11

2094 Words
Praticamente a cidade inteira estava sem luz. E como a lua não era cheia, e nuvens pesadas cobriam o céu — não deixando uma mísera estrela para eu admirar — era meio que impossível reconhecer qualquer pessoa por ali. Exceto, claro, a que me tirou de lá, e que agora dividia o espaço da calçada comigo. — Como você conseguiu? —Perguntei, quebrando o silêncio entre nós. — Digo, chegar bem na hora que tudo se apagou...? — Na verdade — Lucas respondeu, sério —, eu estava indo me desculpar. Não soube o que responder, então dei de ombros e abracei meu corpo, para me proteger do frio. — Você tinha razão, Larah —ele continuou, a voz carregada de arrependimento—, eu não sei nada sobre o seu relacionamento, não tinha o direito de... — Tá tudo bem, Lucas — interrompi, evitando olhar para ele. — Mesmo? — Ele perguntou, cético. Assenti. — Toda história sempre tem dois lados — falei — e você só ouviu o meu. Se tivesse ouvido apenas a versão do Ricardo, talvez desse razão pra ele. — É — ele disse, também evitando me olhar —, talvez. E novamente o silêncio. Fiquei balançando a perna, ansiosa, desejando que Linda viesse logo me buscar. “Chego aí em meia hora, Larinha”— ela dissera na mensagem, mas eu sabia que não seria assim, tão rápido. Seu carro vivia lhe deixando na mão, então era bem provável que ele emperrasse uma ou cinco vezes durante o caminho, o que me custava passar mais tempo ao lado do Lucas. Mas lá no fundo, eu não queria ir. Mesmo com essa tensão entre nós, era bom tê-lo por perto. — Desculpe perguntar — Lucas falou —, mas você ainda não encontrou seu namorado e... — E nem vou — eu o interrompi—, depois desse apagão aí é bem provável que Ricardo já tenha ido. — Tentou ligar para ele? — Quinze vezes — respondi. — Caixa Postal. — Meu carro não está tão longe, Larah — ele disse —, se quiser posso te dar uma carona. —Valeu, Lucas — agradeci —, mas já passei mensagem pra minha amiga e ela tá vindo me buscar. — Então vamos esperá-la — ele falou, encostando o corpo contra a parede acimentada. — Olha, não precisa ficar aqui — falei—, sabe, deve ter outras garotas desacompanhadas pra você salvar. — Pelo amor de Deus, Larah — ele bufou —, eu não estou te cantando. — Eu não tenho culpa se todo esse cuidado me faz duvidar — resmunguei, imitando sua postura. — Que tipo de homem você acha que eu sou? — Ele perguntou, ofendido. — Do tipo que não pode ver um r**o de saia...? — Arrisquei. — Também — ele respondeu, naquele seu tom de diversão —, mas eu jamais deixaria uma mulher sozinha numa situação como essa, Larah. Pode não parecer, mas eu tenho princípios. Olhei para ele, e tudo o que vi foi sinceridade em seus olhos. Princípios, Lucas era um homem de princípios. Ah, não. — Eu posso ir embora se quiser. — ele sugeriu depois de um tempo. — Pode ficar — disse eu —, só não se meta a b***a comigo. Lucas riu, e suas covinhas novamente deram as caras. — Não se preocupe — ele falou, desviando o olhar para o chão — você não faz meu tipo, mocinha. — Nem você o meu — rebati. — Então estamos quites. — Pode apostar que sim — retruquei de nariz empinado. Lucas abriu a boca para falar algo, mas foi interrompido pelo barulho de seu celular tocando. Ele então tirou um pequeno aparelho do bolso e, ao olhar para a tela minúscula, revirou os olhos. — Operadora — explicou, apertando no botão de desligar. Olhei para o celular em sua mão e acabei caindo na risada. — Meu Deus, Lucas, isso é um — tapei a boca para abafar o riso — é um... — Nokia — ele respondeu, com um meio sorriso no rosto —, mais conhecido como tijolão. — Hahaha, de que século você veio? — mais risos —, eu tive um desse há quase uma década! — A carga