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1121 Words
O aniversário de morte dele. Dois anos desde que os tiros ecoaram naquela cabana. Dois anos desde que o sangue de Dante escorreu entre meus dedos enquanto eu gritava por ajuda que nunca veio. Eu olhei para o pequeno berço de cerejeira onde *ela* dormia, seus punhos cerrados contra o peito, exatamente como o *pai* fazia. *Ana Catarina.* Dante nunca soube dela. Nunca tocou nela. *Nunca a salvou do inferno que sua família criou.* Mas ela tinha *os olhos dele* – âmbar queimado, inteligentes demais para uma bebê de um ano. — Mamã… — Ana murmurou, sonolenta, esticando os bracinhos para mim. Meu coração apertou. *Ela até falava como ele.* --- ### **2** O apartamento em Lisboa cheirava a mar e mentiras. Mentiras que eu contava todos os dias: *"Sim, sou viúva."* *"Não, não quero falar sobre ele."* *"Ana? O nome é só uma homenagem a minha avó."* Ninguém precisava saber que o sobrenome no registro dela era *Valente*. — Isa, você vai ficar aí parada o dia todo? — Clara, minha única amiga que sabia a verdade, entrou com sacolas de compras. — A festa do consulado começa em uma hora. Ana agarrou meu colo, escondendo o rosto no meu pescoço. *Ela não gostava de barulho.* Como Dante. — Não vou. Clara suspirou. — Você não pode viver escondida para sempre. *Mas eu podia.* Por Ana. Até que o interfone tocou. — *Senhora Valente? Entrega registrada.* *Meu sangue virou gelo.* Ninguém me chamava por esse nome. *Ninguém que estivesse vivo.* --- ### **3** O pacote era pequeno. Preto. *Sem remetente.* Minhas mãos tremeram ao abrir. Dentro: - Uma foto de Dante *sorrindo*, algo que ele raramente fazia. - Um pingente de âmbar com uma gota de sangue preservada dentro. - Uma carta. *"Querida Isa,* *Se está lendo isso, eu falhei em voltar para você. Mas nossa filha está segura enquanto você nunca contar a verdade.* *Destrua esta carta depois. Eles estão te observando.* *Sempre seu, D."* *Nossa filha.* *Ele sabia.* O chão se moveu sob meus pés. — Isa? Você está bem? — Clara pegou a carta. — *O que é isso?* *TZZZT!* A luz do apartamento piscou. E então, *todas as câmeras de segurança do prédio explodiram.* --- ### **4** **Alguém estava me enviando uma mensagem.** *Eles sabiam sobre Ana.* Corri para o quarto, pegando a mala escondida sob a cama – passaportes falsos, dinheiro, uma arma. *O kit de emergência que Dante me ensinara a montar.* — Nós temos que ir. *Agora.* Clara empalideceu. — Foi *ela*, não foi? A mãe dele? *Dona Catarina Valente.* A mulher que atirou no próprio filho sem hesitar. — Pegue Ana. Vamos pelo elevador de serviço. Mas quando abri a porta, *ele* estava lá. Ricardo Valente. *Mais magro. Mais frio. Com uma cicatriz que não existia antes.* — Olá, Isa — ele sorriu, *amargo*. — *Pensei que você gostaria de saber que meu irmão está vivo.* --- ### **5** O apartamento ficou *silencioso*. Até Ana parou de balbuciar, como se sentisse o perigo. — Você está *mentindo* — eu engasguei. Ricardo jogou um pendrive na mesa. — Veja por si mesma. Minhas mãos *tremiam* ao conectar no laptop. *Imagens de segurança.* Um quarto branco. Máquinas. E *ele.* *Dante.* *Vivo.* *Em coma.* — Onde…? — Na propriedade da família — Ricardo interceptou minha mão quando tentei tocar na tela. — *Ela* o mantém lá. Como *seguro*. *Por quê?