O tempo foi passando, e eu e Samuel fomos nos aproximando cada vez mais. Curioso pensar que, antes mesmo de conhecê-lo direito, eu já tinha um bom vínculo com a mãe dele, os irmãos e o padrasto. Eles eram parte do cotidiano dele, e, sem perceber, acabaram entrando na minha vida também.
Quando a mãe dele percebeu que Samuel estava completamente apaixonado por mim, veio falar comigo. Lembro bem:
— Dádiva, você não quer ficar com meu filho? — perguntou ela, com aquele jeito maternal que fazia qualquer coisa parecer importante. — Ele gosta muito de ti, está sofrendo, está até emagrecendo…
Eu dei de ombros, tentando parecer calma:
— Eu… eu nunca tinha pensado em namoro. Estamos nos conhecendo, sabe?
Ela sorriu, firme, quase insistente:
— Ah, eu quero ter uma nora como você, sabia? És especial. Não vês que ele te adora? Está sempre a falar em ti, pensa em ti toda hora…
O padrasto dela entrou na conversa e, com aquele ar de quem fala sério, disse:
— Ele gosta bué de ti, Dádiva. Olha essa aliança — e mostrou o dedo — um dia ele vai te colocar a tua também.
Samuel também começou a me pressionar, mas de um jeito sutil. Mensagens cedo pela manhã:
Samuel: Bom dia, Dádiva. Dormiu bem?
Dádiva: Dormi… um pouco, e tu?
Samuel: Com saudade. Já pensaste em mim hoje?
E ligações no fim da tarde:
Samuel: Estou a caminho. Podes falar?
Dádiva: Só um minuto, estou a voltar da faculdade.
Ele morava um pouco distante de mim, mas fazia de tudo para me ver. Se me cruzava na rua, ele desviava, sorria, jogava conversa fora. Às vezes até se aproximava, brincava com os vizinhos, só para estar por perto e me observar. Naquele momento, eu não percebia a intensidade de tudo isso. Achava que coincidências aconteciam. Só mais tarde entendi que nada era por acaso.
E tinha a rotina do dia a dia: eu ia para a faculdade, voltava um pouco tarde, estudava, tentava me organizar. Ele também estudava, mas sempre arranjava tempo para estar comigo. A mãe dele vendia bolinhos, e eu nem sabia direito que ela tinha um filho da minha idade. Mas havia algo mágico ali: numa das vezes em que fiquei doente, sem vontade de comer nada, só conseguia sentir fome ou conforto com aqueles bolinhos. O cheiro e o sabor me salvavam. Era quase como se a mãe dele, sem saber, tivesse dado a única coisa que conseguia me reconectar com a vida naquele momento.
Entre mensagens, visitas e pequenas conversas, começávamos a nos abrir um para o outro. Ele perguntava, eu respondia:
— Dádiva, qual é o teu prato favorito?
— Bolo de chocolate… mas ultimamente só os bolinhos da tua mãe me salvam.
— Sério? Vou dizer à minha mãe que és fã dos bolinhos dela, ela vai adorar.
E assim, sem perceber, eu confiava nele. Ele era curioso, atento, mas sem pressa. Cada gesto, cada sorriso, cada pergunta me fazia sentir segura e observada ao mesmo tempo. Samuel, de certo modo, era obsessivo, mas de um jeito que me deixava confortável. Era confuso, intenso, doce e perigoso ao mesmo tempo.
E enquanto a vida cotidiana continuava, percebi que estava entrando num mundo novo: entre mensagens, olhares, bolinhos e pequenos gestos, eu começava a ceder ao que sempre temi — me apaixonar de verdade.