dura semanas e pega sinal em qualquer lugar do mundo — ele objetou, fingindo indignação. —Não tem Android, não recebe fotos nem conecta ao Wi-fi — contrapus —, vamos lá, Lucas, um Smarthphone não é tão caro assim. — Eu tenho um — ele falou —, só não funciona . —Display...? — Quis saber, ele fez que não com a cabeça. —Pisoteado por um par de saltos vermelhos — e rolou os olhos de uma forma teatral. — Meu Deus — eu ri —, você deve ter pisado f**o na bola. — Aquele carro parece estar com problemas — Lucas desconversou. Olhei para onde ele apontava e reconheci o Uno Mille que, roncando o motor, se arrastava em nossa direção. — É o Tufão — respondi, —, minha carona. — Então — Lucas começou, a mão estendida para mim —, foi um prazer, Larah. —É, até que não foi tão r**m — falei, correspondendo ao gesto —, quer dizer, você me pagou uma bebida. Ele sorriu, e ali estavam elas novamente. — Hã... eu — balancei o corpo de forma patética —, acho que é melhor eu ir. — É — ele falou, as duas turquesas presas em mim. Dei as costas, — o coração batendo rápido; a respiração desordenada — e caminhei para perto do Tufão, que estrilava de buzinas. Então detive os passos. — Lucas — falei, virando-me para trás —, obrigada por ter me tirado de lá. — Não foi nada — ele respondeu, baixinho. — E... hã... eu não devia ter dado aquele chilique. Hormônios. — Qual é, eu mereço um pedido de desculpas melhor.— Lucas provocou, aproximando-se de mim. — Eu não tô me desculpando — Retruquei, o canto da boca teimava em subir. Ele riu, e em seguida, com certa habilidade, abriu a porta do carro para mim. — Então está em débito comigo, mocinha — falou, mostrando suas covinhas. Aquele comichão de borboletas invadiu meu estômago outra vez. — Rá, rá! — Foi tudo o que saiu da minha boca. Entrei no carro depressa, me acomodei no banco do passageiro e fechei a porta num movimento brusco. Só então, deixei escapar um suspiro. — Que deus era aquele? — Linda quis saber, assim que ligou o carro. — Um... cara que... derrubou bebida no meu vestido, acredita? — Me fiz de ofendida. — Que azar! — Nossa, que azar! —Ela provocou, mas eu não dei corda. Não queria falar dele e ter de explicar sensações que até mesmo eu desconhecia. Linda percebeu, pois logo mudou de assunto: — Então, o que rolou por aqui? Por que tá tudo escuro? — Acho que foi um blecaute — respondi, tateando o pingente com a mão. — Estão tendo alguns ultimamente. — Ah, é — ela concordou, ligando o som do carro —, semana passada deu um em meu bairro. Fez-se um curto silêncio até eu lembrar de algo: — Ei, como foi o encontro com o Guga? — Não foi, né Larinha?— Linda respondeu.— Ele me ligou ainda a pouco avisando que o restaurante tá lotado. E ainda teve a cara de p*u de pedir a minha ajuda lá na cozinha. — O Guga não toma jeito — resmunguei. Porque, por mais que as coisas estivessem difíceis entre nós, eu não queria vê-la sofrendo. — Eu sei — ela respondeu, fingindo não se importar —, e eu tô preparada para chegar lá e bancar a terapeuta do Gustavo, não acredito que seu irmão me convidou para... qualquer tipo de coisa romântica. — Se for isso — disse eu —, pelo menos você desencana de vez. Ah, Linda! você não vai acreditar quem eu vi... E então comecei a tagarelar, empolgada. Falei do Brad, do quanto ele estava lindo e de como parecia um cara bacana. Linda se esforçou para mostrar animação, mas eu sabia que seu coração batia por um certo rapaz tatuado. Sendo assim, a conversa acabou morrendo, então encostei a cabeça contra a janela e, movendo o pingente de um lado para o outro, pensei em Ricardo. — Você acha que as pessoas mudam? — perguntei depois de algum tempo. — Ai, Larinha, que