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2911 Words
Eu ainda estava atordoada quando abri a porta do apartamento, por isso demorei para assimilar a cena que transcorrera em minha frente. Mas assim que meu cérebro voltou a funcionar, me dei conta do grande caos que tomava conta do meu espaço. Linda — de maquiagem exagerada, cabelos soltos, enfiada numa meia-calça preta, short jeans desfiado e um blusinha amarela — estava pendurada na cacunda de Demitri, com uma garrafa de vodca pela metade na mão e seu par de saltos altos na outra, ao passo que gritava frases de incentivos para a galera. Já Bela estava mais simples, de vestido rodado e estampas claras, calçada num par de sapatilhas vermelhas, seus cabelos pareciam estar ainda mais ondulados e tinha um movimento leve e bacana enquanto ela dançava salsa ao lado de um rapaz — alto, magro, pele escura e cabelos loiros — no canto da sala. Olhei em volta. Um casal estava aos amassos no sofá, o modo como o cara enfiava a língua na boca da mulher embrulhou meu estômago. Desviei a atenção para minha prateleira — sabiamente organizada por Madá —, onde uma garota de cabelos curtos e óculos de grau contemplava minha coleção de livros à sua frente. Dois funcionários do Guatemala, usando bem menos trajes que o habitual, passeavam pelo apartamento com bebidas coloridas e petiscos exóticos. Noutro canto avistei uma garota, um tanto alta e de feições bonitas, de papo com outra, um pouco mais robusta, que remexia seus cabelos vermelhos e encaracolados enquanto conversava. — A noiva chegou! — Bela estrilou assim que me viu, correndo em minha direção. — Ei, Larinha — Linda gritou —, diz aí se essa não era sua despedida de solteira dos sonhos? Não, não era. Um tanto furiosa, caminhei em direção ao som e desliguei a música. Todos me encararam, surpresos. — Preciso conversar com vocês duas — falei, fulminando-as com o olhar. — Que saco, Larinha — Linda bufou, escorregando até firmar os pés no chão —, você é uma p**a duma empata-f**a. Segui em frente e parei, perplexa, de frente para o banheiro, onde um homem vomitava em minha privada. — Anabela e Linda — chamei possessa. — Pro meu quarto. Agora. Caminhei em passos largos e, mesmo sem olhar para trás, eu soube que as duas me seguiam. Fosse pelo cheiro forte de pinga que vinha de Linda ou pelo perfume adocicado de Bela. — Flor, a gente pode expli... — Você tem c*******a? — O garoto do sofá me interceptou no corredor. — Não — respondi impaciente, desviando-me dele. — Ah, qual é, Larinha? Você tá mesmo furiosa por causa disso? — ALGUÉM AÍ TEM c*******a? — O garoto gritou, me deixando ainda mais irritada. Respirei fundo e, assim que entramos no quarto, fechei a porta atrás de nós. Então cruzei os braços e encarei-as. — O que deu na cabeça de vocês? — Inquiri. — A gente só queria que você se divertisse — Bela respondeu. — Desse jeito? — Apontei, incrédula, para o lado de fora.— Com um bêbado vomitando no banheiro, um t****o procurando p**********o e um bocado de desconhecidos destruindo minha casa? — Apartamento — Linda corrigiu. —Tanto faz — eu dei de ombros e sentei-me numa das caixas que, certamente, continha meus pertences —, na boa, eu sei que vocês fizeram na melhor das intenções, mas... — Mas você queria bater papo com a gente, assistir um filme bobo e se entupir de pipoca. — Linda deduziu, sentando-se na caixa ao lado. É, era isso que eu queria. — Olha, flor, sua companhia é maravilhosa — Bela agachou-se de frente para mim, e segurou forte minha mão —, mas ultimamente você só pensa nesse casamento, nos romances de livros e em combinar roupas com sapatos, isso... isso é entediante, sabe? — É como se você estivesse sentada numa das cadeiras enquanto sua vida se desenrola em cima do palco, Larinha. — Queremos que você experimente um pouco do seu espetáculo — Bela acariciou minhas mãos e um nó se fez em minha garganta. Elas estavam certas, mas eu não sabia como sair dessa bolha na qual me enfiei durante tanto tempo. E para ser franca, mesmo que eu soubesse, não faria isso. Casar com Ricardo era meu projeto de vida, meu sonho mais bonito, não era fácil para mim me desfazer de algo tão valioso. — Podemos mandar os convidados embora — Linda sugeriu —, e comemoramos só nós e a turma do Artur. — Quem é Artur? — Perguntei, limpando uma lágrima do rosto. — Aquele que estava dançando comigo; um amor de pessoa — Bela respondeu, animada —, uma hora com ele e você esquece seu noivo. —Eu não vou trair o Ricardo — soou como uma súplica interna. — Claro que não — Bela riu — o Artur é gay, flor. Não era Artur que me preocupava, era Lucas. Eu m*l o conhecia e ainda assim era invadida por sensações esquisitas — e boas — sempre que o via. Minha preocupação estava naquele rapaz, prepotente e divertido, que ao sorrir exibia duas lindas covinhas. O mesmo cara que me tirou daquele apagão, me tratou de forma gentil e que, há pouco tempo, cravou seus olhos azuis em mim, com tamanha intensidade e desejo que por pouco não fui arrastada para seu mar de turquesas, onde eu sei que me perderia sem ao menos pensar. — E aí, topa? — Linda perguntou, num cutucão. — Hum... o quê? — Eu quis saber, meio perdida no assunto. — Curtir o restante da noite na boate do Artur — Bela respondeu —, só vai ter a gente. Clarisse e Lili são bem divertidas, a Duda é um pouco tímida, mas depois de dois goles de Uísque ela se solta pra caramba. — Onde vocês se conheceram? — Perguntei, incomodada. — Numa briga — Linda contou, e lançou um olhar cúmplice para Bela, as duas riram —, eu enchi a cara pra variar e agarrei nos cabelos da Clarisse. — Foi uma baita confusão! — Bela soltou com certa nostalgia, não gostei disso. — Mas no fim viramos amigos, e sempre que rola uma festa bacana a gente se programa e vai junto. — Uhum — falei, tentando nivelar meus ciúmes. —Você sempre nos dá cano, Larinha — Linda se justificou e eu dei de ombros. — Tivemos que nos enturmar com outras pessoas. — Tudo bem, vocês não têm culpa se sou uma chata que só pensa em casamento. — falei, magoada. — Não dissemos isso — Bela objetou. — Ninguém vai tomar seu lugar — Linda garantiu. —, ainda somos só nós três contra o mundo. — E a favor de pirocas. — E de cachaça. — E filmes românticos...? — Propus. — E filmes românticos — as duas repetiram. — Tá legal — topei —, vamos pra essa tal despedida de solteira. — Vou despachar o pessoal e inventar que você está com dor de barriga. — Eu te mataria por isso, Bela — ameacei e ela riu. — Eu sei — ela falou, levantando-se —, torça pra que eu tenha ideia melhor. — Enxaqueca sempre funciona — Linda sugeriu. — Enxaqueca e dor de barriga. Tô com pena de você, flor — então saiu, naquele seu jeito todo animado de ser. Eu ri, até que um par de olhos azuis invadiu meus pensamentos outra vez, me deixando irrequieta. — Linda — eu chamei, agarrada em minha correntinha. — Oi. — Eu... bem, eu... hum... — sabe aquele cara da boate? Somos vizinhos, e eu quase o beijei no elevador, loucura né? —, eu só... só queria agradecer por vocês terem feito tudo isso por mim. — Ah, Larinha — ela me abraçou apertado, e beijou o topo da minha cabeça —, eu só quero que você seja feliz. De verdade. — Eu serei — garanti, acomodando minha cabeça em seu colo. Linda começou a fazer cafuné em mim, enviando-me tranquilidade através de seu toque delicado. Apesar de ter me escondido seu almoço com Ricardo, ela ainda era minha melhor amiga. Sempre seria. — É sério que ninguém aqui tem c*******a?! — O garoto perguntou indignado, com a cabeça enfiada pela fresta da porta. — NÃO! — Gritamos em uníssono. O rapaz sobressaltou-se e depois foi embora, acuado. Eu e Linda nos encaramos e, em questão de segundos, caímos numa gargalhada gostosa. “Eu te perdôo, Linda — lhe disse em pensamento —, seja qual for seus motivos, eu te perdôo.” — Tudo pronto — Bela anunciou entrando de supetão —, a galera foi despachada, Demitri foi levar os funcionários em suas casas e mandou avisar que de