Lizzebeth
Fecho a porta com baque seco.
A disputa por poder já começou
Perde quem fica vulnerável.
Aperto as unhas na palma da minha mão com força. Eu não devia ter parecido tão insegura, mas alguma coisa naqueles olhos me dizem que eu o conheço.
Mais do que isso.
O sangue no meu pulso se agitou com o toque, tanto que se formou uma pequena cicatriz dentro da minha pele, uma pequena estrela de sete pontas.
Esfrego com força meu punho para tentar alisar a cicatriz, amanhã o dia deverá ser perfeito e uma herdeira Maverich nunca devia ter falhas, não tão perto do teste de compatibilidade.
Eu sinto que o conheço, mas não sei quem ele é.
Volto minha atenção para o quarto vibrante na cor da família, há um painel de luz televisa na parede em frente a cama, que no momento retrata nosso planeta e a salvação:
As 5 máquinas de Sampolo deixadas para nós pelos nossos primeiros visitantes intergalácticos, são responsáveis pela manutenção do nosso mundo.
Como um grito de clemência quando o último resquício oxigênio entrava em nossos pulmões, depois de toda água ter sido transformada em ácido, da terra ter ficado desértica e de quase todos animais extintos.
Um planeta respirando com a ajuda de aparelhos.
Minha mente gira enquanto meu coração afunda na melancolia e me jogo no cama que me sufoca com tantos babados.
Esse casamento com um Silverstone, um segundo filho, significa que querem deixar minha linhagem mais forte, apesar de segundos filhos não herdarem a compatibilidade com sampolo, eles ainda têm os genes dos fundadores.
Eu sou a moeda, ele o adquirinte e meu herdeiro o produto final.
Meu estômago embrulha enojado. Este é o mundo ao qual pertenço.
Acalmo meus pensamentos e finalmente consigo me desgrudar da cama que parece me envolver com tanta força,
Penso no jeito rude do Silverstone no elevador, meu sangue parece se agitar novamente, quanto mais ele se impor a mim, mais vai parecer que ele é que é valioso e não a mim, a puro sangue Maverich.
Eu não posso permitir isso, e eu não vou.
Continuo andando pelos comodos do apartamento e me pego observando no closet meu traje para iniciação de amanhã, vinho metálico, botas pesadas, como uma armadura de guerra. Meu estômago embrulha.
Amanhã é a primeira batalha da guerra de Herdeiros, a hora de descobrir nossos níveis de compatibilidade.
Como Marverich espero e almejo ser nível 2, a única forma de conseguir manter o legado da minha família por mais uma geração, um nível 3 não vai servir.
Ainda mais se o herdeiro Silverstone assim como seu pai for nível 2 também.
Já começaria essa aliança em desvantagem, vou até a janela do quarto e observo a vastidão de pedras cinzas da qual o Colégio é feito, e percebo no estacionamento que além de fechado os portões, a cerca laser está ativa.
Uma gaiola de espinhos para jovens prisioneiros.
Uma risada escapa das meus lábios
Afinal para onde nós iríamos sem que pudéssemos ser encontrados e arrastados para o dever?
Olho para meu pulso e vejo que a cicatriz começou a se dissolver.
Não sei dizer ao certo se ter todo o poder do mundo nas mãos é um privilégio ou um castigo.
Desço novamente para o pátio e começo a observar o castelo que vai abrigar jovens durante esse ano, e vejo que não tem nada de acolhedor.
O chão de mármore branco é a única coisa que se difere da paisagem cinza.
Oktansia é a cidade com a Sampolo nível 5, ela regenera o ar, e é a mais facil de se operar conforme o diário dos precursores aponta.
Mas como é usada mais por estudantes em formação sem nenhuma experiência...
Bem...
olho para a fumaça turva que paira sobre mim, o oxigênio nas cidades menos importantes
...beira ao não respirável.
A escola fica justamente na pior parte de Oktansia, e é a primeira vez que respiro um ar tão poluído e intragável.
se um nível 2 operasse a máquina com toda certeza o ar seria outro em toda extensão do globo.
Coloco o aparelho de auxilio respiração no meu nariz.
E meu corpo fica subitamente leve e aliviado.
Divago por horas enquanto percorro toda extensão do colégio, até encontrar um lugar perfeito privado.
Um jardim dentro de uma cúpula, igual ao jardim na sacada do quarto do meu pai Maxon Marverich o Grande.
E é exatamente isso o que diz o letreiro dourado na pequena grade vermelha que separa os ambientes.
"Jardim Maxon Marverich"
Levo a mão até a ponta da grade, mas minha mão é empurrada com força para longe.
Um campo de força de rejeição, difícil de ser burlado.
Aproximo o rubi do meu mindinho esquerdo na fechadura na grade, ela se abre e o campo retrai.
Assim que entro a cerca se fecha num baque s***o.
Retiro o aparelho de auxilo de respiração e puxo todo or ar do jardim que chega ao meu nariz como o perfume da minha mãe, rosas, jasmim e ylang ylang. O perfume que logo será meu também, assim que eu assumir meu dever com a Sampolo n⁰ 5.
Eu serei então a matrona da família.
Me sento na poltrona em frente a mesa de chá e toco o sino para que ponham a mesa.
Abro o último livro que peguei na biblioteca só para descobrir que ele na verdade não existe, é apenas um esconderijo para algo que imagino ser muito mais importante.
A capa de couro marrom é firme, parece nova e intocada, não parece haver páginas dentro.
Seguro o livro e o giro em minhas mãos para ver de todos os ângulos algum gatilho dr acionamento, mas é em vão.
Quando chega o chá rapidamente guardo o livro dentro do outro.
Melinda e Tony vem me atender com uma bela bandeija de biscoitos e chá, eles servem a minha família desde o casamento deles a 40 anos, sem nunca terem saído do colégio, eles cuidam do jardim e do meu apartamento na cobertura.
— Nunca pensaram em sair ? — solto sem nenhum critério e sinto minhas bochechas esquentarem
— Pensamos no quão devastador seria ter que sair — Tony me diz com um sorriso calmo
— Chegar a essa idade senhorita — Melinda diz colocando uma mecha de cabelos grisalhos atrás da orelha
— É um privilégio raro, respirar o oxigênio do lado de fora todos os dias, é como ingerir uma dose letal de veneno, não passaríamos dos 50 anos.
Novamente sou tomada por uma súbita vergonha.
É claro que nem todos têm a oportunidade de viver da forma privilegiada que eu vivo.
Como minha mãe vive na verdade, por que assim que eu me fundir a Sampolo nº 5, terei minha força vital sugada e m*l passarei dos 50 anos também.
Meu coração acelera, eu queria que o sacrifício dos herdeiros, bem, cobrissem mais pessoas de morrer em tão tenra idade.
Faço um sinal para eles saírem e eles se despedem e vão cuidar de outros afazeres.
Olho em direção as roseiras bem cuidadas do jardim, se ao menos todos dessa cidade pudessem ser servos da família, talvez vivessem melhor.
Na cidade com o pior oxigênio do mundo.
Respirariam melhor dentro dessa pequena cúpula de privilégios.
Pego novamente o livro misterioso e o observo intrigada.
Como vou poder ler?
— Você vai precisar de um trevo para abrir.
A voz me deixa alerta, viro-me em direção a grade do jardim, e vejo o herdeiro Silverstone pálido sem um aparelho de auxilio respiratório.
— Eu deveria deixa-lo morrer?
— Bem, esse não é um bom jeito de entrar na familia — Ele diz sugando o ar com força.
Para mim seria o jeito ideal.