tipo de psicóloga seria eu se não acreditasse nisso? — Linda respondeu, cheia de certeza. — Sim, as pessoas mudam. Suspirei, aliviada. Ela examinou meu rosto por alguns segundos e, sendo a estraga-prazeres que havia se tornado recentemente, enfatizou: — Quando é possível, Larinha. Mas eu não me importei. Havia uma chance, por menor que fosse ela, de o meu noivo mudar. E ele mudaria. Eu me virava de um lado para o outro, sem sono. Por mais que eu tentasse dormir, muitas coisas giravam em minha cabeça e acabavam tirando minha concentração. Bufei e, desistindo da luta, me sentei na cama, apoiando as costas contra a cabeceira, quando dei por mim já estava com o diário e a caneta em mãos... “11 de Março de 2014 Ei, mamãe! Eu sei que te escrevi há dois dias, mas parece que já faz meses. Tenho um monte de coisas pra contar, então senta que vem história. Vou ter um irmão! Isso aí, Madá está grávida. Descobrimos depois que ela desmaiou — e quase nos matou de susto —, papai está babando. Acho que a senhora sabe do que tô falando, tenho certeza que ele ficou assim quando eu e o Guga estávamos a caminho. E por falar no Gustavo; solteiro de novo! Isso aí, dona Eloá, seu filho não sossega. E o pior é que agora ele não para de arrastar asa pra Linda, eu amo meu irmão, mas sei como ele é mulherengo e tenho medo que minha amiga saia machucada. “Amiga...” Linda me esconde algo, mamãe! Tio Fernando deixou escapar que ela e Ricardo almoçaram juntos outro dia, mas ela nunca tocou nesse assunto comigo. Sem falar que ando recebendo mensagens anônimas insinuando que ela e meu noivo... Ah, mamãe, eu não consigo imaginar isso! Linda sempre foi meu braço direito, meu porto-seguro, a primeira pessoa que eu chamaria caso cometesse um crime... não suportaria ser traída por ela. E tem o Ricardo, que vive me ganhando e me perdendo á todo instante, e seus pais, que me detestam. O casamento continua de pé, faltam dois dias para eu dizer o tão sonhado sim e ter a lua-de-mel dos meus sonhos. Mas não é isso que tá tirando meu sono e sim... (tá legal, isso aqui fica só entre nós.) Hoje, na boate, o Ricardo acabou me deixando sozinha e eu, bem furiosa, fui curtir a balada sem ele. Mas aí me esbarrei com o Lucas, o homem mais lindo que cruzou meu caminho. De início eu pensei que ele fosse daqueles que passaram tempo demais na fila da beleza e esqueceu de buscar o cérebro, mas não... Ele é divertido, e, de uma forma muito estranha, sua companhia me fez bem. E toda vez que ele exibia suas covinhas eu sentia vontade de beijá-lo. Ele não é só mais um rostinho bonito, mamãe, e tem aquelas duas turquesas, que me olhavam como se pudesse ver minha alma. Viu só? Sua filha está lendo muitos romances e agora acha que sente coisas que não sente. Eu tô noiva, mamãe, eu não posso ficar pensando num cara desse jeito, mesmo ele tendo dentes bonitos e cara de quem tem uma boa pegada. Pronto, está dito, Lucas é o responsável pela minha insônia, e eu nunca mais o verei de novo. Por um lado eu tô aliviada, mas por outro... por outro, eu gostaria muito de passar mais tempo ao lado dele, e de descobrir como é o sabor daqueles lábios. Eu preciso ir, mamãe, amanhã será a última prova do bolo... Nos vemos no meu grande dia, porque eu sei que, onde quer que esteja, a senhora está olhando por mim, e isso me dá uma força danada pra seguir em frente... Escreverei em breve, prometo. Ainda não consigo te dizer adeus. Te amo, sempre vou te amar! Torça por mim! Larah.” Escorreguei o corpo para dentro da coberta, ainda chorosa, abraçada ao meu diário de maneira protetora. E, sem perceber, acabei pegando no sono.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD