O festival

2081 Words
- Eu não estou nervosa e eu aceito. - disse sem pestanejar os encarando. - Preciso ver com a Kath se ela irá querer ir, mas dúvido muito que ela recuse esse convite. - disse e pisquei para Brendon que estava bebendo seu whisky. Eu sabia que não seria em um local fechado como a festa que fomos. E isso, de certa forma, me tranquilizava. Era um alívio. De vez em quando, ainda passava na minha mente aquele nojento me empurrando para dentro do banheiro. Mas eu sempre pulava para a parte que ele apanhava. Não que a violência seja sempre uma resposta, mas naquele caso, eu queria era que ele ficasse até sem todos os dentes da boca. Não me importaria. Nenhum pouco. Saí de lá dando passos apressados e chamei Kath que estava atendendo um senhor m*l humorado. Eu a puxei pro canto do interior da lanchonete. Ela provavelmente não entendeu nada, porém me seguiu atentamente. - Kath.. o tal Jonathan nos convidou para ir em um festival que vai ter hoje na cidade. - disse e ela arregalou os olhos, tampando a boca em seguida. Murmurando em seguida um “p**a que pariu”. - Como assim? - disse atordoada. Ela não o odiava, realmente. - Ele fez esse convite e citou você também. Disse que o carro dele cabe bastante gente e que a Beatrice irá também. Eu não iria, mas o Brendon me provocou e eu acabei aceitando. Agora como você é a minha melhor amiga, que tal ir também? - eu disse quase atropelando as palavras rapidamente. - Theresa sua louca... - ela disse mas estava segurando o riso. - O que me diz? Vamos nesse festival que a cidade toda não para de falar? - disse apreensiva. - Claro que sim. - e sorriu batendo palmas. - Onde tem festa, tem eu... Era noite estrelada e a lua cheia contrastava sua exuberância e beleza com a escuridão. Estavámos já em frente a casa da Kath. Eu vestia uma blusa vermelha de mangas compridas estilo suéter, shorts jeans e um coturno preto. Kath usava um tomara que caia amarelo justo, um short-saia jeans e um all star de cano médio branco. Mais cedo, quando saímos do trabalho, Kath e eu nos encontramos na sua casa. E como ela tinha pego o número da Beatrice antes, logo enviou a nossa localização para eles. Um carro preto parou onde estávamos, era um Camry preto. - Boa noite meninas. - acenou Jonathan com um meio sorriso. Se possível teria escorrido mel de seus lábios quando disse isso. Só ouvi Kath sussurrar do meu lado dizendo que não queria ir na frente com ele e eu assenti entendendo. - Boa noite. – dissemos exatamente ao mesmo tempo. - O que aconteceu com a SUV? - eu perguntei já colocando o cinto de segurança no passageiro. - Fizemos uma pequena troca. Brendon disse que seria melhor irmos em carros separados. Ele está com a SUV buscando a Beatrice, uma amiga dela e um amigo nosso. - Ah sim, entendi. - disse assentindo. Jonathan deu partida no carro mas não sem antes arrumar o retrovisor interno. E eu tive quase a certeza de que era para dar uma olhada em Kath no assento detrás. Ele logo foi conversando sobre o bar fazendo algumas perguntas, sobre o festival desse ano e as atrações. Kath que até então estava quieta começou a espirrar sem parar. Eu olhei para trás tentando entender o que estava acontecendo. Seu rosto estava vermelho e seus olhos pareciam lacrimejar. - Tudo bem, Kath? – murmurei. - Vou ficar, não se preocupe. – e sussurrou a última parte. Ela tirou a atenção de mim e a direcionou para o banco do motorista. - Esse seu carro tá sujo! m*l pus os pés nele e já atacou minha rinite alérgica. - disse ela para Jonathan torcendo o nariz. - Ah! Ela sabe falar. Olá pra você também, loira. Primeiro, o carro não é meu, e sim do Brendon. Segundo, não está sujo, você que provavelmente tem alergia a cães. – rebateu com um sorriso de lado zombeteiro. - Hum, você deveria ter lavado ele. - ela disse cruzando os braços. - Por