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4151 Words
Dois dias antes do casamento... — Peraí, o Guga se declarou pra você — Perguntei, atônita. — Com direito à velas e corações, Larinha — Linda respondeu, apreensiva, enquanto remexia o cubo de açúcar dentro da xícara de café —, dá pra acreditar? Não, não dava. Meu irmão não fazia o tipo romântico, e trocava de namorada com a mesma frequência que papai e Madá iniciavam uma aposta, também não chorava pelos cantos depois de um fim de relacionamento, pelo contrário, Guga depilava a barba, tomava um banho demorado e caía na farra com os amigos. Em sua defesa, ele também não saía por aí jurando amor a alguém, porque, apesar de todos os defeitos, Gustavo nunca, nunca, mentia. — Isso é uma grande surpresa — constatei —, e das boas! — Muito — disse ela, irônica, sorvendo a bebida —, foi tipo esperar uma caixa de chocolate e vir uma bomba atômica no lugar. Realmente, muito bom! — Eu pensei que fosse o contrário.— falei, bebericando meu champanhe — Quer dizer, foi uma declaração de amor, vinda do Gustavo. Tem noção do que é isso? Linda não respondeu, ao invés disso deu uma dentada em seu bem-casado e se concentrou em seu bom e adocicado café. Estávamos na confeitaria da cidade, resolvendo os últimos ajustes do bolo, que seria de três andares, todo branco, e divinamente recheado de limão e chocolate. Foi indicação de Ricardo, o estabelecimento, por isso todo o requinte; paredes enormes e em tons de pastel, portas de vidro, mesas amadeiradas e enfeitadas por toalhas brancas sobrepostas de vermelhas. Depois da última prova do bolo, ocupamos uma das mesas e aproveitamos as cortesias da casa. Então Linda desatou a contar tudo o que havia rolado noite passada, depois de ela ter me deixado em casa. Como prometido, minha amiga seguiu para o restaurante do Guga, para ajudá-lo com sua clientela e tal. Entretanto, não havia ninguém por ali, exceto flores e velas em todo ambiente, três senhores bem vestidos tocando violino e Gustavo, com um ramalhete de flores na mão, declarando seus sentimentos por ela. Olhei para Linda e soube, pela forma como comprimia os lábios, que ela estava em pânico. — Eu estou em pânico — confessou, em meio um sorriso nervoso, encarando o líquido fumegante. — Ei — eu a confortei, segurando sua mão —, tá tudo bem. Linda apertou bem minha mão, depois fez um afago, e então eu vi, ainda que por pouquíssimo tempo, aquela faísca de culpa cruzar seus olhos escuros. — A conta, senhorita — uma das funcionárias anunciou ao meu lado, quebrando o clima silencioso entre nós. Soltei a mão dela e abri a bolsa, para pegar o cartão de crédito que Ricardo me dera, espiei a senha anotada no papel e comecei a digitá-la. — É uma fortuna! — Linda exclamou, observando a nota de compra. — O senhor Albuquerque não poupou gastos — a moça ao meu lado comentou, orgulhosa. — Vai ser o casamento do ano! Abri um sorriso para ela, que saiu segundos depois, e observei Linda, ainda embasbacada com tantos números. Era compreensível; o valor era mesmo exorbitante. Desde que pediu minha mão, Ricardo não medira esforços para me dar o casamento dos sonhos. Eu deveria achar errado, aconselhá-lo a ir com cautela e tal, mas a verdade é que eu fiquei bem feliz por isso. Coloquei o cartão de volta à bolsa entreaberta e, ainda abobada, avistei entre meus pertences um papel branco, todo amassado. Automaticamente, segurei minha correntinha. — O que você fez, Linda? — perguntei, tentando afastar toda aquela nostalgia que me abateu de repente — Digo, depois da declaração...? — Ah, Larinha — ela baixou os olhos, envergonhada —, eu fui embora. — Você foi...? — pisquei. — Tipo, como eu fiz quando o Edu se declarou pra mim...? — Uhum — ela respondeu na maior naturalidade. Fiquei olhando para