A mão de Dante queimava meu pulso como brasa viva.
Seus olhos âmbar - *os mesmos de Ana* - fixos no meu rosto com uma intensidade que fez o ar faltar nos meus pulmões.
— *Onde. Está. Ela.
Cada palavra saiu arrastada, rouca por dois anos de silêncio, mas o poder por trás delas era inegável. *Ainda era ele.* Ainda o homem que me dominara naquela cabana.
— Sua mãe a levou — respondi, lutando para não tremer.
Algo *perigoso* passou por seus olhos.
Os monitores cardíacos dispararam quando ele tentou se sentar.
— *Deitado!* — o médico ordenou, mas Dante ignorou, seus músculos atrofiados tremendo com o esforço.
— Ricardo! — ele chamou, reconhecendo o irmão na porta.
Ricardo avançou, mas Dona Catarina bloqueou seu caminho.
— *Você traiu a família* — ela cuspiu.
Dante riu, um som áspero e quebrado.
— *Você atirou em seu próprio filho, mãe.*
O quarto de hospital parecia ter virado um campo de batalha silencioso.
Enfermeiros recuaram. O médico hesitou. *Até o ar parou de circular.*
Dona Catarina segurava Ana como um troféu, seus dedos finos demais para uma avó afetuosa.
— Ela é uma Valente — declarou, como se isso resolvesse tudo.
— *Ela é MINHA!* — gritei, arrancando meu pulso da mão de Dante.
Para meu choque, ele *apoiou* minha afirmação com um simples aceno para Ricardo.
Em um movimento fluido, Ricardo sacou uma arma e apontou para *sua própria mãe*.
— Você não vai levar outra criança nossa, *mãe*. Não depois do que fez com Luisa.
*Luisa?*
Dante cerrou os maxilares.
— *Ainda não, Ricardo.*
Dona Catarina sorriu, *tranquila demais*.
— Você realmente acha que viria sem proteção?
Um som de *dez armas* sendo engatilhadas ecoou do corredor.
Dante se moveu *antes* que qualquer um pudesse piscar.
Com a agonia clara em cada músculo, ele *arrancou* o cateter IV do braço e usou o leito hospitalar como apoio para ficar em pé.
— *Você tem três segundos para devolver minha filha.*
Dona Catarina riu.
— Você m*l pode ficar em pé, menino.
Ele não discutiu. Apenas começou a contar:
— *Um.*
Os homens no corredor avançaram.
— *Dois.*
Ana começou a chorar, esticando os bracinhos para mim.
— *Três.*
*Tudo aconteceu ao mesmo tempo.*
Ricardo disparou *para o teto*.
Os capangas de Dona Catarina invadiram o quarto.
Dante *puxou* o monitor cardíaco e o arremessou contra o primeiro homem.
E eu...
*Eu saltei para pegar Ana.*
Dona Catarina tentou me esquivar, mas dois anos cuidando de uma criança me tornaram *rápida*. Meus dedos arranharam o vestido de seda dela enquanto arrancava Ana de seus braços.
— *p**a insolente!* — ela gritou, as unhas cravando no meu braço.
Um tiro ecoou.
*Sangue quente respingou no meu rosto.*
O capanga mais próximo caiu, um buraco entre os olhos.
*Mas quem atirou?*
Dante estava desarmado. Ricardo abaixava sua arma, confuso.
A resposta veio da janela.
*Clara.*
Minha melhor amiga - que eu *achava* ser apenas uma designer gráfica - estava no parapeito com um rifle de precisão.
— Ninguém move um músculo — ela ordenou, *voz de comandante*.
Dante olhou para mim, *impressionado*.
— *Você contratou uma mercenária para ser sua babá?*
— Eu... não sabia — admiti, apertando Ana contra o peito.
Clara saltou para dentro, mantendo todos na mira.
— Chamei reforços. Temos dois minutos até a SWAT chegar.
Dona Catarina *riuuu*, um som que fez Ana chorar mais alto.
— *Tão previsível.* Ela ligou para o *pai* de Dante.
*O sangue gelou nas minhas veias.*
Dante olhou para a mãe, *horrorizado*.
— *Ele está morto.*
— *Nunca esteve* — Dona Catarina ajustou seu colar, *sorrindo*. — E ele está *muito* ansioso para conhecer a neta.
O quarto ficou *silencioso* demais.
Até Clara baixou a arma alguns centímetros.
Dante parecia *nauseado*.
— Você mentiu... *sobre tudo.*
— Protegi você! — Dona Catarina avançou. — Ele queria *você* como herdeiro, não Ricardo! Queria te treinar desde criança, fazer de você um *monstro* como ele!
Ricardo pareceu *ferido*.
— E eu?
— Você era *perfeito* — ela acariciou seu rosto. — *Inocente.*
Dante soltou um riso *amargo*.
— Por isso você me drogou por dois anos.
*Tudo começou a fazer sentido.*
O coma. O testamento. *A obsessão por Ana.*
Ela não queria apenas uma herdeira...
