cap 01 ensaio
Marcelly
Lucas: Vai, Marcelly, para de frescura. Ele insistiu, a impaciência no tom mais evidente.
Marcelly: Eu não vou, Lucas. Amanhã tenho ensaio depois da escola, já foi uma treta convencer minha mãe a me deixar participar. Outro dia a gente marca, pode ser? – Era difícil sair com ele sem me preocupar com o que ele ia aprontar. Ele sempre dava um jeito de se meter em encrenca.
Lucas: Você é a maior vacilona. – Ele resmungou, mas a risada que deu em seguida só confirmou o quanto não estava nem aí para o que eu falava. Sabia que não conseguiria me convencer.
Marcelly: Só vou se a Raquel for. Não dá pra sair só com você, sempre me deixa de canto pra ir fumar.
Ele deu risada, mas não retrucou. Sabia que eu estava certa. A convivência com ele era uma montanha russa, sempre com altos e baixos.
Lucas: Eu vou nessa resenha porque vou tirar uns dias longe da comunidade.
Marcelly: E as aulas? – Questionei, indignada com a falta de compromisso dele.
Lucas: Eu recupero, são só quatro dias. – Ele respondeu, convencido de que podia fazer qualquer coisa e ainda dar um jeito depois.
Assenti com a cabeça, já salbia que não ia adiantar nada discutir.
Lucas: Depois te conto tudo. – Falou, mudando de assunto.
Marcelly: Se tá escondendo, é porque não quer ouvir sermão. – Ele sorriu, mas eu sabia que estava certa. Fui até o portão de casa e fiquei parada ali, esperando ele ir embora.
Lucas: Passo no ensaio pra te dar um beijo. – Ele falou, me entregando minha bolsa.
Marcelly: Obrigada, amigo.
Lucas: Até amanhã. – Deu um beijo na minha bochecha e foi embora, e eu fiquei ali, observando ele se afastar.
Entrei em casa, e minha mãe já estava lá, com o uniforme de enfermeira.
Adriana: Demorou hoje, hein? – Ela falou assim que me viu, com um sorriso cansado, mas amoroso. – Fiz almoço, depois lava a louça antes de dormir.
Marcelly: Estava tomando açaí com o Lucas, vou comer mais tarde. E amanhã tenho ensaio, chego tarde. Vai trabalhar?
Adriana: Não, estou de plantão hoje.
Minha mãe sempre foi forte, dedicada. Quando eu era menor, ela estava sempre ausente por causa do trabalho e da faculdade. Era difícil ter ela por perto, mas agora, que eu cresci um pouco, a gente encontrou um jeito de dividir mais o tempo. Mesmo assim, sei que a situação não era fácil para ela. Ela sonha em sair da comunidade, ter uma vida diferente, mas eu sabia que a realidade era mais dura do que ela imaginava.
Almocei rápido e fui me deitar, ainda com a mente cheia de pensamentos. O celular vibrou, e eu recebi uma mensagem da Raquel, e a notícia me fez até engasgar. Fui correndo até o portão de casa e ela me esperava lá.
Marcelly: O babado tá forte, Raquel. O chefe do tráfico da Mangueira saiu. Faz sentido, né? O Lucas quer se esconder do pai.
Raquel: Deixa ele, Marcelly. Você sabe como o Lucas é, dá a louca nele e ele some mesmo, sempre foi assim.
Marcelly: E f**a, né? Porque depois ele fica chorando no nosso colo.
Suspirei, sentindo o peso do que estava acontecendo. Era como se eu estivesse assistindo tudo de longe, e de fato estava. Lucas não se abria com a gente em relação ao pai e a gente respeitava, mas sempre soubemos que a relação dos dois não é boa.
A gente saiu para o ensaio, e mesmo com a distração da quadra, não consegui deixar de pensar no meu amigo, estava de fato preocupada. Porque quando ele quer, consegue ser bem inconsequente.
Assim que entrei na quadra eu vi o rapaz com o qual nunca tinha cruzado olhar antes, não pude negar que ele era lindo. Mas a presença dele, a maneira como ele observava, me deixou desconfortável. E era automático, assim que todo mundo entrava, passava o olhar sobre ele – de fato chamava atenção.
Desviei o meu olhar e peguei meu rumo indo pro ensaio. Hoje ainda tinha sido bem rapidinho, normalmente costuma demorar. Joguei meu cabelo pro lado e fui até as meninas.
Dandara: Licença meninas, gostaria de apresentar pra vocês um dos nossos financiadores que passará a frequentar mais a quadra. O Tubarão.
Ele sorriu simpático, mostrando as lentes nos dentes. Analisei ele de forma rápida: tinha um corpo forte, como de quem malhava. Branquinho e com cabelo curto. Os cordões não deixavam ele parecer extravagante. Tinha postura madura de quem já havia visto de tudo e carregava um peso enorme sobre os ombros. Ele era de fato um homem bonito. Cumprimentou a gente de forma breve e depois os dois saíram, dobrando pauta para o assunto.
Larissa: O cara nem parece que saiu da cadeia, tá um gostoso. – Falou baixinho.
Raquel: Ele é o de frente? – Ela perguntou, e o choque no rosto dela me fez raciocinar tudo de novo.
Marcelly: Nem fodendo. – Falei, sem acreditar no que estava ouvindo. Tubarão era o pai do Lucas, o homem que ele odiava.
Raquel: Esse cara deve ter adotado o Lucas, não é possível. Parece ter 25 anos.
Marcelly: Não exagera. Ele tem cara de uns 30, mas mesmo assim... – Eu ri nervosa, tentando desviar o assunto, mas a presença dele se fazia mais opressiva a cada segundo.
Fiquei preocupada com o Lucas na hora que bateu a ficha de que ele não havia aparecido aqui. Peguei meu celular, mandei uma mensagem e depois bloqueei a tela para esperar ele responder. Raquel foi lá dentro buscar a bolsa dela e eu peguei a minha que já estava ali no chão, tirei o salto dos pés e guardei, pegando o chinelo.
Marcelly: Merda de zíper. – Reclamei quando ele enganchou. Fiz força e tentei de novo, joguei a bolsa nas costas e ergui a cabeça, dando de cara com dois homens na minha frente.