Capítulo 2

1080 Words
Rafaella Narrando.... Eu nunca pensei que fosse voltar para o Rio. Londres me acolheu de uma forma que eu não imaginava. Foi aqui que eu aprendi a respirar sem medo, a dormir sem sobressaltos, a sonhar com o amanhã sem me preocupar se ele viria ou não. Mas, mesmo vivendo tudo isso, uma parte de mim sempre esteve presa no passado. No morro, no Rio de Janeiro, no Douglas. E agora, sabendo que minha mãe não está bem, parece que tudo volta a me puxar pra lá, como se a vida estivesse me testando de novo. Depois de já pronta, fiquei alguns segundos parada em frente ao espelho. Minha imagem refletida mostrava uma mulher firme, bem-sucedida, com roupas caras, maquiagem impecável. Mas, por dentro, eu me sentia a mesma garota de 18 anos que acreditava em promessas de amor eterno. A diferença é que agora eu tinha cicatrizes que ninguém via, mas que doíam todos os dias. Peguei meu celular e vi várias mensagens não lidas. Algumas do conselho administrativo da empresa, outras de amigos que arrumei aqui. Mas nenhuma delas me prendia. Minha cabeça só conseguia pensar em duas coisas, minha mãe e… ele. O Terror. Douglas. O homem que me destruiu e que, mesmo depois de cinco anos, ainda me assombra. O táxi chegou e eu desci com as minhas malas. Londres estava fria, garoando, um climinha que eu amo. O caminho até o aeroporto foi silencioso, só o som da chuva batendo no vidro. [...] No aeroporto, entrei no voo com o coração pesado. O avião cortava o céu e eu só pensava em como seria a volta. Será que ele ainda estava lá? Será que eu ia esbarrar nele? Será que, depois de tanto tempo, meu coração ainda ia vacilar ao ouvir o nome dele ecoando pelos becos? Não Rafaella, deixa de ser mesquinha. Você tem que parar de pensar nesse cara ( penso comigo mesma ) [...] Não consegui pregar o olho durante 11 horas dentro do avião. Pousamos no Galeão. O calor do Rio me atingiu com tudo, já fui logo tirando o sobretudo. Desci com minhas malas, caminhei por dentro do aeroporto tentando manter a postura, mas por dentro o coração já estava disparado. Peguei um táxi e pedi direto. — Me leva pro morro, por favor. Só de falar aquilo em voz alta, um friozinho subiu pela minha barriga. Eu, que passei cinco anos longe, de repente estava voltando pro lugar que me marcou de todas as formas possíveis. E, nesse exato momento, tudo o que eu mais queria era evitar o Terror. Não sei se seria o melhor momento pra encarar ele, mas eu também sei que não vai ter jeito. Se eu quisesse subir o morro, vou ter que pedir a permissão dele. No caminho, flashes começaram a invadir minha mente. Momentos com o Douglas, lembranças que eu achei que tinha enterrado bem fundo. O beijo dele no primeiro baile, as vezes que ele me abraçava como se eu fosse o escudo dele, os ciúmes doentios, a noite que descobri a traição… tudo veio de uma vez, como se tivesse sido ontem. Automaticamente, eu quis mandar o motorista dar meia-volta, ir embora dali. Mas não tinha como. Eu já estava no Rio. Eu não podia, de jeito nenhum, deixar o Douglas mexer na minha mente outra vez. Eu não amo mais ele. Pelo menos é o que eu repito pra mim mesma. Nem percebi o tempo passar até ouvir a voz do motorista. Táxi — Senhorita, daqui não dá pra seguir não... Respirei fundo, engoli em seco e assenti. Paguei a corrida, desci do carro e fiquei alguns segundos parada com as malas ao meu lado. Diante de mim, a barreira. Vários homens armados, a mesma cena de sempre, como se o tempo não tivesse passado. Reconheci alguns rostos. O Mosquito estava lá, firme como sempre, e o Pato também. Meu peito apertou. Respirei fundo e caminhei até eles, tentando disfarçar o incômodo. Mosquito — Não tô acreditando nisso, mano… ___ ele foi o primeiro a falar, arregalando os olhos. — O patrão vai pirar quando souber. Dei um sorriso sem graça. — Oi, meninos. Oi, Mosquito ___ todos me responderam, alguns até me olhando com uma malícia que me incomodou de imediato — Será que tem como me deixar passar sem ter que avisar ele? ___ perguntei cautelosa, mesmo sabendo a resposta. O Mosquito negou com a cabeça, firme. Mosquito — Foi m*l, patroa, mas não posso fazer isso não… se não, a minha cabeça roda. Suspirei fundo e respondi mais seriamente. — Não me chame de patroa, Mosquito. Me chama só de Rafaella, por favor... ___ falo, e ele riu de leve, mas falou convicto. Mosquito — Foi m*l, patroa, mas aqui tu tá ligada, né? Pra geral tu sempre vai ser a patroa. Teu posto tá aqui, como sempre esteve. Papo reto... Aquilo mexeu comigo. Meu peito esquentou por um instante. Então quer dizer que o Douglas não assumiu ninguém nesse tempo todo? Mordi os lábios, quase deixando escapar um sorriso, mas logo balancei a cabeça, afastando esses pensamentos. Eu não podia cair nessa armadilha de novo. — Tá, tudo bem ___ respirei fundo. — Mas será que dá pra pelo menos me levar até a sala dele? Eu mesma falo com ele ___ meu coração disparava só de falar isso. — Ah… será que antes dá pra um dos vapores deixar minhas malas na casa dos meus pais? Mosquito — Tua casa tá lá ainda, patroa. Patrão deu até uma reformada maneira. Tá pronta pra tu. Neguei na hora. — Não. Eu quero ir pra casa da minha mãe mesmo, eu não tenho mais casa aqui... Ele deu de ombros, mandou um dos meninos pegar minhas malas e levar direto. Logo em seguida, ele subiu na moto. Me olhou, como quem já sabia o que eu ia ter que fazer. Mosquito — Sobe aí. Respirei fundo mais uma vez e subi na garupa. E aí, a ironia, o Terror sempre odiou me ver na garupa de qualquer outro homem. Era briga na certa. Agora, olha só… eu aqui, subindo o morro na garupa do Mosquito. E detalhe, mosquito é bonito. Muito bonito, aliás. E eu sabia que o Douglas ia surtar quando descobrisse. Meu coração batia forte, e, enquanto a moto subia, só uma coisa martelava na minha mente, essa volta pro morro tá mexendo comigo de um jeito que eu não estava preparada. Contínua...
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