ela, perplexa. Linda era louca pelo Gustavo tanto quanto era pelo Harry Potter, ela não podia fugir de uma tão sonhada declaração de amor e agir como se tivesse, sei lá, salvado alguém de um atentado terrorista. Mas era assim que ela agia. Tranquilamente, minha amiga mordiscou um brigadeiro, engoliu seu café, e depois me olhou, com aquela cara de quem sabe das coisas. — Foi a coisa certa, Larinha. — Ela garantiu, cheia de si. — Fugir do cara que você ama...? — Questionei. — Proteger meu coração — ela rebateu, de pronto. — Ele é precioso demais para ser partido em mil pedaços. Rolei os olhos, era a cara dela usar a psicologia quando a questão era defender o fracasso de sua vida amorosa. No fundo eu a entendia. Seu pai biológico abandonou a família quando Linda não tinha nem seis anos, e como consequência destruiu, precocemente, todas as ilusões românticas da filha. Mas ainda assim, o que seria do mundo sem o amor? Não é ele o tão grande e poderoso sentimento que é capaz de mover montanhas e colorir as lacunas cinzas dentro de nós? É claro que é! E eu não queria, por mais que Ricardo tivesse me magoado tanto, viver uma vida sem amar alguém, sem ao menos ter a chance de falar para alguém... Ah, Linda. — Você ainda não consegue dizer as três palavrinhas mágicas — não foi uma pergunta. — Não — ela soltou, num muxoxo. — Nem para o seu pai...?— insisti — Seus avós, sua mãe...? — Não, Larinha — Linda se remexeu na cadeira, incomodada — eu não consigo. — Você pelo menos tentou? — Quis saber. — Uhum — ela engoliu outro brigadeiro —, diversas vezes em frente ao espelho, não consigo passar nem da primeira palavra. — As pessoas precisam saber que são amadas — eu falei —, é uma informação valiosa. Ela então me olhou, séria, e deu lugar à psicóloga formada e sabichona: — Talvez, você esteja gastando essa informação com as pessoas erradas. — Linda — bufei —, eu amo mesmo o meu noivo. —Ama? — Ela questionou — Ou será que você gosta da ideia de amar o senhor-partido-perfeito? — Jura que estamos tendo essa conversa outra vez? — Não — ela falou, checando as horas em seu relógio de pulso —, não vou mais atormentar você. Tenho compromisso. — Algo que envolve meu irmão e uma noitada de amor?— Eu provoquei. — Não — ela respondeu, rindo, e sapecou um beijo no topo da minha cabeça —, algo que envolve minha cliente e suas bolsas baratas e bonitas. — Ah, eu tô mesmo precisando de uma bols... — Tchau, Larinha — ela me cortou, afastando-se depressa. — Mande notí... — ela saiu antes mesmo de eu fechar a boca. —...cias. Tentei entender o que havia sido aquilo, mas desisti e resolvi abrir minha bolsa novamente, para checar se eu teria grana para o táxi. Tá legal, o motivo era outro. Vencida pela luta interna, acabei pegando o papelzinho branco, e me demorei ali, lendo e relendo minha lista de desejos. Dançar na chuva. Cair na noitada e tomar um porre daqueles. Ter um o*****o (nunca tive um, nunquinha). Fazer uma tatuagem. Nadar pelada. Ir a um jantar romântico. Ela foi feita em meu quarto, numa noite de chuva, assim que Ricardo me pediu um tempo. Na época me pareceu legal a ideia de realizar coisas que eu sempre quis fazer, mas que nunca havia feito — fosse por medo; vergonha; ou o vai-e-vem do meu relacionamento. Não há muito que contar sobre isso, logo eu e meu noivo reatamos e a listinha fora deixada de lado, como tantas outras coisas na minha vida. “Eu não preciso mais dela” — pensei. Em dois dias eu realizarei o maior de todos meus desejos, e ele me bastava, sempre me bastou. Enfiei o papel de volta à bolsa, onde ele ficaria esquecido entre meus batons; um livro, e a arma falsa que peguei de Daniel. “Precisamos conversar, estou te esperando na cafeteria da esquina, bj.” — Larah— Madá chamou ao meu lado —, é a sua vez de jogar. Olhei para os Reis