*Queria uma substituta para Dante.*
— Vamos embora — gritei para Dante, segurando Ana.
Dona Catarina bloqueou a porta.
— *Você não vai levar minha neta para longe de mim!*
Clara recarregou a arma.
— Escolha suas próximas palavras com cuidado, *senhora Valente*.
Foi quando *Dante caiu de joelhos.*
Seus músculos *traíram* o esforço. Sua respiração vinha em gemidos roucos. Mas quando levantou o olhar para a mãe, havia *fogo* ali.
— Você vai nos deixar ir — ele ordenou, *voz de chefe da máfia*. — Ou eu conto ao *seu marido* sobre o filho que você *escondeu* dele.
*...O quê?*
Dona Catarina *empalideceu*.
Ricardo olhou entre eles.
— *Que filho?*
Dante sorriu, *sanguinário*.
— Aquele que ela teve com *seu motorista*. O que ela *te fez acreditar* que era seu meio-irmão.
*Meu Deus.*
O silêncio foi *cortante*.
Ricardo olhou para a mãe, *pedaços do passado se encaixando*.
— *Luisa?*
Dona Catarina *gritou* de raiva, avançando contra Dante.
— *EU TE CRIEI!*
— *E EU TE DESTRUO!* — ele rugiu de volta.
Foi quando os vidros *explodiram*.
*Gás lacrimogêneo.*
A SWAT invadindo.
*Confusão.*
Dante *rastejou* até mim no chão, protegendo Ana com seu corpo.
— *Saída traseira* — ele grunhiu no meu ouvido.
Mas quando viramos...
*Ele estava lá.*
*O homem que devia estar morto.*
*O verdadeiro d***o Valente.*
Ele era *Dante, mas não*.
Mais velho. Mais c***l. *Com os mesmos olhos âmbar.*
— *Filho* — cumprimentou, como se encontrassem no café da manhã.
Dante *tremeu* contra mim, *traumatizado*.
— *Você...*
— ...estive ocupado — o homem completou, olhando *Ana* com *interesse*. — Mas parece que você também.
Meu instinto *urrou* para protegê-la.
— *Não toque nela.*
Os olhos do homem piscaram para mim, *divertidos*.
— Ah, *a noiva abandonada*. Minha esposa contou *tudo* sobre você.
Dante tentou se levantar, *fracassando*.
— *Ela não é dela.*
— Tudo na *minha* família é meu — o homem corrigiu, *suave*. — Incluindo essa criança.
Ana *chorou*, escondendo o rosto no meu pescoço.
*E então...*
*Dante fez algo inesperado.*
Ele *sorriu*.
Lento. *Calculista.*
— Tudo bem, pai. Leve ela.
*...O QUÊ?*
O homem - *pai de Dante* - hesitou, *desconfiado*.
Dante se apoiou na parede para ficar de pé.
— Você está certo. *Tudo na família Valente é seu.* — Estendeu as mãos para Ana. — *Posso dizer adeus?*
Meu coração *parou*.
*Ele estava mentindo.*
*Ele tinha que estar.*
Mas quando peguei seus olhos, vi *o plano* lá.
*E entendi.*
Com *extrema* relutância, entreguei Ana a Dante.
Ele a segurou *como se soubesse* exatamente como fazer - *o que era impossível*.
— *Olha só pra você* — ele murmurou para ela, *tão baixo que só eu ouvi*. — *Tão corajosa. Como sua mãe.*
Ana parou de chorar. *E olhou para ele.*
*Reconhecendo.*
O coração do *pai de Dante* derreteu.
— Ela tem seus olhos — ele comentou, *ganancioso*.
Dante concordou, *fingindo* relutância.
— Ela tem *nossa* teimosia também.
E então...
*Ele jogou Ana no ar.*
*O mundo desacelerou.*
O grito do pai de Dante.
Meu pulo instintivo.
*Clara pegando Ana no ar* com um movimento fluido, *já esperando*.
E Dante...
*Dante sacando uma arma da cintura de Ricardo* e atirando *três vezes* no próprio pai.
*Ombro.*
*Joelho.*
*Mão direita.*
*Precisão cirúrgica.*
— *Ninguém* toca na minha filha — ele rosnou, *o verdadeiro Lobão Valente* finalmente acordado.
O caos que se seguiu foi *arte*.
Clara desapareceu com Ana pelos dutos de ventilação (quando *merda* ela aprendera aquilo?).
Os policiais levaram o *pai de Dante* - agora um *suspeito de sequestro* - sob custódia.
Dona Catarina *desmaiou* quando viu o marido sangrar.
E Dante...
*Dante desabou* nos meus braços, *sorrindo*.
— *Achei que você tinha me esquecido* — ele murmurou, febril.
Minhas lágrimas *molharam* seu rosto.
— *Idiota.* Como *poderia*?
Ele levantou uma mão trêmula para meu rosto.
— *Você ainda é minha.*
E então...
*Desmaiou.*