lá vai pra casa da namorada. — E o resto do pessoal? — Linda perguntou, ainda acariciando meus cabelos. —Bom, Artur foi com Lili pegar seu carro e as chaves da boate, Clarisse deu carona à Duda e você leva a gente no Tufão. Vamos? — Vamos — eu disse, recompondo-me, depois levantei e puxei Linda pelo braço, que hesitou. — Tá tudo bem, flor? — Bela perguntou, preocupada. Linda me encarou, com aquela faísca de culpa aprisionada em suas íris escuras, lágrimas avolumaram-se em seus enormes olhos, mas ela sorriu, afastando qualquer vestígio de tristeza. — Não é todo dia que temos uma despedida de solteira, né? — ela aprumou-se e se pôs a caminhar.— Vamos lá, vamos persuadir a Larinha até ela desistir do casamento. Eu ri, e, juntas, seguimos até o estacionamento do prédio. Chegamos atrasadas à boate. Primeiro porque eu me recusei à ir em minha própria despedida de solteira como se fosse à padaria comprar pão, então, depois de tanto choramingar, minhas amigas deixaram eu passar em casa. Troquei o short e a regata por um vestido tubinho preto, todo rendado, os chinelos foram parar debaixo da cama e deram lugar ao meu par de saltos creme, pintei a boca de vermelho, caprichei no rímel e me esbanjei de perfume. Depois peguei minha bolsa de mão dourada, nela enfiei meu celular; documentos e as chaves do apartamento, em seguida desci para encontrar Bela e Linda, que me esperavam, impacientes, dentro do carro em frente de casa. O segundo motivo pelo atraso era meio óbvio; Tufão emperrou no meio do caminho por três vezes, e a muito custo e orações, foi se arrastando até o nosso destino. — Achei que ia ter que secar toda bebida sozinha — Clarisse foi dizendo na entrada da boate. Eu a reconheci porque, no meio do caminho, Linda e Bela me explicaram quem era quem da turma. A garota bonita e de cabelos loiros era Lili, prima de Artur; Clarisse era a mulher robusta, de cabelos vermelhos e encaracolados, que conversava com ela na sala do meu apartamento; já Duda era a moça de cabelos curtos e negros, que eu flagrei namorando minha prateleira de livros. — O carro da Linda emperrou — Bela justificou-se. — E a patricinha aí foi caprichar no visual — Clarisse apontou para mim, meio emburrada. — É q-que, e-eu — gaguejei. — Qual é — ela gargalhou —, eu tô brincando. Vem, vamos curtir sua noite. — Entendeu porquê eu grudei nos cabelos dela? — Linda perguntou ao meu lado, eu assenti, acompanhando-as. — Estou ouvindo, sua cretina! E antes que venha se gabar, eu venci a luta. — Claro que venceu — Artur ironizou, assim que entramos em seu estabelecimento —, desmaiou em menos de dez segundos de briga. — Minha glicemia baixou — Clarisse me explicou, baixinho. — Você precisava ver a cara de susto da Linda achando que tinha matado a Lisse — Lili me contou, eu ri. — Ia ser o fim da minha carreira, Larinha — Linda acrescentou, pendurando-se no pescoço de Artur. — O que vamos beber? — Duda perguntou e sorriu para mim — Vocês sabem que eu só converso depois de beber uns goles. — O que vocês quiserem. É por conta da casa! — Artur disse rodopiando Linda. — Aqui dorme Bocage; o putanheiro. Passou a vida folgada e milagrosa; comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro. — Clarisse recitou em voz alta, depois seguiu para o balcão, Bela e Lili foram junto. — Sua estante é tão linda — Duda elogiou baixinho, perto de mim —, e você tem todos os livros da Becky Bloom! — É, tenho sim — comentei, orgulhosa —, se quiser eu te empresto. — Ah, obrigada — ela falou, toda tímida —, mas eu tenho a coleção toda também, parece que temos muito em comum. — É apaixonada por homens literários? — Perguntei. — Você não faz ideia do quanto. — Então nós temos muito em comum — falei e ela riu, mais relaxada. — Bela, meu amor — Artur chamou —, faz um daqueles seus drinques maravilhosos e coloca o som pra tocar. A boate dele era um tanto acanhada, as paredes verdes já estavam gastas e as luzes coloridas em cima do teto não funcionavam direito, no entanto, aquele ambiente era bem mais aconchegante e divertido que o Stella Drinks. Aprendi então que, quando a companhia é boa, o luxo é irrelevante. Certo, eu havia admitido isso. Na verdade eu estava esperando um pretexto para dizer que eles eram chatos e que minhas amigas eram loucas por terem me trocado por uma turma barulhenta e cheia de piadas prontas. Mas sendo totalmente sincera, eles eram demais! Cada um ao seu modo. Clarisse, por exemplo, tinha a língua afiada e usava ironia para quase tudo, entretanto contava histórias de fazer a barriga doer e ensinava métodos sexuais para atingir orgasmos alucinantes. Eu tentei disfarçar o interesse, mas acabei prestando mais atenção do que devia às dicas dadas por ela. Já Duda, apesar de tímida, era um amor de pessoa. Depois de uns goles de Tequila começou a tagarelar sobre sua vida e eu descobri coisas bacanas e complicadas a seu respeito. Ela amava cachorro, era professora de letras numa universidade e estava perdidamente apaixonada por um de seus alunos. Para piorar, a recíproca era verdadeira. Lili era louca por maquiagem e moda, então foi meio que esperado que o papo entre nós fluísse com tamanha facilidade. Artur era inteligente, falastrão e muito, muito divertido. Praticamente pirou quando Linda contou que eu também sabia dançar, me arrastou-para o meio da pista e ordenou que Clarisse colocasse músicas agitadas porque iríamos remexer os quadris. Eu estava ensinando às garotas a fazerem o quadradinho quando Linda chamou a mim e Bela para irmos ao banheiro. Entreolhamo-nos, interrogativas, e atendemos ao seu pedido. — Que houve, flor? — Bela quis saber assim que fechou a porta. — Gustavo acabou de me mandar mensagem — ela contou, com o corpo colado na parede —, quer me ver ainda hoje. — E o que você respondeu? — Eu perguntei, conferindo a maquiagem no espelho. — Não tive tempo — Linda falou, mostrando-nos seu celular —, o Brad encontrou meu f*******: e me chamou pra almoçar amanhã. — Uau! — Bela exclamou. — O que você vai fazer? — Indaguei ansiosa. — Se não notaram foi por isso que chamei vocês — Linda disse, enfiando as mãos por dentro dos cabelos escorridos —, eu não sei o que fazer. — Vai t*****r com o Gustavo — Bela sugeriu, calmamente —, se ele for r**m de cama você almoça com o Brad. E transa com ele também. — Parece tão fácil — ela retrucou. — Porque é — Bela rebateu —, se todos meus problemas fossem dois homens lindos na minha cola, flor, eu estaria pulando de felicidade. Linda olhou para mim, à procura de um conselho, soltei os ombros, rendida. — Bela tá certa — falei por fim —, vá se encontrar com meu irmão, se arrisque ao menos uma vez, Linda. — Vocês não entendem — ela disse levantando-se, e encostando o corpo contra a pia de mármore —, o Gustavo quer ouvir aquilo. — E você ainda não consegue dizer— concluí. — Em que língua estamos falando? — Bela inquiriu.— O que significa “aquilo”? — As três palavrinhas mágicas — respondi —, o famoso eu te amo. — Você nunca disse “eu te amo”? — Bela indagou, surpresa, Linda negou com a cabeça — Mas por quê? — Porque... — começou, nervosa, depois andou de um lado para o outro, inquieta —, porque isso é difícil pra mim, p***a! Eu não consigo, não consigo dizer algo tão importante pra alguém. Vocês acham que sou forte e insensível, mas eu não sou. Isso tudo aqui é uma carranca, e eu não vou tirar minha armadura pra alguém que não chega a um ano de namoro, caramba! Ficamos em silêncio. — Vai t*****r com ele — Bela ordenou, abraçando-a —, se ele quer ouvir essas três palavras que faça por merecer. Há tempo pra tudo, Linda, o seu ainda não chegou, tudo bem? — Sim — ela fungou. — Estamos aqui — falei, abraçando-as —, sempre estaremos, lembra? — Uhum. — Por favor, flor — Bela pediu depois de alguns segundos —, nos conte o tamanho do p*u dele amanhã. Então explodimos em risadas histéricas. Linda estava certa, ainda eram só nós três contra o mundo.
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