TUDO ESTAVA se encaminhando devidamente para meu retorno a Connecticut. Não que eu não estivesse animada, parte de mim estava, contudo, não conseguia parar de pensar em todos os fantasmas que me assombrariam ao retornar...
Pelo menos, teria a chance de visitar o túmulo de minha mãe, coisa que nunca pude fazer nesses anos estudando fora, sequer fui ao seu enterro.
Para contextualizar, minha mãe sempre foi amante da arte, ela via o mundo diferente do que ele era e adorava cores, pincéis, telas... Ela adorava arte no geral. Por ser pobre e ter que trabalhar para ajudar minha vó, nunca conseguiu ir atrás do seu sonho de virar uma artista famosa. Na verdade, o que ela gostaria de poder fazer era ensinar para as pessoas a forma como ela via a arte no geral. Sempre achei que ela quisesse abrir um ateliê-escola ou algo do tipo. Por abrir mão de estudar e ter que trabalhar desde muito nova, ela acabou projetando esse sonho em mim. Sempre desenhei muito bem e pela forma como ela falava, me encantei e peguei gosto por pintar. Da mesma forma que ela, eu não sabia mais como me expressar sem ser por uma tela, seja coberta de tinta ou só rabiscos feitos a lápis.
Por essa paixão avassaladora, quando eu tinha quatorze anos, Fiorella Beaumont, com ajuda de seu marido, Benny, conseguiram uma bolsa mais do que especial para mim em uma das escolas de artes mais importante de Paris. Eu frequentei desde que me lembro, uma das melhores escolas de Greenwich, claro que, com ajuda dos Beaumont. Pelo fato de conhecer a família e ter notas boas, Fiorella me disse que isso tinha contribuído com a decisão do conselho de me dar a bolsa, eu era uma das melhores alunas, principalmente em artes. Sabia inglês muito bem para minha idade, mas francês não era muito meu forte...
Não preciso dizer que minha mãe foi responsável por me incentivar a ir, não é? Era a oportunidade que ela nunca teve e que agora tinha aparecido para mim. Uma pequena parte de mim queria ir, mas a outra... Eu estava indo para o outro lado do mundo, longe dela, de tudo e todos que conhecia, porém, isso não parecia importar. Em todos os quatorze anos de minha existência, nunca tinha ficado muito tempo longe de mamãe, a ideia de ir completamente só para outro país chegava a me assustar, mas, "era um colégio interno e muito seguro", Fiorella tinha nos garantido que eu ficaria bem e que nunca faltaria nada para mim.
Então, eu parti.
Aprendi muitas coisas e tive a oportunidade de conhecer diversos países, mas isso me custou meu relacionamento com minha mãe, não tínhamos muito contato, o pouco que falava com ela era por meio de cartas, cartas breves e sem muita informação. Com o tempo, ela foi se tornando uma estranha para mim, mas me lembro de sofrer e chorar desesperadamente quando soube de sua morte a quatro anos atrás. De alguma forma, eu sabia que ela estava ciente de todos os meus feitos na escola e de como estava me saindo bem, isso me reconfortava e quase apagava o fato de eu nunca ter recebido uma carta dela me parabenizando por isso, mas no fundo, eu sabia que ela estava feliz por mim e se pudesse, estaria ao meu lado.
No mesmo ano da morte dela, concluí o curso de artes, mas não o ensino médio. A escola na qual eu estudava escolhia todo ano um aluno destaque para premiar com uma viagem a roma para fazer um outro curso de artes e, por ter sido a aluna destaque daquele ano, eu acabei ganhando a bolsa. A princípio pensei em negar, voltar para casa, ir até o túmulo de minha mãe e chorar tudo o que tinha para chorar, mas... Eu devia aquilo a ela, por isso, aceitei a bolsa. De manhã, eu me preocupava em concluir o ensino médio, já que a escola oferecia essa chance e, a tarde, me concentrava em aprender história da arte, teorias críticas da arte, psicologia da arteterapia, estética, cinema e literatura. Além disso, o curso oferecia cursos práticos de pintura, aperfeiçoamento de desenhos, escultura, modelagem, fundição, pintura a fresco, gravura, vitral, fotografia, serigrafia, litografia, morfologia, imagem digital e arquitetura.
Agora com vinte anos, eu finalmente tinha concluído toda a grade e me preparava para retornar a Connecticut. A princípio para casa dos Beaumont, mas eu tentaria alguma coisa envolvendo tudo o que aprendi quando fosse o momento, por ora, eu torcia para que ainda tivesse algum emprego na mansão para mim, devia isso a mamãe também...
