CAPÍTULO 4.

1743 Words
MEU VÔO tinha chegado uma hora mais cedo, felizmente. O lado r**m é que eu teria que esperar até alguém aparecer para me buscar. Estava andando calmamente e completamente alheia ao mundo ao redor, já que estava mexendo no celular e avisando aos meus amigos que havia pousado. Não me dei conta de que tinha alguém andando apressadamente e impacientemente, até me chocar contra uma parede de músculos bem sólida, por sinal, e incrivelmente grosseira. — Olhe por onde anda! — uma voz grave praguejou enquanto me encarava com um olhar emburrado. — garota i****a. — Foi você quem esbarrou em mim, mané. — retruquei no mesmo tom enraivecido, mas ele sequer ouviu, já que tinha continuado seu caminho. Apenas saiu resmungando. Revirei os olhos, não me lembrava que as pessoas eram tão grossas aqui nessa cidade. Me lembrando agora do rosto daquele desconhecido e muito m*l educado, tinha achado-o estranhamente familiar, parecia que eu o conhecia de algum lugar, mas não conseguia me lembrar de onde. Peguei minha mala do chão, acabei derrubando-a quando esbarrei naquele brutamontes — ou melhor, ELE acabou derrubando — e me sentei em um dos bancos próximos ao portão de embarque/desembarque, faltava alguns minutos até a hora combinada, porém não tinha como avisar a quem quer que viesse me buscar, já que eu não sabia quem era, apenas recebi um e-mail de alguma secretaria dos Beau dizendo que alguém estaria me esperando aqui. Eu falei com essa pessoa o último ano inteiro, era com ela que eu combinava a grade de horário, o salário, alguns pequenos ajustes durante a semana, mas não sabia ao certo o que eu iria fazer lá. Cozinhar? Passar? Limpar? Eu fui burra de não ter perguntando e agora a dúvida me corroía. A pessoa com quem eu falava também me disse que talvez a grade de horário mudasse, dependendo da vaga disponível para mim. Eu começaria ganhando dois mil dólares (se os patrões achassem justo, aumentariam meu salário), tinha direito a morar na casa onde minha mãe morou comigo e no horário de trabalho, usar o carro da família (juntamente de um motorista). Não era tão r**m, afinal, considerando meus últimos empregos durante o tempo em que passei fora. O lugar estava razoavelmente vazio, tinha apenas uma pessoa esperando alguém; um homem alto, de terno e chapéu de chofer estava parado de forma impaciente em frente ao portão de desembarque. Ele olhava toda hora para frente e para os lados, olhava seu relógio e vez ou outra coçava a cabeça. Eu estava sentada a poucos metros dele, esperando que minha carona chegasse. Tinha a estranha sensação de que também o conhecia de algum lugar. Quando as pessoas começaram a surgir pelo portão, ele retirou apressadamente uma espécie de placa improvisada do bolso de seu terno, nela estava escrito DUNCAN - BEAU. Então, depois de uns trinta minutos apenas parada ali vendo o homem impaciente, me toquei que ele era minha carona. Fui caminhando até ele rindo, que quando escutou, me olhou levemente confuso, mas então seu semblante mudou: agora ele me olhava assustado, depois, curioso, por fim, um semblante carinhoso tomou conta de suas feições. Podia ver seus olhos verdes brilharem, parecia que ele estava se segurando para não chorar. — Michelle? — A própria! — disse sorrindo e estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele revezou o olhar entre minha mão e meu rosto, ainda parecendo levemente atordoado, depois apertou minha mão. A dele estava suando frio. — E você? — O que? — ele ainda me encarava fixamente. — Ah, sim! É compreensível que não se lembre, já faz muito tempo desde que nos vimos pela última vez. Ele, de fato, parecia muito familiar, mas eu não conseguia me lembrar, duvidava que o conhecia. — Me desculpe, eu não consigo me lembrar... — um sorriso sem graça apareceu em seus lábios e ele coçou a nuca levemente. O homem guardou a plaquinha e pegou a mala de minhas mãos. — seu rosto é de fato familiar, sim, mas eu ainda não consigo me lembrar... — Faz muito tempo, pequena flor. Não se preocupe com isso. — E como um flash, me lembrei de alguns momentos, a anos atrás, quando Jarvis, o motorista dos Beau, estava brincando junto comigo enquanto lavavamos o carro. Imediatamente arregalei os olhos. Ele pareceu perceber que eu tinha me lembrado e sorriu, aquele brilho, as lágrimas, ainda estavam em seu olhar. — você se parece muito com ela. Entendia o que ele queria dizer, por isso foi inevitável controlar a vontade de chorar, mas, com muito custo eu consegui. Era possível ver meus olhos levemente lacrimejando. Eu era muito parecida com minha mãe, sim. Meu cabelo era naturalmente castanho, mas agora graças a tinta, tínhamos os mesmos cabelos pretos, preto quase azulado, e talvez isso me deixasse tão parecida com ela. A mesma pele pálida, com algumas sardas aparente, mesma boca carnuda e levemente avermelhada. O formato do olho também era igual, mas a cor era diferente: os de mamãe eram de um castanho clarissimos, já os meus, azuis, como um céu claro. As maçãs do rosto era marcadas, minha bochecha levemente rosada. O