Trovão
Estava desabando o mundo lá fora.
Ali naquele pequeno pedaço de terra distante de Chicago, resolveu chover desde às sete horas da noite e ainda assim havia alguns clientes mais persistentes no Food and joy. Restaurante esse, que eu trabalhava arduamente todos os dias como garçonete. Não era o melhor emprego, mas era o que eu conseguia ter no momento para me sustentar e isso já me bastava.
Entreguei mais um hamburguer para um rapaz de cabelos cacheados que sensualmente mascava um chiclete tentando seduzir Kath, a minha melhor amiga. Ela por outro lado nem pareceu perceber já que nesse exato momento servia um grupo de garotas chiques, e parecia estar mais atenta ao que tanto o grupo conversava.
Eram dessas garotas ricas que só se via em escolas da alta elite da grande cidade de Chicago.
Fui para os fundos do bar e limpei o rosto cuidadosamente com a toalha que trazia sempre comigo e voltei ao trabalho cantarolando alguma música aleatória.
O cheiro de vários tipos de comidas, hamburgueres, bebidas, falatório de pessoas e a tv ligada em alguma partida de futebol americano...Tudo isso parecia estar no mudo e sem cor quando ouvi o soar da porta, avisando assim que mais um cliente havia chegado.
Mas não era qualquer cliente, não desses que entram e passam despercebido, não mesmo.
Era um rapaz alto e seu andar confiante e meio curvado demonstravam o caos que pesava até em sua aura. Seus cabelos estavam molhados, possuía uma expressão séria, e sem eu poder reparar mais em sua situação foi para o lado oposto ao que eu estava agora.
Estiquei brevemente o pescoço podendo ver que toda sua camiseta preta estava encharcada. Ele tinha acabado de tomar toda aquela chuva lá fora.
Desviei o olhar e continuei anotando o pedido de uma mulher que estava completamente confusa com o que comer. Ela parecia extremamente feliz, disse que estava grávida e que seu bebê queria comer de tudo que tivesse.
Sr. Pierston me chamou e disse que Kath não queria servir o estranho sujeito de preto, e que essa função tinha sobrado para mim. Ótimo. Tinha que sobrar pra mim.
Respirei fundo pegando meu bloco de anotar pedidos e segui em direção ao cara que apoiava os cotovelos na mesa olhando para a janela, parecendo distraído quando cheguei em sua mesa.
Na verdade, não era distraído o termo que deveria ser usado. Ele parecia perdido, mas não do tipo que se perde em lugares, mas sim em geral, na vida.
- Boa noite, o que o senhor deseja? – eu disse com a voz calma já pegando a caneta.
Demorou alguns segundos até ele se virar e me encarar. Seus olhos estavam vermelhos, o que ressaltava ainda mais o azul que pairava como o oceano em sua íris. O cabelo molhado o deixava com um visual ainda mais melancólico.
Triste. Era triste de se ver.
- Uma garrafa de whisky. - disse casualmente e voltou a encarar a janela.
- Senhor não é melhor começar com pequenas doses? E para comer deseja algo? - sugeri mudando o peso das pernas.
Ficar com aquela sapatilha preta que apertava meus pés durante boa parte do tempo não era muito confortável, eu só queria ir pra casa tomar um banho e descansar na minha cama. E que pensando agora parecia cada vez mais aconchegante e macia que nunca.
- Você é surda ou o quê? Eu disse uma garrafa. Se eu quisesse algo para comer teria pedido antes. - disse meio alto. - Agora apenas faça seu trabalho e me traga a p***a do whisky. - e se virou novamente na direção da janela, como se quisesse me evitar.
Algumas pessoas nos encararam e eu o olhei meio chocada com sua arrogância, desacreditada no que eu acabara de ouvir.
Saí de lá rapidamente sem nem olhar pra trás com raiva, caminhei para o fundo do bar e peguei uma garrafa de whisky, o mais forte e amargo que tinha ali. Ele que aguente agora essa coisa com cheiro horrível e sabor forte.
Pelo menos era o que os fazendeiros dos arredores sempre nos diziam quando pediam essa marca específica de bebida. Eu deveria saber que caras como ele eram exatamente assim, extremanente babacas.
Respirei fundo, ainda p**a com aquele ser que nunca vi antes e que resolveu gritar comigo. Eu já tinha visto mesmo de tudo nessa lanchonete/bar de beira de estrada. Agora eu não sei porque isso tinha me incomodado tanto. Deve ter sido a tamanha grosseria sem sentido. Que culpa tinha eu se ele estava m*l? Que culpa tinha eu se ele havia tido um dia r**m?