Minha escolha de voltar para mansão era principalmente por isso: minha mãe. Eu vi por quase quinze anos a forma como ela lidou com aquela família, o amor que ela cuidava dos gêmeos e como ela falava de toda família Beaumont com gratidão. Eu sentia que devia isso a ela, voltar e pagar por tudo o que fizeram por mim, pela oportunidade de me tornar alguém que eles me deram. Devia isso, principalmente, a Fiorella, já que foi ela quem se empenhou para que eu conseguisse a bolsa no internato, foi isso o que a diretora de lá me contou certa vez.
Confesso que estava sendo particularmente retornar. Muita coisa com certeza havia mudado, Ethan continuava o mesmo chato de sempre? Edward estaria casado? Ele só menos se lembraria de mim? Me sentia uma i****a por, depois de tantos anos, me comportar como a mesma adolescente de anos atrás em relação a Edward. Era quase uma obsessão e eu me sentia tão ridícula, nós só tínhamos dado um mero beijo (que não significou nada pra ele) mas tinha sido importante para mim, já que fora o meu primeiro... Duvido muito que ele se lembrasse de mim e também duvido que ele se lembrasse do nosso beijo. Era quase doloroso pensar nisso. Não confiava nos sentimentos do meu eu de catorze anos, mas não tinha dúvidas de que Edward havia sido meu primeiro amor.
— Ansiosa para voltar? — fui puxada de meus devaneios ao ouvir o sotaque italiano de Ramona que ficava estranhamente mais forte quando a mesma falava inglês.
Mas, voltar para o que, exatamente? Uma mãe morte e uma família que eu sequer sabia se ainda lembravam de mim? Eu não tinha nada em Greenwich, m*l me lembrava do rosto de Fiorella, Benny ou de qualquer outro, mas, ainda assim...
— Estou! — a animação era nitidamente forçada, claro que minha amiga percebeu. Fez questão de me lançar um sorriso acolhedor e, após parar do meu lado, me abraçou.
— Vou sentir tanto a sua falta. — sabia que Ramona queria chorar, mas minha amiga se controlava justamente para que eu não caísse no choro também. — prometa que não vai se esquecer de mim.
— Não é um adeus, e você sabe. — a olhei com ternura, e sorri logo depois. Novamente, seus olhos se encheram de lágrimas.
Terminei de fechar a última mala e com a ajuda dela, arrastei-a para fora do quarto, até o táxi que já me esperava lá fora. Ramona me acompanharia até o aeroporto, junto de Vicenzo, seu namorado e taxista nas horas vagas, mas que hoje não me levaria até o aeroporto, já que tinha uma prova importante para fazer. Ele apenas me deu um sorrisinho tímido.
— Forse mi mancherai, monello.¹ — Ao contrário de Ramona, Vicenzo não falava inglês. Dei risada e lhe mostrei a língua, mas não antes de abraça-los mais uma vez.
— Vou sentir tanta falta de vocês. — disse em italiano para que meu amigo entendesse. — prometam me ligar por Skype.
— Prometemos. — eles disseram ao mesmo tempo.
— Jure que não vai se esquecer dos mais pobres quando for uma artista famosa na América. — Vicenzo estava fazendo cara de bravo, mas eu sabia que era só para controlar a vontade de chorar. — Se apresse, pirralha, você não pode perder o vôo.
— Ou pode! — olhei para trás ao ouvir minha amiga fungar, então ela desistiu de tentar se fazer de forte e chorou. A abracei imediatamente, apertando forte seu corpo contra o meu.
— Não é um adeus, não lhe garanti isso? — ela assentiu, secando as lágrimas com a manga da blusa de frio.
— Garantiu. — minha amiga me abraçou uma última vez e caímos até o carro. Me despedi de Vicenzo também o abraçando. Pude jurar ver uma lágrima escorrer, mas meu amigo a secou rapidamente, fingindo coçar o olho.
— Então... Vamos.
Respirei fundo e olhei para trás uma última vez, memorizando o apartamento que eu morei. Gostava daquele lugar, gostava de Roma, mas tenho certeza que eu iria gostar mais de voltar para Connecticut e a vida que me esperava por lá.
Suspirando fundo uma última vez, entrei no veículo. Ramona e eu seguimos em silêncio até o aeroporto, minha amiga fungava não fazia questão de controlar mais as lágrimas. Por outro lado, eu fazia de tudo para que ela não visse as minhas.
ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ
¹algo como "vou sentir sua falta, pirralha" em italiano.