e Valetes em minhas mãos e tentei formar uma linha de raciocínio, contudo eu já estava inquieta, perdida na mensagem curta e seca que Ricardo me enviara. — Foi m*l, gente — abandonei as cartas e me levantei —, preciso resolver algumas coisas. — Volta para dormir? — Papai indagou, preocupado. —Não — respondi ao mesmo tempo que apanhava as chaves em cima da mesa —, marquei com Linda e Bela de passar a noite no meu apartamento. — Juízo — papai me alertou. — Não ouça seu pai — Madá me aconselhou —, você já vai ter muito juízo depois de casada, tire o dia para chutar o vaso. — O balde, Madá — corrigi, rindo; e estalei um beijo em sua bochecha, fiz o mesmo na careca do papai.— Amo vocês. Viu, Linda? Informação valiosa! Depois saí, apreensiva, com as palavras de Ricardo rodopiando em minha cabeça. Da última vez que ele me chamou para conversar foi para pedir um tempo porque se sentia confuso. Confuso uma pinóia! Nesse período ele passou foi o rodo na cidade inteira, e, como se não bastasse, assumiu um namoro rápido e intenso com a sonsa da Megali. Meg. Ela era o motivo dessa conversa. Ricardo terminaria comigo, como da outra vez, e voltaria para a ex-namorada. Avistei a cafeteria, quase no fim da rua, e meu coração começou a bater ensandecido, o estômago embrulhou e as pernas vacilaram. Ele romperia tudo. Bem às vésperas do casamento. Fim. Abri a porta do estabelecimento numa ansiedade incontrolável e corri o olhar pelas mesas. Ricardo ocupava uma das últimas, lá no canto, e, pensativo, observava a paisagem afora através da vidraça. Me aprumei e fui até ele, eu precisava ser forte — e encontrar a doutora Ivone o mais depressa possível. — Oi — falei arrastando a cadeira para sentar à sua frente —, tá tudo bem? Ele virou o rosto para mim e um nó se fez em minha garganta. Seus olhos verdes estavam tristes e sua expressão, cansada. — Larah — começou, o olhar sincero —, minha família está me pressionando. Você sabe, eles são contra nosso relacionamento, desde aquele incidente com o jarro meus pais acham que você é uma desequilibrada. Na verdade, sua mãe acha que sou p********a também. — Por isso te pedi para evitar escândalos — ele continuou, e esfregou as têmporas, impaciente —, só te pedi isso. — Mas o que foi que eu fiz dessa vez?— Perguntei, desentendida. — Isso — ele disse estendendo-me três fotografias —, você fez isso, Larah. Peguei as fotos e analisei uma por uma. Na primeira estava eu e a moça do trânsito entrelaçadas, na segunda papai me segurava pela cintura e o rapaz que saíra de um carro atrás do nosso tentava conter a desconhecida, na última, e não menos importante, eu e papai voltávamos para o carro, em um clima nada amistoso. E em nenhuma delas o fotógrafo captou meu ângulo certo. — Ela quem começou — acusei —, e, na boa Ricardo, todo mundo briga, não sei pra quê tanto drama. — Drama?! — Ele inquiriu perplexo — A minha noiva, a mesma que quebrou um jarro na minha cabeça, foi flagrada aos tapas com uma subcelebridade e você me diz que é drama? — Ela é subcelebridade, é? — Perguntei, com uma pontadinha de inveja. — Sim — ele revirou os olhos —, é modelo, está vendendo um rim para poder se aparecer. Não anda na sua melhor fase. — Então... acha que ela fez esse auê todo pra chamar atenção? — Não duvido — ele disse —, apesar de ela parecer muito furiosa. — Como você conseguiu — comecei, embora eu já soubesse a resposta — err... essas fotos? — Um paparazi me enviou — explicou ele —, tive que desembolsar uma grana para que ele não vendesse à uma revista de fofoca. Pelo amor de Deus, Larah, eu quero mesmo que isso tudo dê certo, então, não complica. A ansiedade dentro de mim evaporou-se em questão de segundos, meu coração voltou a bater mais tranquilo e um sorriso involuntário cresceu em meu rosto. Eu sei que deveria