Capítulo 30 Luisa

1210 Words
Luísa Narrando Um mês. Trinta dias. Parece até mentira, mas foi isso mesmo. Um mês sem ver ele. O cara da praia. O anjo, o demônio, o misterioso, o que mexe com a minha cabeça de um jeito que eu nunca imaginei que alguém pudesse mexer. O mês foi corrido. Trabalho, faculdade, reuniões, fechamento de contrato. Minha equipe finalmente conseguiu fechar um trabalho de design fotográfico com algumas lojas do Rio, e o melhor de tudo? A modelo escolhida era nada mais nada menos que a Paulinha. Paulinha Pinheiro. Morena linda, corpo de modelo, rosto de gente boa. A gente estudou junto na faculdade, mas acabamos perdendo contato por um tempo. O mundo dá dessas voltas, né? Agora, trabalhando juntas, eu descobri que ela é ainda mais gente boa do que eu lembrava. Ela contou que é casada com um cara chamado Vitor. Falou dele com um brilho nos olhos que só quem ama de verdade consegue ter. Mas também falou que eles estão passando por uma fase difícil. Eu não quis perguntar muito, mas deu pra sentir que tem coisa ali. O trabalho foi intenso. O dia voou, m*l deu tempo de almoçar direito. Quando finalmente terminamos, eu já tava exausta. Só queria um banho, uma comida gostosa e minha cama. Mas aí as meninas mandaram mensagem no grupo. Yasmin: "Praia hoje, amiga! O sol tá lindo e a gente merece!" Laura: "Já tô pegando minha canga. Lu, tu vai, né?" Eu olhei pro teto do quarto. O corpo cansado, a mente cheia. Mas o coração… o coração deu um pulo. — "E se ele estiver lá?" — pensei, sentindo o frio na barriga. — "E se ele aparecer?" Balancei a cabeça, tentando afastar a ideia. Um mês sem ver ele. Um mês indo pra praia em horários diferentes, tentando coincidir, tentando esbarrar, tentando entender se aquilo tudo tinha sido coisa da minha cabeça. As meninas falaram que ele era traficante. Eu dei risada na hora. O que um traficante ia fazer andando pelo Rio de Janeiro como se fosse um turista qualquer? Eu não conheço o mundo do crime, mas sei de uma coisa: eles não ficam dando mole por aí. E ele? Ele parecia à vontade. Como se a praia fosse a praia dele. Como se ele tivesse nascido ali. Mas não tinha aparecido. Nenhum sinal. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. E eu comecei a achar que realmente tinha sido coisa da minha cabeça. Até que o Jonas resolveu aparecer. Jonas. Meu amigo desde o ensino fundamental. O cara que sempre esteve ali, sempre foi presente, sempre cuidou. Mas que, depois daquela noite, ficou diferente. Mais presente. Mais próximo. Mais… insistente. Mensagem todo dia, ligação toda noite, convite pra sair o tempo todo. Como se ele tivesse decidido que o espaço que ele ocupava na minha vida não era mais suficiente. E eu? Eu não sabia o que fazer com aquilo. — "Vou." — respondi no grupo. Tomei um banho demorado. Deixei a água cair, a mente viajar, o corpo relaxar. Depois me enxuguei, passei hidratante, escolhi a roupa. Um maiô lindo que ganhei de uma das lojas que fiz as fotos. Preto, com recortes nas laterais, desenhado pra valorizar as curvas. Por cima, um vestido leve de saída de banho, cor creme, soltinho. Chinelo. Óculos escuro. Bolsa de palha. Olhei no espelho. — "Cabelo bom, pele boa, sorriso no lugar." — pensei. — "Pronta." Yasmin e Laura já estavam me esperando no carro. O vento frio do Rio batia no rosto quando a gente desceu perto da orla. A maresia chegou antes da praia, aquele cheiro de sal e liberdade. Quando a gente chegou na areia… Meu coração deu um solavanco. Ele tava lá. Não era o grandão. Não era o cara da praia. Era o Jonas. Saindo do mar, todo molhado, corpo definido, sorriso no rosto. Ele veio na nossa direção com aquela energia de quem tava esperando. — E aí, cacheada! — ele falou, jogando o cabelo molhado pra trás. — E aí. — respondi, tentando parecer normal. Yasmin e Laura já começaram a rir, puxando assunto, ajeitando as cangas. Eu só fiquei ali, olhando o movimento, tentando disfarçar o que meu coração fazia. E foi aí que ele apareceu. Do nada. Como se tivesse brotado do mar. Caminhando na nossa direção com aquele jeito. A regata branca marcando o peito largo, o short preto, o chinelo arrastando na areia. Os olhos escuros fixos em mim. Meu coração acelerou. Minha respiração travou. Ele passou na nossa frente devagar. Chegou perto. Tão perto que eu senti o cheiro dele. — E aí, baixinha… — ele soltou pra Laura, a voz arrastada. Ela arregalou os olhos. — E aí, cacheada… — ele virou pra mim, os olhos me atravessando. E aí ele se aproximou mais. A boca quase no meu ouvido. — E aí, gostosa… — sussurrou. Meu corpo inteiro arrepiou. Do zero. Do nada. Eu travei. — Você… — consegui falar, a voz saindo falhada. Ele inclinou a cabeça, a boca roçando minha orelha. — Tava com saudade. E deu um beijo. Ali. No meu ouvido. Devagar. Sentindo. Depois seguiu andando como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei ali. Parada. O coração na nuca. As pernas moles. — "Meu Deus…" — pensei. — "O que esse homem faz comigo?" Ele voltou com duas águas de coco. Entregou uma na minha mão. E aí o Jonas apareceu. — E aí, Luísa… — ele falou, o olhar no grandão. — Esse cara é alguma coisa seu? Eu abri a boca pra responder. Mas não deu tempo. Ele entregou o coco na minha mão. Virou pro Jonas. E deu um murro na cara dele. O Jonas caiu pra trás na areia. Eu gritei. Todo mundo gritou. — Que p***a você pensa que tá fazendo?! — gritei, os olhos arregalados. Ele olhou pra mim. Calmo. Frio. — Cuidando de você, princesa. — falou. — Eu falei que ia cuidar… e vou cuidar sempre. Olhou pro Jonas caído na areia. — Tá afim de dar um mergulho? Jonas levantou, a areia grudada no rosto. — Você não tá vendo que ela é cadeirante, seu arrombado?! — ele gritou. O grandão mostrou o dedo do meio. — f**a-se. Vendeu pra mim. — Licença. Pegou o coco da minha mão. Entregou pra Laura. Se abaixou, passou o braço pela minha cintura e me levantou. Meu corpo encaixou no dele como se fosse feito pra isso. Meus braços subiram, se apoiaram nos ombros largos. A pele dele quente, o cheiro dele inundando meus sentidos. Ele tirou meu vestido de saída de banho. Devagar. Com cuidado. E aí ele me olhou. De cima a baixo. — "c*****o…" — eu ouvi ele murmurar, os olhos passeando pelo meu corpo. Minha pele ardeu. Meu coração disparou. Ele entregou a carteira pra Laura. O menor da mochila já tava ali. Tudo resolvido. E ele me levou pro mar. Cada passo dele na areia. Cada movimento. Eu nos braços dele. Meu sonho de dias e dias. A água começou a bater nos meus pés. Depois nas pernas. Eu me agarrei no pescoço dele, os dedos cravados na pele. — Eu tô com medo… — falei. — Já entrou no mar? — Não… — Então fica tranquila. Tô contigo. Continua...
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