Jéssica Narrando
Antes de qualquer coisa, deixa eu me apresentar direito.
Meu nome é Jéssica, tenho 27 anos, 1,70 de altura, cabelo loiro comprido, olhos claros e corpo trabalhado — não é à toa, né? Minha área exige. Sou esteticista, especializada em procedimentos avançados. Passei os últimos meses fora do Brasil, me aperfeiçoando. Fiz cursos em Madrid sobre harmonização facial, em Lisboa sobre rejuvenescimento íntimo, em Milão sobre peeling avançado e em Paris sobre biomedicina estética. Também tenho formação em laserterapia, microagulhamento, preenchimento labial e corporal, e agora tô terminando uma pós em cirurgia estética não invasiva.
Sim, com 27 anos já rodei a Europa atrás de conhecimento. Porque eu quero ser a melhor no que faço. E ser a melhor não é fácil — exige estudo, dedicação, grana e tempo. Mas eu tô construindo meu nome aos poucos.
Fora isso, tem uma coisa que ninguém tira de mim: eu sou cria de morro. Nasci e cresci aqui no Turano, mesma comunidade que meu irmão, o Caverna — vulgo Zé, mas ele odeia quando eu chamo assim. Nome de batismo? José. Minha avó que escolheu, mas vai falar isso na frente dele pra ver se tu não sai no prejuízo. Por isso todo mundo chama ele de Caverna. Desde moleque, por causa do jeito bruto, do tamanho, da cara fechada. Mas comigo ele sempre foi só meu irmão mais velho, protetor, chato, mas meu parceiro.
E crescendo no morro, a gente acaba convivendo com todo mundo. E uma das pessoas que sempre esteve por perto foi o Magnata.
Não vou mentir, sempre tive um carinho especial por ele. Mas não é por ele ser dono do Turano, ou por ser herdeiro do comando, ou por qualquer coisa relacionada ao poder que ele tem. É por quem ele é fora disso. O Magnata nunca mudou com a gente. Com os aliados, com a família, com os que tão desde o início — ele sempre foi o mesmo. Fechado, sim. Nada de sorriso fácil ou abraço caloroso. Mas também não vive nesse mundinho fechado de traficante bruto que só sabe dar ordem e mostrar poder.
Quando a gente andava com ele na rua, ninguém encaixava ele como "dono de morro" ou "traficante" ou "favelado perigoso". Ele sempre teve um jeito diferente. Postura de quem manda, mas sem precisar gritar. Roupas caras, mas sem ser mauricinho. Porque mauricinho ele não era — e nem é. Ele sempre foi cria. Cresceu aqui, suou aqui, conquistou tudo aqui.
O apelido Magnata veio da escola, dos moleques. Porque desde cedo ele já bancava as paradas, já tinha as melhores coisas, já impunha respeito. E a gente cresceu assim: chamando ele de Magnata, convivendo, criando laço. Ninguém nunca chamou ele pelo nome verdadeiro. Aliás, eu mesma não sei se alguém sabe. Meu irmão talvez saiba. Mas eu nunca perguntei. Na real, nem quero saber. Pra mim, ele sempre foi Magnata.
E sempre foi aquela pessoa que tava ali, do lado, sem precisar de muito.
Já tive alguns relacionamentos — poucos, na real. Nenhum deu certo. E olha que tentei. Mas parece que os caras ou se assustam com minha personalidade, ou querem só aparecer, ou não tão prontos pra lidar com uma mulher que sabe o que quer. E andar tanto com meu irmão, com Magnata e com os outros cria me fez criar uma casca grossa. Eu não dou brecha fácil. Não me abro rápido. Porque conheço esse mundo. Sei como homem funciona.
Sei que, no fundo, homem não presta. Homem não quer assumir mulher nenhuma — a não ser que ele se apaixone de verdade. Aí ele vira outro. Fica de quatro, vira cachorrinho, late, corre atrás. Mas até lá? É só teste, só jogo, só vontade de comer e vazar.
Por isso eu me preservo. Por isso não sou de me jogar de cabeça em ninguém. E por isso, talvez, eu ainda não tenha encontrado o grande amor da minha vida.
Mas voltando ao que interessa…
Eu tinha programado pra chegar no Rio daqui dois dias. Queria fazer uma surpresa pro meu irmão. Finalizei tudo antes do previsto, peguei o primeiro voo e desembarquei no Galeão sem avisar ninguém.
Quando cheguei no morro, recebi a notícia: Caverna tava no Turano. Pagode rolando solto, como toda sexta-feira. Deixei as malas, tomei um banho rápido, escolhi uma roupa própria — vestido preto curto, soltinho, mas que marcava o corpo — e desci pro pagode.