que eu deveria lavar um carro que não é meu? - disse parando no semáforo tamborilando os dedos no volante, de forma despreocupada. E com isso eles começaram uma pequena discussão. E eu sempre segurando o riso do lado. Mas foi assim até chegarmos do outro lado da cidade, o festival já estava lotado, quase não achamos lugar para estacionar o carro. Jonathan era sortudo, pois havia uma mulher saindo de uma vaga e ele conseguiu na mesma hora que chegamos. Quando saímos do carro, eu estava encantada com as luzes de todos os lado do festival e com todas aquelas bandeirolas coloridas. Tinha também várias barracas e food trucks na área reservada para a alimentação. Eu já estava começando a me animar quando ouvindo a música. Enquanto isso, do meu lado tinha um Jonathan com cara de cismado e Kath visivelmente brava com ele. - Onde vocês estão? - disse Jonathan no celular com alguém que eu achava ser Brendon. - Ok, estamos indo aí. - disse tranquilamente. Quando chegamos ao local marcado era num espaço vip que o Jonathan apenas mostrou um pequeno cartão e nos deixaram entrar. Era muito perto de onde ia acontecer o primeiro show. Foi quando avistei Beatrice e uma garota que provavelmente era sua amiga, as duas estavam animadas dançando ao som de Imagine Dragons. O cara que estava com elas tinha em sua mão uma lata de cerveja. Eu notei ele entregar as chaves do carro para Jonathan que fez uma careta e balançou a cabeça em negativa. Era quase como se tivesse decepcionado. - Ele já foi. - foi mais uma constatação que uma pergunta. - Sim, Jon. Você sabe...desde tudo o que aconteceu. Brendon não é mais o mesmo. - o cara loiro disse dando um gole de sua bebida. - Aaaa Helloow meninas não acredito que quiseram mesmo vir. - disse Beatrice animada. Ela estava bronzeada e as maçãs do seu rosto estavam levemente coradas. Ela caminhou com uma garota morena do seu lado. - Não podíamos faltar essa. - disse Kath do meu lado e sorriu. - Bom, gente essa é a minha amiga Jaya. – ela fez uma pausa e a garota nos cumprimentou. - E Jaya essas são Theresa e Kath. - Ah e esse é o Dave. - e cumprimentamos ele também que deu mais um gole de sua bebida. - Creio que já conhecem Jonathan, não é? – ela apontou para ele. - Eu queria que não. – Kath disse sorrindo sem graça. As duas garotas se entreolharam não entendendo muito bem. Mas eu resolvi mudar de assunto para os dois não começarem a brigar novamente. Já que Jonathan já a encarava desacreditado segurando um riso. Kath foi pegar uma bebida para a gente. Eu não bebia sempre, apenas bem de vez em quando e apenas para distrair. E também quando tínhamos tempo, ficávamos jogando conversa fora no fim de expediente bebendo drinks. Mas eram momentos raros. Depois de algum tempo as meninas já estavam bem doidas dançando. Enquanto que eu optei apenas por cantarolar junto com a banda. Naquele momento exato eu já tinha dado várias gargalhadas da pequena birra que Kath tinha com o Jonathan. Ela já tinha pisado no pé dele “sem querer”. Depois ficou por uns bons minutos pedindo desculpas, até ele dizer que se ela não fosse tão desengonçada não teria feito aquilo. Eu pensava que aquilo tudo, não passava de algum tipo de....tesão reprimido. Porque não era possível. Esses dois não podiam ficar em uma mesma área que um implicava com o outro. - Pra quem disse que eu era medrosa, ele é bem hipócrita. - disse sussurrando lembrando da expressão de sarcasmo de Brendon mas percebi que Dave ouviu e sorriu em seguida. - Ele não era assim, você sabe... a vida. – e acendeu um cigarro fazendo uma pausa e se aproximando de mim.