* Como se lesse meus pensamentos: — Porque se ele acordar… ele é o único que sabe onde está o *testamento do meu pai.* --- ### **6** — O que você quer? — eu exigi, afastando Ana do perigo. Ricardo olhou para minha filha, *fascinado.* — Ela é *idêntica a ele.* — *Não toque nela.* Ele riu, *sem humor.* — Relaxe. Eu não sou minha mãe. — Estendeu um cartão. — Preciso que você vá *lá*. Acordá-lo. — *Porque eu?* — Porque você é a única coisa que ele *respondeu* em dois anos. *…O quê?* Ricardo mostrou outro vídeo. *Dante, deitado, imóvel.* *Uma enfermeira ao fundo, sussurrando: "Isabela está em perigo."* *E então… seus dedos *se contraindo*.* Meu coração *parou.* --- ### **7** — Ele *sente* você — Ricardo insistiu. — A cada visita sua que minha mãe bloqueou, ele *regrediu.* *Visitas? Bloqueios?* — Você está mentindo! Ela disse que ele *morreu* naquela noite! — Minha mãe mente melhor do que respira. — Ele olhou para Ana. — Assim como você. O peso da verdade *esmagou* meu peito. Dante estava *vivo.* E eu tinha mantido *sua filha* longe dele. — Por que você está fazendo isso? — susurrei. Ricardo sorriu, *triste.* — Porque eu devo *isso* a ele. E então… *O vidro da janela estilhaçou.* --- ### **8** *Tiro.* Ricardo *me empurrou* para o chão, cobrindo Ana e eu com seu corpo. — *Ela encontrou vocês* — ele rosnou. *Dona Catarina.* Clara pegou Ana dos meus braços. — *Saída de serviço, AGORA!* Mas quando abrimos a porta… *Três homens de preto.* Armas. *Sorrisos.* — Senhora Valente — o primeiro cumprimentou. — *Sua sogra insiste na sua presença.* Ana *chorou*, esticando os braços para mim. E então… *Tudo ficou preto.* --- ### **9** Acordei em um quarto *frio.* *Não meu.* *Não seguro.* — Ana?! — me sentei tão rápido que a cabeça girou. — *Ela está segura* — uma voz *familar* respondeu. *Dona Catarina Valente* entrou, vestida como para um funeral, *sua* filha nos braços. — *Tire as mãos dela* — eu rosnava, *animal.* Ela sorriu. — Que coisa curiosa… *parece até minha.* *Não.* *NÃO.* Eu avancei, mas correntes *me puxaram* para trás. *Eu estava amarrada.* — *Seu monstro!* — Monstro? — Ela riu. — *Eu salvei essa criança.* Se dependesse de você, ela viveria *escondida.* Ana chorou, esticando os braços para mim. *Dona Catarina não soltou.* — Você quer ela de volta? — Ela inclinou a cabeça. — *Então acorde meu filho.* --- ### **10** Ela me levou até *ele.* *Dante.* *Deitado. Pálido. Conectado a máquinas.* *Vivo.* Meu coração *doeu.* — Ele não responde a estímulos — Dona Catarina disse, *fria.* — Mas *você*… você é diferente. Ana chorou em seus braços. — *Por favor* — eu implorei. *Pela primeira vez na vida.* Dona Catarina sorriu. — Beije-o. *Como se você o amasse.* *Eu o odiava.* *Eu o amava.* *Eu o mataria.* *Eu o salvaria.* E então… *Eu o beijei.* --- ### **11** Nada. *Nada.* Dona Catarina *suspirou.* — Uma pena. E então… *Ana chorou mais alto.* E *ele*… *Ele moveu os dedos.* --- ### **12** *Caos.* Médicos. Gritos. *Dona Catarina puxando Ana para longe de mim.* — *NÃO!* Mas então… *Uma mão* agarrou meu pulso. *Quente.* *Forte.* *Familiar.* E *seus olhos*… *Âmbar.* *Conscientes.* *Furiosos.* — *Isa* — Dante sussurrou, *quebrado.* — *Onde está minha filha?*
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