me preocupar com outras coisas, porém, diante de tantos problemas, eu só conseguia pensar em algo: Ele ainda queria casar comigo. Mesmo com toda essa pressão dos pais, de sua noiva sempre metida em confusão e da ex apaixonada, Ricardo ainda queria que nós déssemos certo. — Prometo que não vai acontecer de novo — assegurei —, podemos fazer nossos pedidos? Eu adoro o cappucino que eles servem aqui. Ele sorriu e, com a expressão mais relaxada, tirou minha aliança do bolso e recolocou-a em meu dedo. — Você deixou cair lá no camarote — explicara quando percebeu a confusão em meu rosto —, Beto encontrou e me devolveu. — Obrigada — eu disse, derretida. Ricardo me encarou, os olhos verdes cintilaram de afeto, e ele estava sendo sincero ao confessar: — Você não faz ideia das coisas que estou abrindo mão — suspirou, como se aquilo o torturasse, depois sorriu, aliviado: — Mas vale a pena, Larah. Por você, tudo isso vale a pena. E foi aí que a tensão entre nós desapareceu por completo. Depois do cappucino, caminhamos de mãos dadas pela pracinha do meu bairro, e conversamos trivialidades, como costumávamos fazer antes do nosso relacionamento se tornar um completo caos. Tomamos sorvete, relembramos momentos, compartilhamos piadas, e rimos, de um jeito que não fazíamos há anos, esse curto período em que passamos juntos, sem brigas ou impasses, foi o suficiente para restaurar a fé que depositei na gente. Tudo estava tão bom que somente quando o alarme do celular apitou, lá pelas sete da noite, foi que eu lembrei que tinha compromisso. Minha despedida de solteira. O táxi me deixou em frente de casa por volta das onze da manhã. Ao descer, avistei Bela, enfiada num de seus vestidos longos e de estampas bonitas, travando uma luta contra o portão esverdeado. — Ei — chamei, aproximando-me —, se planeja assaltar minha casa saiba que esse portão não é dos melhores para se arrombar. — Flor — ela me olhou e sorriu, aliviada —, até que enfim! Quase fico rouca de tanto gritar. — Papai e Madá estão na caminhada matinal — expliquei e apanhei minhas chaves no bolso traseiro da calça. — Me conta, qual milagre aconteceu para você vir me ver? — Tem razão — ela se desculpara — vivo enfurnada naquele quiosque que m*l tenho tempo para minhas amigas. Senti uma pontada de culpa. O Guatemala era o único meio de garantir seu sustento e o de Demitri, eu não podia julgá-la por se dedicar tanto ao trabalho. — Tá tudo bem, Belinha — falei, dando-lhe passagem para entrar —, você é uma mulher de negócios. — Encrencada até a medula — resmungou, cansada —, as vendas no quiosque despencaram por conta da concorrência, se ao menos eu tivesse uma carta na manga, sabe? Sei lá, uma novidade para atrair a clientela ou algo assim. — Por que não contrata algum cantor? — Sugeri, abrindo a porta de casa — Sabe, show ao vivo, essas coisas. — É uma ótima ideia! — Ela exclamou atrás de mim. — Mas não vim aqui pra falar de negócios. Na verdade, tô afim de esquecer os problemas hoje. Encarei Bela, que jogara o corpo esguio no sofá, e reparei que estava tensa. Haviam olheiras, ainda que sutis, em suas pálpebras, e toda aquela agitação que era Anabela Silveira sumiu, dando lugar à garotinha assustada, que chorava a perda dos pais, escondida no banheiro da escola. — Por mim tudo bem — concordei, agarrada em minha correntinha —, chá...? — Por favor — suspirara —, de Camomila, com muito açúcar. — Pra já — deixei a bolsa em cima da estante e fui até a cozinha, voltei minutos depois com duas xícaras de chá e alguns biscoitos caseiros. — Qual seu plano? — Eu quis saber, estendendo a bebida para ela. Deixei o pote de biscoitos em cima da mesa de centro e me esparramei no tapete da sala. — Estamos a dois dias para o seu casamento — Bela constatou, bebericando o chá —, e sabe o que