O corredor da ala de segurança máxima estava quase vazio.
Aurora caminhava com a pasta contra o peito, os saltos ecoando no chão de concreto.
Ela tinha acabado de sair da sessão com Dante.
Ainda estava pensando nas palavras dele.
"Fique longe do pátio."
Ela virou um corredor mais estreito que levava ao setor administrativo.
Foi quando ouviu passos atrás dela.
Pesados.
Lentos.
Ela parou.
Quando virou, viu um dos guardas da prisão.
Ele era alto, largo, com um olhar estranho demais para alguém que deveria proteger aquele lugar.
O crachá dizia Ferraz.
Ele encostou no batente da porta do corredor, bloqueando parcialmente o caminho.
— Boa tarde, doutora.
Aurora manteve a postura firme.
— Boa tarde.
Ela tentou continuar andando.
Mas ele deu um passo para frente.
Bloqueando completamente a passagem.
Aurora ergueu os olhos para ele.
— Algum problema, guarda?
Ferraz sorriu de um jeito que fez um arrepio subir pela espinha dela.
— Problema nenhum.
O olhar dele desceu lentamente pelo corpo dela.
Do cabelo.
Ao vestido rosa.
Às pernas.
Aurora fechou a expressão.
— Com licença.
Ela tentou passar.
Mas ele colocou o braço contra a parede, impedindo.
— Calma, doutora… — disse ele em tom baixo.
— Só queria conversar.
Aurora não recuou.
— Conversas acontecem sem bloquear corredores.
Ele riu baixo.
— Você é corajosa… sabia?
O olhar dele ficou mais pesado.
— Muito corajosa pra andar sozinha por aqui.
Aurora cruzou os braços.
— Isso é uma ameaça?
Ele deu um passo mais perto.
Agora estavam muito próximos.
— Não… é um conselho.
A voz dele ficou mais baixa.
— Essa prisão tem homens muito perigosos.
Ele inclinou a cabeça.
— E às vezes… os guardas também são.
Aurora manteve o olhar firme.
— Está insinuando alguma coisa?
Ferraz se aproximou mais um pouco.
— Só estou dizendo que uma mulher como você…
Ele sorriu.
— Poderia se meter em problemas.
O silêncio ficou pesado.
Aurora falou devagar:
— Saia da minha frente.
Ferraz deu uma risada curta.
— Ou o quê?
Antes que ela respondesse…
Uma voz grave ecoou do fim do corredor.
— Ou eu quebro a sua mão.
Os dois viraram.
Dante Moretti estava parado entre dois guardas.
Ele estava sendo levado de volta para a cela.
Mas agora… ele tinha parado.
Os olhos escuros estavam fixos em Ferraz.
E havia algo perigoso neles.
Muito perigoso.
Ferraz soltou um pequeno riso nervoso.
— Olha só… o mafioso resolveu virar herói agora?
Dante não respondeu.
Ele apenas deu um passo à frente.
Mesmo algemado.
Mesmo escoltado.
Ainda assim… parecia dominante.
O guarda que o escoltava tentou puxá-lo.
— Vamos, Moretti.
Dante não se moveu.
Ele continuava olhando para Ferraz.
— Tire.
A voz dele saiu baixa.
— O braço.
Ferraz levantou as mãos em provocação.
— E se eu não tirar?
O silêncio no corredor ficou mortal.
Dante inclinou levemente a cabeça.
Então disse algo que fez o sangue gelar.
— Eu sei onde você mora.
Ferraz ficou imóvel por um segundo.
— O quê?
Dante continuou, com a voz fria.
— Rua Monte Azul.
O rosto do guarda começou a mudar.
— Casa cinza.
Os olhos de Dante não piscavam.
— Uma filha de oito anos.
O silêncio no corredor ficou pesado.
Muito pesado.
Ferraz deu um passo para trás.
Devagar.
E tirou o braço da parede.
Aurora percebeu algo ali.
Dante não estava blefando.
Ferraz engoliu seco.
— Isso… isso é ameaça, Moretti.
Dante respondeu calmamente:
— Não.
Ele olhou diretamente nos olhos do guarda.
— Isso é um aviso.
Ferraz recuou mais um passo.
Depois virou e saiu pelo corredor sem dizer mais nada.
O silêncio voltou.
Aurora olhou para Dante.
— Você não deveria ter feito isso.
Dante deu de ombros.
— Ele não deveria ter encostado em você.
Os guardas puxaram ele novamente.
— Vamos, Moretti!
Dante começou a andar.
Mas antes de virar o corredor…
Ele olhou para Aurora uma última vez.
E disse baixo:
— Eu avisei.
Ela ficou parada no corredor.
O coração batendo mais forte.
Porque naquele momento…
Aurora percebeu uma coisa muito clara.
Dante Moretti realmente estava protegendo ela.
E isso podia ser mais perigoso do que qualquer ameaça.