nariz era diferente, sempre achei que a cor do olho, as maçãs do rosto e o formato do nariz foram umas das poucas coisas que herdei do meu pai. Eu não sabia quem era, obviamente, mas não eram características de ninguém que eu conhecia da minha família, só poderia ser do homem que escolheu me abandonar ao nascer. — Também acho. — foi tudo o que consegui dizer após um longo tempo em silêncio. Queria perguntar mais dela, queria saber do seu velório, onde ela foi enterrada, quem apareceu no seu enterro, mas algo me impedia. Eu não me sentia a vontade para bombardear aquele pobre homem com trocentas perguntas, mas se não ele, quem me diria tudo isso? — Eu posso te perguntar... — Jarvis, aí está você! — uma voz muito conhecida se fez presente bem atrás de mim, numa tentativa falha de humor, ele disse: — achei que tivesse se perdido. Me virei no instante em que aquele brutamontes pareceu notar minha presença. O i****a de cabelos castanhos me olhou confuso por alguns instantes, e logo depois uma expressão emburrada tomou conta do rosto dele. Era incrível como alguém podia ser tão bonito — e estranhamente familiar. — e um grande grosso i*****l. — Ah, não... — vendo meu olhar de raiva, um sorriso satisfeito e debochado estava estampado na cara bonita, digo, asquerosa dele. — Essa coisinha esbarrou em você também, Jarvis? As pessoas não costumam mais olhar por onde andam, né? — Do que está falando, senhor Ethan? — o homem revesava entre olhar para mim e para Ethan, que não desviava seus olhos de mim, por outro lado. Sua expressão era de alguém confuso. — Michelle não esbarrou em mim. Fiquei incrédula por alguns instantes, mas tratei de disfarçar a cara de boba que estava fazendo. Por isso ele me parecia tão família, Ethan Beaumont estava bem na minha frente. O loiro juntou as sobrancelhas numa expressão confusa, e me encarou. — Michelle? — ela olhou para mim, depois para Jarvis, por fim, para mim de novo, mas não parecia me reconhecer. — De onde a conhece? — Essa é a nova babá do seu sobrinho, Senhor Ethan. Então esse seria meu cargo... Mas a palavra sobrinho me pegou: Edward tinha casado? E mais, tido filhos? Eu teria que conviver com ele e a esposa? Por deus! Meu estômago embrulhou apenas com a possibilidade de ter que viver embaixo do mesmo teto que os dois, mas não ousei perguntar nada, pelo menos, não na presença do irmão gêmeo dele. Ele me olhou mais uma vez e sua expressão mudou, agora ele parecia me reconhecer e estava terrivelmente chocado. — É um prazer revê-lo, Ethan. — disse sorrindo com a língua entre os dentes, me lembrava bem como ele não me suportava. Ethan, agora, me olhava de forma divertida, um sorriso vitorioso e estranhamente m*****o em seus lábios. Ele entregou sua mala a Jarvis, botou os óculos escuros e, antes de sair andando, disse-me: — Boa sorte com aquela peste, — ele fez questão de enfatizar a última palavra. — vai precisar. Lancei um olhar assustado para Jarvis, ele apenas sorriu amarelo e pegou uma de minhas malas, pronto para sair andando. Acompanhei os dois sem dizer uma palavra sequer. Como Ethan podia dizer palavras tão duras do próprio sobrinho? Duvidava que o menino fosse tão r**m assim, afinal, era uma, aparentemente uma criança. Eu sabia que seria difícil, afinal, nunca trabalhei como babá em toda minha vida, mas ainda assim... Não podia ser tão r**m, não é?! Caminhamos em silêncio até o carro, Ethan ia na frente, Jarvis e eu atrás. O loiro andava com a maldita pose de superior de sempre, os óculos escuros e o cabelo balançando pelo vento deixava tudo ainda mais pateticamente superior, era como se o mundo fosse só dele e nós, meros mortais, fossemos apenas os pequeninos detalhes que ele tinha de lidar. A pintura patética veio imediatamente na minha cabeça e, embora achasse que fosse ficar provocante o suficiente para deixar Ethan furioso, isso não me animava a pintar: tudo nele era patético o suficiente para eu não querer encostar num pincel. Encarei o motorista antes de entrar no carro. — O filho do senhor Edward pode ser um pouco... Difícil. — foi tudo o que ele me respondeu quando questionei. — Não seja gentil com aquele lobo em pele de cordeiro, caro Jarvis. — Edward disse do banco de trás. Ok, agora talvez eu estivesse um pouco assustada. Jarvis deu partida e, do banco da frente, dei uma olhada no retrovisor, o maldito sorriso ainda estava lá! Ethan parecia ansioso por algo, certamente, algo que fosse me deixar desconfortável o bastante para não arrancar da sua boca o sorriso m*****o e divertido que ele mantinha. Respirei fundo, desejando que o filho de Edward e sua querida esposa não fosse tão r**m assim. Queria perguntar com quem ele havia casado, mas do fundo da minha mente rancorosa lembrei de uma loira lindíssima ao qual ele fez questão de beijar na minha frente a seis lindos anos atrás. Certamente, era a mesma mulher. Balancei minha cabeça negativamente, expulsando o pensamento ridículo que me veio a mente. Só esperava que ela não fosse uma megera e me tratasse bem.
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