a noiva precisa fazer? — Arrancar os cabelos de preocupação...? — Arrisquei, levando minha xícara à boca. — Não — ela revirou os olhos —, toda noiva que se preze sai para sua despedida de solteira com as amigas. — Esse é... — É — ela respondeu, empolgada —, esse é meu plano. Eu não queria festa, não queria cair na noitada e fazer qualquer tipo de loucura que pudesse me arrepender no dia seguinte, adrenalina nunca foi meu forte. Em compensação, Bela estava ali, na sala da minha casa, suplicando em silêncio que eu topasse. — Tá legal — cedi —, vamos fazer a tal despedida. — Ah, flor! — estrilara. — Eu, você e a Linda, chapadas, como nos velhos tempos. — Você e a Linda chapadas — corrigi, caminhando até a estante, onde peguei minha bolsa —, e eu cuidando das duas pinguças, como nos velhos tempos. — Você é a melhor cuidadora de bêbadas do mundo! Eu ri, depois abri a bolsa e apanhei um molho de chaves, Bela me encarou, confusa. — É do meu apartamento — falei, jogando- as para ela —, presente de casamento do papai. — A coisa vai ser melhor do que eu imaginei! — Exclamou, girando as chaves entre os dedos. — Mas por que você tá me entregando isso? — Prometi que iria jogar bisca com papai e Madá pela tarde — expliquei, sentando-me ao seu lado, suas pernas estiradas sobre mim —, vou anotar o endereço e vocês ficam me esperando lá. — Não nos dê mais um cano, Larah — Bela pediu, séria. — Não darei — garanti —, apareço antes das oito. E assim foi feito. Despedi-me de Ricardo, lá na pracinha, e corri para casa, para me arrumar. Tomei um banho depressa e escolhi um look super básico — regata preta; short estampado e um par de rasteirinhas —, a ocasião não pedia nada muito elaborado, já que iríamos ficar trancafiadas em meu apartamento, jogando conversa fora. Por fim, passei um gloss rápido nos lábios e deixei os cabelos soltos, minha animação estava abaixo de zero. Mas eu não podia pisar na bola com minhas amigas outra vez. E era óbvio que depois do casamento eu as veria com menor frequência, então, eu teria que aproveitá-las, antes que minha vida se resumisse à panelas bem areadas e ovos fritos. — Dê notícias — papai pediu, embicando o carro de frente para o prédio —, e não a... —...ceite bebida de estranhos — completei beijando sua bochecha —, fica sossegado, papai, prometo que vou me comportar. Ele anuiu e eu desci, equilibrando-me entre uma garrafa de vinho e minha bolsa de mão. Soltei um “boa noite” para o porteiro, que me respondeu sem ao menos tirar os olhos do jornal, e segui até o elevador. Por sorte não havia ninguém ali, abracei a garrafa de vinho de maneira protetora e apertei o botão do quinto andar. Só que o mundo é pequeno, a vida é cheia de ironias e o universo, de conspirações. Sendo assim, bem na hora que as portas iam se fechando, alguém invadiu o ambiente. Seus olhos azuis me fitaram, surpresos, e ele sorriu. Então aquelas malditas covinhas afundaram em suas bochechas, fazendo tudo em mim se agitar por dentro. — Eu tenho fortes razões para achar que você está me seguindo — Lucas falou, presunçoso, posicionando-se ao meu lado. Estava ainda mais lindo do que eu me lembrava; enfiado numa camisa de lã cinza, calça jeans escura e, sorri ao constatar, chinelo de dedos, carregava uma mochila preta, transpassada pelo ombro, e um cheiro bom de suor misturado com madeira. — Meu Deus, o que eu sou agora? — perguntei desviando o olhar para o chão. — Um caça-fantasma? — Prefiro uma serial-killer, sabe, daquelas que atacam homens charmosos e indefesos — brincou, encostando o corpo sobre a parede. — Rá, rá — falei apenas, e tentei não pensar na ambiguidade daquela fala. Porque, de repente, eu quis muito atacar Lucas dentro do elevador. — Quinto andar também — ele constatou —, não me diga que você é a nova moradora do 