O aniversário de morte dele.
Dois anos desde que os tiros ecoaram naquela cabana. Dois anos desde que o sangue de Dante escorreu entre meus dedos enquanto eu gritava por ajuda que nunca veio.
Eu olhei para o pequeno berço de cerejeira onde *ela* dormia, seus punhos cerrados contra o peito, exatamente como o *pai* fazia.
*Ana Catarina.*
Dante nunca soube dela. Nunca tocou nela. *Nunca a salvou do inferno que sua família criou.*
Mas ela tinha *os olhos dele* – âmbar queimado, inteligentes demais para uma bebê de um ano.
— Mamã… — Ana murmurou, sonolenta, esticando os bracinhos para mim.
Meu coração apertou. *Ela até falava como ele.*
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O apartamento em Lisboa cheirava a mar e mentiras.
Mentiras que eu contava todos os dias:
*"Sim, sou viúva."*
*"Não, não quero falar sobre ele."*
*"Ana? O nome é só uma homenagem a minha avó."*
Ninguém precisava saber que o sobrenome no registro dela era *Valente*.
— Isa, você vai ficar aí parada o dia todo? — Clara, minha única amiga que sabia a verdade, entrou com sacolas de compras. — A festa do consulado começa em uma hora.
Ana agarrou meu colo, escondendo o rosto no meu pescoço. *Ela não gostava de barulho.* Como Dante.
— Não vou.
Clara suspirou.
— Você não pode viver escondida para sempre.
*Mas eu podia.* Por Ana.
Até que o interfone tocou.
— *Senhora Valente? Entrega registrada.*
*Meu sangue virou gelo.*
Ninguém me chamava por esse nome. *Ninguém que estivesse vivo.*
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O pacote era pequeno. Preto. *Sem remetente.*
Minhas mãos tremeram ao abrir.
Dentro:
- Uma foto de Dante *sorrindo*, algo que ele raramente fazia.
- Um pingente de âmbar com uma gota de sangue preservada dentro.
- Uma carta.
*"Querida Isa,*
*Se está lendo isso, eu falhei em voltar para você. Mas nossa filha está segura enquanto você nunca contar a verdade.*
*Destrua esta carta depois. Eles estão te observando.*
*Sempre seu,
D."*
*Nossa filha.*
*Ele sabia.*
O chão se moveu sob meus pés.
— Isa? Você está bem? — Clara pegou a carta. — *O que é isso?*
*TZZZT!*
A luz do apartamento piscou.
E então, *todas as câmeras de segurança do prédio explodiram.*
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**Alguém estava me enviando uma mensagem.**
*Eles sabiam sobre Ana.*
Corri para o quarto, pegando a mala escondida sob a cama – passaportes falsos, dinheiro, uma arma. *O kit de emergência que Dante me ensinara a montar.*
— Nós temos que ir. *Agora.*
Clara empalideceu.
— Foi *ela*, não foi? A mãe dele?
*Dona Catarina Valente.* A mulher que atirou no próprio filho sem hesitar.
— Pegue Ana. Vamos pelo elevador de serviço.
Mas quando abri a porta, *ele* estava lá.
Ricardo Valente.
*Mais magro. Mais frio. Com uma cicatriz que não existia antes.*
— Olá, Isa — ele sorriu, *amargo*. — *Pensei que você gostaria de saber que meu irmão está vivo.*
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O apartamento ficou *silencioso*.
Até Ana parou de balbuciar, como se sentisse o perigo.
— Você está *mentindo* — eu engasguei.
Ricardo jogou um pendrive na mesa.
— Veja por si mesma.
Minhas mãos *tremiam* ao conectar no laptop.
*Imagens de segurança.*
Um quarto branco.
Máquinas.
E *ele.*
*Dante.*
*Vivo.*
*Em coma.*
— Onde…?
— Na propriedade da família — Ricardo interceptou minha mão quando tentei tocar na tela. — *Ela* o mantém lá. Como *seguro*.
*Por quê?*
Como se lesse meus pensamentos:
— Porque se ele acordar… ele é o único que sabe onde está o *testamento do meu pai.*
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— O que você quer? — eu exigi, afastando Ana do perigo.