- A vida é mesmo estranha, um dia temos tudo e no outro apenas rastros do que era. - ele disse do meu lado bebendo cerveja. - Ela era tudo pra ele. - Quem? - de repente estava curiosa com o que tivera acontecido. Ele ponderou por um tempo, parecia indeciso pelo menos sua feição mostrava isso, abaixou a cabeça e depois voltou a me olhar. - Hanna, sua esposa. Eles eram muito apaixonados desde que se encontraram pela primeira vez, se conheceram em um pronto socorro. Ela era médica e estava grávida prestes a ter a bebê deles quando sofreu um acidente na rodovia. - ele disse e eu apenas fiquei estática por um tempo. – E Hanna era como um porto seguro, como ele sempre dizia. Brendon sempre foi muito pressionado a ter que lidar com as questões financeiras da família. Depois disso, tudo desandou de vez. Apenas absorvendo tudo aquilo que ele estava dizendo. Era uma das coisas mais tristes que eu havia ouvido por esses meses. Tomei um gole da bebida já quente e ela desceu um pouco amarga demais. Mas talvez eu apenas tenha demorado demais pra tomar porque fiquei pensativa. Minha mente voou longe, como assim ele era casado? E uma bebê? Um acidente... Meu Deus...que tragédia! Tudo isso... Era muito pesado.Muito horrível. Perder quem se ama dessa forma, tão inesperadamente...cruel e dolorosamente. E eu não fazia ideia que tudo isso havia acontecido, talvez isso possa explicar muitas coisas. O jeito como o Brendon agia, falava e principalmente aquele olhar vazio e sem vida. Agora tudo fazia mais sentido. - Quando foi isso? – perguntei colocando a mão na cabeça. - Acho que irá fazer dois anos. E dois anos que ele diz estar morto, dois anos que ele já não é mais o mesmo, parece que apenas seu corpo vaga por aí. Brendon está preso no passado e ignorando o presente. - disse e suspirou coçando a sua nuca e jogando a bituca de cigarro longe. - Mas eu não posso falar mais, sabe é a vida dele... e todas as vezes que tentamos ajudar ele parece se afundar mais. O efeito é sempre o contrário. - Nossa.. isso é muito triste.. - disse com a voz quase inaudível, parada tentando raciocinar tudo aquilo. – Eu sinto muito. - Me disseram que ele tem ido ao bar onde você trabalha frequentemente. - ele disse e sorriu fracamente mais sincero. - É verdade. Mas é certo que não nos damos bem na maioria do tempo. – respirei fundo fazendo uma careta. - E ele é um babaca na maior parte do tempo, vai sempre lá sim mas é pra encher a cara. - disse e dei de ombros. Demorou um tempo até ele responder. Sua feição demonstrava que ele estava pensativo. - Ele não era assim. Apesar de sempre ter um lado m*l humorado. – disse casualmente. - Muito m*l humorado. – eu reforcei e ele assentiu. - Só não entendo uma coisa. – Dave disse e franziu o cenho mas depois relaxou sorrindo de canto. - Que coisa? - disse não entendendo franzindo o cenho. - Porque diabos Brendon dirige tanto para ir a esse bar beira de estrada? – ele pausou e continuou pensativo. – Nada contra o lugar que você trabalha, Theresa. Mas a cidade de Chicago, onde ele mora, tem vários bares do mesmo estilo. - finalizou. - Mas eu que... achei que ele morasse ali perto. – disse apenas. - Não. Pelo visto, tem muito que você não sabe não é? – ele disse e eu assenti confusa. - Eu acho que prefiro assim, não tenho nenhum interesse em conhecer mais. – rebati indiferente. Mas no fundo eu sabia que era curiosa demais pra ficar apenas nisso. Eu gostaria de saber mais, porque gostaria de saber com que tipo de pessoa estava lidando. Já que o próprio havia virado um cliente assíduo. Pensei no primeiro dia que ele apareceu na lanchonete/bar. Estava todo ensopado, os olhos pesadamente tristes. A forma arrogante como me tratou. Sua alma estava em completa perturbação, lembrei. Dave sorriu balançando a cabeça como aceno e eu saí para pegar mais uma lata de cerveja. Era quase como se soubesse que eu estava mentindo. Depois que tinha ouvido tudo aquilo dele passei quase a noite toda pensando nisso. Brendon devia estar sofrendo.
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