Atravessei o salão que agora já estava menos cheio e fui até ele que agora me encarava e tinha a sobrancelha arqueada.
- Seu whisky, faça um bom proveito. - depositei a garrafa e copo na mesa firmemente fazendo um pequeno barulho.
- Tem outra coisa. - ele disse mais baixo sibilando um sorriso de lado, mas não havia nenhum humor naquele tom e nem parecia ser amistoso.
- Essa coisa de usar um sutiã menor faz parte do uniforme? - e encarou meus s***s descaradamente. Em seguida ergueu o olhar para os meus olhos, esperando a minha reação. Eu não estava acreditando no que estava ouvindo.
De repente, senti uma vergonha enorme, sabia que a essa hora já estava ruborizando ficando mais vermelha que nunca. O que esse cara tem na cabeça? E quem ele pensava que era? Só podia ser um babaca mimado mesmo. Eu não estava usando sutiã em um número menor para me exibir ou algo assim, mas sim porque a grana estava curta demais e eu continuava aproveitando algumas coisas da minha adolescência para economizar.
Como ele poderia saber? Estavam limpos e cobria tudo, isso bastava. Ele que observou demais. Como ele poderia saber simplesmente o tamanho de sutiã de alguém assim? Mordi o interior da bochecha com raiva e respirei fundo novamente.
- Essa coisa de se intrometer na vida dos outros faz parte do pacote de ser um babaca egocêntrico? - disse com raiva.
Ele abriu a garrafa despejou o líquido e sorriu. Sim ele sorriu. O estranho i****a sorriu. Mas tinha em si um olhar bizarramente triste. Nem em um milhão de anos aquilo foi um sorriso de felicidade.
- Egocêntrico. - ele repetiu a palavra. -Talvez. Mas ser garçonete de beira de estrada deve ser algo bem pior.
Ele bebeu o líquido e apenas continuou com seu olhar parado em direção ao nada, um olhar vazio. Aquilo foi c***l. Segurei as lágrimas, mordendo o interior da bochecha quase cortando a mesma. Porque aquele i****a desconhecido não precisava saber que aquilo tinha realmente doído.
Então, tentando transparecer tranquilidade fui para o banheiro e soltei o choro entalado na garganta. Chorei por tudo que estava acontecendo na droga de vida que tinha. Era cansativo, era chato, não era a vida que eu queria. Chorei por odiar a vida que levava e por sonhos que ficaram pelo caminho. Chorei porque precisava daquilo. Chorei com raiva. Por que nada tinha que dar certo pra mim? Será que Deus tinha me esquecido, assim como a minha família?
Amarrei os cabelos novamente, joguei água fria no rosto e me olhei no espelho. Estava cansada, mas ainda havia clientes. Eu só precisava aguentar mais um pouco.
E foi o que eu fiz, eu aguentei. Ajudei Kath, Lia e Deisy a arrumamos as mesas, juntei o lixo e me preparei para ir pra casa, finalmente descansar.
Ninguém me perguntou ou quis falar sobre o ocorrido e eu agradeci mentalmente por aquilo.
Pode ser que ninguém realmente tinha escutado as coisas que ele disse. E isso já tinha acontecido com elas também. Algumas vezes ou tantas outra vezes. Eu não era a primeira e nem a última a ser destratada por clientes m*l educados e bêbados. Finalmente a chuva havia terminado, Kath e eu aproveitamos e pegamos o ônibus para ir embora, naquela noite malditamente escura.
1 semana depois
Era final de tarde, eu estava pensando em como eu poderia melhorar minha renda para pagar a pequena kitnet e me sustentar melhor. Eu estava feito uma tola pesquisando tudo pelo celular, mas emprego melhor para quem não tinha faculdade não era fácil. Era quase como ganhar na loteria dos empregos.
E essa é a breve história da minha vida até aqui...
Fui jogada num orfanato. O que sei da minha mãe foi o que a minha tia do orfanato disse: "Sua mãe era jovem e não tinha jeito com crianças, parecia estar sempre no mundo da lua." E do meu pai, o que se sabia é que ele tinha falecido de infarto.
E pela família dele, até tentei procurar assim como a da minha mãe mas eles não pareciam entusiasmados em manter contato, eles basicamente me disseram que eram pobres demais e que não queriam mais uma pessoa para atrapalhar.
Parei de pensar nisso instantaneamente, quando avistei um grupo de rapazes adentrarem na lanchonete. Estremeci quando meus olhos fixaram e em seguida rapidamente reconheci um deles.
Ah não! Droga!
Foi o que pensei imediatamente.