Ricardo olhou para minha filha, *fascinado.*
— Ela é *idêntica a ele.*
— *Não toque nela.*
Ele riu, *sem humor.*
— Relaxe. Eu não sou minha mãe. — Estendeu um cartão. — Preciso que você vá *lá*. Acordá-lo.
— *Porque eu?*
— Porque você é a única coisa que ele *respondeu* em dois anos.
*…O quê?*
Ricardo mostrou outro vídeo.
*Dante, deitado, imóvel.*
*Uma enfermeira ao fundo, sussurrando: "Isabela está em perigo."*
*E então… seus dedos *se contraindo*.*
Meu coração *parou.*
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— Ele *sente* você — Ricardo insistiu. — A cada visita sua que minha mãe bloqueou, ele *regrediu.*
*Visitas? Bloqueios?*
— Você está mentindo! Ela disse que ele *morreu* naquela noite!
— Minha mãe mente melhor do que respira. — Ele olhou para Ana. — Assim como você.
O peso da verdade *esmagou* meu peito.
Dante estava *vivo.*
E eu tinha mantido *sua filha* longe dele.
— Por que você está fazendo isso? — susurrei.
Ricardo sorriu, *triste.*
— Porque eu devo *isso* a ele.
E então…
*O vidro da janela estilhaçou.*
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*Tiro.*
Ricardo *me empurrou* para o chão, cobrindo Ana e eu com seu corpo.
— *Ela encontrou vocês* — ele rosnou.
*Dona Catarina.*
Clara pegou Ana dos meus braços.
— *Saída de serviço, AGORA!*
Mas quando abrimos a porta…
*Três homens de preto.*
Armas.
*Sorrisos.*
— Senhora Valente — o primeiro cumprimentou. — *Sua sogra insiste na sua presença.*
Ana *chorou*, esticando os braços para mim.
E então…
*Tudo ficou preto.*
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Acordei em um quarto *frio.*
*Não meu.*
*Não seguro.*
— Ana?! — me sentei tão rápido que a cabeça girou.
— *Ela está segura* — uma voz *familar* respondeu.
*Dona Catarina Valente* entrou, vestida como para um funeral, *sua* filha nos braços.
— *Tire as mãos dela* — eu rosnava, *animal.*
Ela sorriu.
— Que coisa curiosa… *parece até minha.*
*Não.*
*NÃO.*
Eu avancei, mas correntes *me puxaram* para trás. *Eu estava amarrada.*
— *Seu monstro!*
— Monstro? — Ela riu. — *Eu salvei essa criança.* Se dependesse de você, ela viveria *escondida.*
Ana chorou, esticando os braços para mim.
*Dona Catarina não soltou.*
— Você quer ela de volta? — Ela inclinou a cabeça. — *Então acorde meu filho.*
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Ela me levou até *ele.*
*Dante.*
*Deitado. Pálido. Conectado a máquinas.*
*Vivo.*
Meu coração *doeu.*
— Ele não responde a estímulos — Dona Catarina disse, *fria.* — Mas *você*… você é diferente.
Ana chorou em seus braços.
— *Por favor* — eu implorei. *Pela primeira vez na vida.*
Dona Catarina sorriu.
— Beije-o. *Como se você o amasse.*
*Eu o odiava.*
*Eu o amava.*
*Eu o mataria.*
*Eu o salvaria.*
E então…
*Eu o beijei.*
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Nada.
*Nada.*
Dona Catarina *suspirou.*
— Uma pena.
E então…
*Ana chorou mais alto.*
E *ele*…
*Ele moveu os dedos.*
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### **12**
*Caos.*
Médicos. Gritos. *Dona Catarina puxando Ana para longe de mim.*
— *NÃO!*
Mas então…
*Uma mão* agarrou meu pulso.
*Quente.*
*Forte.*
*Familiar.*
E *seus olhos*…
*Âmbar.*
*Conscientes.*
*Furiosos.*
— *Isa* — Dante sussurrou, *quebrado.* — *Onde está minha filha?*