Senti a vibe da favela assim que pisei no chão. O cheiro de churrasquinho, o som alto, o povo rindo, os cria na área. Aquilo mexeu comigo. Saudade dessa pegada. Saudade do Rio. Saudade dos carioca.
E quando cheguei no pagode e vi ele…
Magnata.
Ali, sentado na mesa, com aquele jeito dele. Imponente. Calado. Observando tudo.
Mexeu mais ainda.
Mexeu porque eu tava com saudade. Mexeu porque, apesar de tudo, apesar de eu saber que não posso me apegar, apesar de conhecer como ele funciona… ainda tem algo ali que me atrai.
E o que aconteceu depois… bom, aconteceu.
Acordei mole em cima da cama, o corpo ainda sentindo os efeitos do que a gente tinha feito. Minhas pernas meio bambeavam, minha boca seca, e aquela sensação gostosa de satisfação espalhada pelo corpo.
— "Pørra…" — pensei, os olhos ainda fechados. — "Ele não perdeu a mão mesmo."
O jeito bruto. A pegada firme. Aquela intensidade que eu tava com saudade. Magnata sempre foi assim — direto, sem rodeio, sem frescura. E exatamente por isso que era bom.
Ouvi o barulho da água caindo no banheiro.
Ele tava no chuveiro.
Levantei devagar, sentindo um desconforto gostoso entre as pernas. Passei a mão no cabelo, ajeitei o corpo e fui em direção ao banheiro.
Quando cheguei na porta, ela abriu.
Ele saiu enrolado na toalha, os pelos do peito ainda molhados, o corpo definido, as tatuagens escorrendo água. Olhei pra ele, sentindo o impacto visual.
— Nem me esperou. — falei, me apoiando no batente da porta.
Ele soltou uma gargalhada curta.
— Eu teria que esperar por quê?
— "Típico" — pensei, revirando os olhos mentalmente.
— Pra tomar banho com você. — respondi, provocando.
Ele passou por mim, sem pressa.
— Não força, Jéssica. — a voz dele seca, mas sem maldade. — Tô descendo. Quando tu terminar, desce. Deixa tudo fechado, por favor.
— Você não vai me esperar? — perguntei, meio incrédula.
Ele nem virou.
— Não vou não. Quando tu descer, deixa tudo fechado. — repetiu, já puxando a calça.
— "Olha ele aí" — pensei, balançando a cabeça. — "Cinco minutos depois e já agindo como se nada tivesse acontecido."
— Tá bom, seu Magnata. — falei, a voz meio arrastada. — Vai lá, né? Eu sei que você não se apega a nada mesmo.
Ele continuou se vestindo.
— E você sabe que eu também não sou emocionada de ficar implorando pra você ficar, né? — completei. — Vou só jogar água no corpo e já desço pra terminar de curtir o pagode.
Ele nem respondeu. Só terminou de vestir a camisa e saiu.
Bateu a porta.
Fiquei parada, olhando pra porta fechada.
— "Magnata não mudou" — pensei, entrando no banheiro. — "E não vai mudar mesmo."
Entrei no box, liguei o chuveiro. A água caiu fria no começo, depois esquentou. Passei o sabonete pelo corpo, sentindo a pele ainda sensível.
— "É por isso que eu não me apego a homem nenhum." — refleti, a água escorrendo pelo rosto. — "Todos são iguais. Alguns são piores. Magnata é só mais honesto sobre isso."
Terminei o banho rápido. Me enxuguei, coloquei o vestido de novo — amassado, mas servia — e arrumei o cabelo com os dedos.
Olhei no espelho.
— Pronta.
Antes de sair, olhei pro quarto. A cama bagunçada. O cheiro dos dois no ar.
Balancei a cabeça e saí.
Lá embaixo, o pagode continuava. O morro pulsava. E ele tava lá, na mesa, como se nada tivesse acontecido.
— "É isso." — pensei, descendo as escadas. — "Foi bom. Foi o que tinha que ser. E amanhã? Amanhã a gente segue."
Cheguei perto da mesa.
Caverna me viu e abriu um sorriso.
— E aí, sumida? Cê tava onde?
Olhei pro Magnata de canto.
Ele nem levantou os olhos do copo.
— Tava por aí. — respondi, sentando. — Curtindo a noite.
Caverna riu.
— Tá bom.
Peguei uma cerveja. E a noite continuou. Como sempre continuou. Sem drama.
Sem apego. Do jeito que tinha que ser.
Continua...