noivado… e ela também está grávida.
Grávida? — ele exclamou, surpreso. — Ph não me contou nada.
O que você faz aqui se ninguém pode saber que está vivo? — perguntei.
Vejo minha filha — respondeu, sorrindo. — Conheceu minha perigosinha?
A cara da mãe e o gênio do pai — falei, sorrindo também. Ele riu.
Por favor, Julia, não conte a Malu que você sabe que estou vivo — ele pediu.
Por onde anda? — perguntei, curiosa.
Complexo da Maré — respondeu. — Estou de olho em tudo. Nada e ninguém vai mais fazer m*l a ninguém.
Você acha que eu devo ficar no morro da Rocinha? — perguntei, hesitante.
Você pensa em ir embora? — ele perguntou.
É a intenção — respondi. — Volto domingo.
Faça o que seu coração manda — disse, me olhando fixamente. — Queria ter feito o que meu coração mandava anos atrás… e fui pela cabeça dos outros. Errei feio.
Eu o encarei, tentando absorver tudo.
Ph não me atende — murmurei. — Preciso ir.
Ele se aproximou da moto.
Espero que a gente se veja. Se cuida — falei.
Você também — disse ele, me encarando.
Sentei novamente no topo do morro, olhando para as luzes da cidade. Poderia pegar meu filho e ir embora, ou ficar e recomeçar minha vida ali. Ir embora deixaria perguntas sem respostas, ficar poderia ser a chance de realmente recomeçar.
Até que ouvi passos atrás de mim.
Te achei aqui — disse Ph, aparecendo.
Veio saber mais sobre minha aventura de romance com Maiara? — perguntei, sarcástica.
Vim atrás de uma pessoa — respondeu ele.
Já foi embora — falei. — Para o Complexo da Maré.
Você o viu? — perguntou.
Sim — confirmei. — Mas não se preocupa, não vou contar a ninguém que ele está vivo.
Ele se sentou ao meu lado.
É melhor você ir, sua noiva vai te procurar — eu falei.
Rosa foi para casa — respondeu.
Você gosta dela? — perguntei. — Me esqueceu, Ph?
Ele me encarou por um longo momento.
Você precisa entender que eu tentei contato com você — disse. — Te procurei e não encontrei.
Você precisa entender, Ph, que você estava morto — murmurei.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. O vento frio batia em nossos rostos, e o morro parecia ainda mais silencioso à noite.
Eu amo você — disse ele, finalmente.
Agora não adianta você me amar — falei. — Tem outras pessoas no meio do nosso amor.
Eu largo ela para ficar com você — disse ele, determinado.
É justo você largar ela grávida? — perguntei, emocionada. — Ela foi atrás de mim hoje, está nervosa, com medo de te perder. Eu também ficaria nervosa e confusa se estivesse no lugar dela, grávida, ao lado de alguém que de repente vê a ex voltar com um filho nos braços.
Eu nunca escondi dela que gostava de você — disse ele, com sinceridade.
Mas não posso deixar você falhar com ela, com seu papel — falei. — Sei como é passar por uma gravidez sozinha, desejar alguém ao seu lado… e não ter Ph.
Ele passou a mão delicadamente pelo meu rosto, limpando as lágrimas que escorriam.
Me perdoa — disse ele.
Não sei se devo aceitar seu perdão ou se você deve perdoar a si mesmo — falei. — Quem perdeu tempo foi você… perdeu tempo de ver seu filho nascer, de vê-lo crescer.
Levantei-me, decidida, pronta para ir atrás de Pedrinho.
Não vai embora — ele disse, segurando minha mão.
Sou a única que sabe o que fazer da minha vida — falei firme. — Você não tem direito de me pedir nada. Você me mandou ir embora, lembra? Me mandou sozinha, e eu implorei que fosse comigo… e você não foi.
Ele se levantou e veio até mim.
Eu me arrependo muito de não ter ido — disse ele, aproximando-se. — Você não sabe o quanto me arrependo.
Encostou as mãos em meu rosto.
Eu me arrependo de não ter dito sim, de não ter pegado minhas coisas e ido com você para qualquer lugar deste mundo. Você é o único amor da minha vida e sempre será. Eu te amo, Julia.
Tentei balançar a cabeça, mas ele me beijou. E, inevitavelmente, eu correspondi.