Restaurante

1219 Words
Amélia Byrne Eu nunca senti atração por nenhum garoto, ou homem. Na Escócia onde eu morava, tinha poucas opções, e os rapazes não me agradavam. Até pensei que talvez eu não gostasse de homens. Mas não sentia a menor vontade de gostar de mulheres também. Pesquisei um pouco e pensei ser Assexual. Afinal, eu beijei umas três vezes na vida, e tinha sido péssimo. Os caras me babavam inteira, que nojeira aquilo. E quando tentei beijar uma menina, foi pior ainda. Então se fosse para escolher, preferia não beijar ninguém. Eca! Minha família era caseira, não saíamos quase, e quando saíamos era em família. Eu era bem tratada em casa, dentro do possível. Meu padrasto não era dos melhores, mas nunca foi r*im. Sempre que podia me botava para baixo, dizendo que eu era inút*l, f*ia, ou burr*. Eu sabia que não era b*rra. Mas f*ia eu já não tinha tanta certeza. Minha mãe era loira e minha irmã saiu como ela, belíssima. Meu padrasto tinha cabelos escuros, e meu irmão era como ele. Já eu? Era uma cenoura! E ainda tinha milhares de sardas pelo rosto. Uma vez ouvi falar que passando c*cô de galinha saía, mas era mentira. Só fiquei com a cara fedendo por uma semana. Tentei pintar meus cabelos, mas o laranja era dos bons, porque as tintas não pegavam direito, fazendo ficar pior que o natural. Então desisti e me aceitei. E o fato de eu não querer ninguém, fazia eu me sentir melhor. Sem sofrimentos. Vim para Dublin depois de uma confusão tremenda lá em casa. Meu padrasto, me arranjou um marido. Vê se eu posso com isso? Ainda bem que meu pai me socorreu e me trouxe para morar com ele. Eu estou amando essa cidade. Os prédios grandes, as ruas movimentadas, e tem gente bonita por todo lado. Ontem fui atropelada por um homem magnífico. Ontem tive a certeza que gostava de homens. Eu senti até uma coisa estranha nas minhas partes baixas, só de olhá-lo dirigir. Mas óbvio que ele nunca se interessaria por mim, e tudo bem, não tem sofrimento por isso. No hospital me deram três dias de atestado, e desde lá até o restaurante que escolhemos para almoçar, venho tentando convencer meu pai que posso continuar com as aulas. Não posso negligenciar assim o balé, ainda mais tendo uma apresentação tão próxima. Ouço uma voz cumprimentar e viro-me para ver. E Deus me ajude, pois sinto minhas pernas amolecerem. - Oh… Olá. Ele pergunta como eu tô, se apresenta a meu pai e quando vai se retirar, convido-o para sentar com a gente. Não sou de tomar iniciativa em muita coisa. Mas queria ouvir um pouco mais aquela voz grossa e rouca, sentir um pouco mais o perfume forte que exalava dele. Ele logo foi embora dizendo que tinha lembrado de algo importante. Mas as pequenas lembranças não foram. Combinei com meu pai de ele me levar, e eu tiraria um dia de atestado apenas. Entrei na enorme casa em que eu morava com meu pai. Era uma casa bonita, com cores claras em um bairro próximo do centro da cidade. Tinha empregados e seguranças. Eu não sabia pra que tudo aquilo de gente numa casa que mora apenas duas pessoas, mas não era assunto meu, não é mesmo? Meu pai que paga tudo, não cabe a mim achar alguma coisa. Subi os degraus da escada a qual já havia me acostumado e entrei no meu quarto. Era um grande quarto. Quase do tamanho da minha casa na Escócia. Tinha banheiro com banheira, closet e até uma pequena sala para receber alguém, se eu quisesse. Fui preparar um banho de banheira, porque se tinha uma coisa que tinha me conquistado naquela casa, era a banheira. Me deleitei no banho de espuma, sentindo que estava macia e perfumada. Saí apenas de toalha e me deitei na cama. Nada melhor do que um cochilo depois de um bom banho. Acordei ouvindo uns barulhos altos, de coisas sendo quebradas no andar de baixo. Me assusto e corro vestir alguma coisa. Pego a primeira calça e blusa que acho e abro a porta devagar. Não parece ter ninguém por ali. Saio passo a passo até a beira da escada e espio. É meu pai. Ele parece furioso, e quebra os jarros, quadros, cadeiras, porta retratos. Me assusto com aquela situação. Nunca o vi assim. - Pai… - Digo começando a descer os degraus da escada. Meu pai me olha suavizando o rosto. Baixa a cabeça e suspira. - Te acordei minha princesa, me desculpe… Termino de descer os degraus vendo que ele está mais calmo. - O que houve pai? - Pergunto olhando a sala de estar destruída. - B*bagem querida… deu problema em alguns negócios, mas nada que seu pai não resolva. - Ah paizinho… - Dou um abraço nele. Ele havia feito muita falta na minha infância, ele me envolveu em seu abraço e me deu um beijo no alto da cabeça. - Vou ter que fazer uma viagem de emergência amanhã cedo. Mas deixarei o motorista encarregado de te levar e buscar do Studio, tá bem? - Tá bem. - Digo, sentindo meu peito apertar levemente. Eu gostava da companhia do meu pai, mas ele sempre precisava fazer viagens, isso me chateava um pouco. E eu não gosto da cara daquele motorista, ele tem cara de bandid*. Volto para meu quarto e me deito. Preciso achar alguma atividade para fazer durante o dia. Ficar só em casa ou perambulando pela cidade está me cansando. Talvez eu comece a largar currículos em lojas também, já que em escolas de dança não está vingando. Passam-se 3 dias e nada do meu pai. Nenhuma ligação. Bufo indo para o Studio com o motorista com cara de malvad*. Outra coisa que não sai da minha cabeça é aquele tal de Phillip. O pior é que nem sei seu sobrenome. E só por Phillip não consegui encontrá-lo em nenhuma rede social. Desço e vou entrando no prédio em que faço balé. Mas antes de a porta se fechar atrás de mim, escuto tiros. Viro-me depressa e vejo o nosso motorista ser baleado. - Meu Deus! - Grito pensando em ir lá ver, mas o segurança do Studio me segura. - Tá maluc* menina? Vão te balear também. - Arregalo os olhos, apavorada. - Eles atiraram no meu motorista. - Digo deixando-me ser arrastada para uma sala ao lado. - Fica abaixada. - O segurança grandalhão fala. Ele é Erick Poich, tem vinte e poucos anos, moreno, alto, olhos castanhos, um belo homem. Gosto dele, sempre é cordial e animado, mas nunca o tinha visto tão sério. Depois de vários minutos ouvindo barulho de tiros, o silêncio sobressai-se, me fazendo sentir muito medo. Parecia que todos tinham m*rrido, e só sobrara eu. Mas pouco depois aparece Erick. - Venha… - Ele me estende a mão, que pego meio trêmula. - Chamamos a polícia, que já está chegando. Ao ver o carro em que eu estava, sinto como se água fervente me percorresse. Estava destruído, todo cheio de buracos de bala. Podia-se ver o sangu* do meu motorista espirrado nas janelas. Eu nunca tinha presenciado nada nem meramente parecido com aquilo. Sinto minhas pernas fraquejarem, minha visão embaçar, e aos poucos não vejo mais nada.
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