41. — Por favor, me diz que não... — Sim — me interrompeu, as turquesas reluziram —, eu moro no 40. Sabe o que isso quer dizer? — Que você vai bater na minha porta me pedindo açúcar...? — Arrisquei, encarando-o. — Não — ele riu —, significa que seremos vizinhos. — E...? — E — respondeu, prepotente — isso aumenta as chances de você bater em minha porta e me pedir desculpas. Sabe, por ter me atropelado naquela boate. — Esquece, Lucas. Eu não vou te pedir desculpas. Ele abriu a boca para responder, mas um estrondo, seguido de um solavanco, interrompeu sua fala. Por fim, as luzes piscaram e o elevador parou de vez. Ahh, o elevador parou de vez... — Inferno! — Lucas resmungou, escorregando o corpo até o chão. — A p***a do elevador está quebrada! Algo dentro de mim murchou. Tá legal, eu não esperava encontrá-lo feliz, soltando fogos e comemorando por estar preso naquele cubículo abafado comigo, mas eu também não imaginei que ele agiria assim, com cara de quem estava prestes a ir para a guilhotina. Escorreguei o corpo também e, por puro orgulho, tratei de manter uma boa distância dele. A garrafa de vinho ficou entre nós. — Você sabia que a criança mais pesada do mundo nasceu com dez quilos? — Ele perguntou do nada. — Hum... não. — Pois é, foi na Itália — acrescentou, depressa — E as jujubas são revestidas de esmalte de confeiteiro. Maluco, né? Virei o rosto para ele, para me certificar de que, depois do impacto, sua cabeça não havia sido danificada, e então, ao notar o horror estampado em seu rosto, compreendi tudo. — Claustrofobia — falei comprimindo os lábios para não rir. — Lucas, você tem claustrofobia. — Não tenho não — ele se defendeu, folgando o colarinho da camisa —, eu só... só não curto a sensação de me sentir preso. — Vai ficar tudo bem — garanti e estendi a garrafa para ele — Bebe. Álcool sempre resolve tudo. Ele olhou para mim com um misto de ternura e gratidão, e eu soube, pela forma como suas turquesas me encaravam, que me agradecia em silêncio. — Você e seu namorado — pigarreou —, conseguiram se acertar? Remexi em meu pingente e não o encarei. — Acho que estamos — aceitei a garrafa que ele me estendera e tomei um bom gole de vinho — nos ajeitando aos poucos. — Entendo — ele suspirou —, no fim tudo é uma questão de tempo mesmo. — É — concordei, repassando a bebida para ele, limpei a boca com as costas da mão —, tô na fila de espera há anos. — Ao seu final feliz, mocinha — Ele desejou e depois de sorver o líquido entregou-me a garrafa. No processo nossos dedos se tocaram de leve, e bastou apenas isso, um ínfimo contato, para que tudo em mim despertasse. Olhei para ele na intenção de comentar alguma bobagem que desfizesse aquele clima, entretanto, tudo ficou ainda mais embaraçoso. Lucas estava ali, perdido em meu rosto, seus olhos azuis presos em meus lábios; a respiração entrecortada... E eu? Eu fiquei balançada, é claro! Meu coração passou a bater apressado, martelando em minhas costelas, um calor tomou conta do meu corpo e meu estômago se contorceu inteirinho. Sem falar da boca, úmida, que ansiava por algo que eu jamais poderia ter. Não sei por quantos minutos ficamos ali, olhando um para o outro, em completo êxtase. Parecia que o tempo tinha sido congelado, deixando apenas uma bruma de magia e frisson entre nós. E era errado, eu sei, mas havia uma força, tipo um imã, que tentava a todo custo me arrastar para ele. Especificamente para seus lábios, tão carnudos e convidativos. — Larah — ele murmurou. — Lucas — balbuciei, aproximando-me. Por sorte, antes que cometêssemos qualquer tipo de loucura, o elevador abriu-se, desfazendo todo encanto e trazendo-nos de volta à realidade. — Ao meu final feliz — eu disse, com o rosto afogueado, e virei a bebida de vez.
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