📖 Capítulo 4 – Primeiro Dia
Narrado por Helena
Peguei o ônibus cedo. Não quis arriscar descer com o carro da minha mãe — seria chamar atenção demais. Além do mais, quanto mais discreta eu for, melhor. Não quero que meu pai descubra onde eu tô trabalhando.
Ele nunca aceitaria. Nunca entenderia.
Sento na janela, encostando a cabeça no vidro. O trajeto parece mais longo do que realmente é. O Rio tem essa mania de misturar mundos completamente diferentes a poucos quilômetros de distância. O luxo da Zona Sul ficando pra trás, e as ladeiras estreitas do morro se aproximando.
Eu respiro fundo. É isso. Meu começo de verdade.
O ônibus balança, sobe devagar, quase pedindo licença às vielas apertadas. Crianças já correm descalças, homens encostados em esquinas observam tudo, e mulheres carregam sacolas pesadas de feira.
Olhares curiosos se voltam pra mim. Não importa o quanto eu tente ser discreta, meu jeito de “menina de fora” salta aos olhos. Mas eu mantenho a cabeça erguida. Não vim aqui a passeio.
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O hospital do morro aparece logo à frente. Um prédio simples, pintado de branco já meio encardido pelo tempo. A placa na entrada anuncia: Unidade de Saúde Comunitária Nossa Senhora da Paz.
Entro com a pasta em mãos. No corredor, sinto o cheiro característico de álcool misturado com desinfetante barato. Não é como os hospitais particulares que conheci durante a faculdade. É diferente. Mais cru. Mais real.
E, de algum jeito, mais humano.
— Você deve ser a doutora Helena, não é? — escuto uma voz firme atrás de mim.
Viro-me e encontro um homem de uns cinquenta anos, óculos na ponta do nariz, sorriso educado.
— Sim. Sou eu. — respondo.
— Sou o doutor Álvaro, diretor da unidade. — ele estende a mão. — Seja bem-vinda ao morro.
Aperto a mão dele com firmeza.
— Obrigada. Estou feliz de estar aqui.
Ele sorri, mas seu olhar é analítico, como se me medisse.
— Sei que não é fácil para quem vem de fora. Mas precisamos muito de você. O posto vive lotado, falta gente, falta recurso… mas o que não falta é paciente precisando de atenção.
Assinto, sentindo o peso das palavras.
— Eu tô pronta. — digo, mais pra mim mesma do que pra ele.
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Seguimos juntos até uma pequena sala administrativa. Em cima da mesa, alguns papéis me esperam. Álvaro aponta:
— Aqui está seu contrato. É simples, mas é o que garante que você agora faz parte da nossa equipe.
Pego a caneta e assino. O som do papel riscado parece um pacto. Um novo capítulo da minha vida se abre.
Logo depois, ele me entrega algo que faz meu coração acelerar.
Um jaleco branco, novinho, com o bordado discreto no peito: Unidade de Saúde Comunitária Nossa Senhora da Paz – Dra. Helena Almeida.
Seguro o tecido entre os dedos, emocionada.
— É oficial, então. — murmuro.
Álvaro sorri, quase paternal.
— É oficial. Seja bem-vinda, doutora.
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Visto o jaleco ainda ali, diante do espelho da sala. O branco contrasta com minha pele clara, meus cabelos pretos escorridos até a cintura. Por um instante, me vejo diferente. Não sou mais a menina rica tentando fugir do passado. Não sou a filha ferida de um homem violento.
Sou médica. Uma mulher que escolheu o próprio caminho.
Saio da sala com o jaleco no corpo e a sensação de que, pela primeira vez, estou exatamente onde deveria estar.