cap 02 cadê meu filho

1116 Words
Tubarão Respirar ar puro da liberdade – foram muitos anos privado de qualquer sentimento parecido. Na cadeia a questão é de sobrevivência: a gente faz aliado pra não acordar morto. Foram 11 anos lidando com os piores tipos de pessoas que existem, e não falo dos bandidos – falo dos policiais malditos que acham que a gente é animal. No fundo, eles são farinha do mesmo saco que a gente. A diferença é que eles são bandidos de farda. Busquei pelo carro preto que me esperava e fui até ele. Quando entrei, analisei o motorista que estava sentado. Coloquei a mão no rosto para tampar do sol e pude enxergar melhor. Tubarão: Não acredito que é você, menor! – Falei empolgado e ele me deu um sorriso. – Tá diferente, parece até que você era o preso. Mais acabado que eu. Nd: Vai se f***r! – Deu risada, nem parece que tu tava preso mesmo. Entra aí... – Falou e eu abri a porta, me sentando no banco de couro. – Direto pra comunidade? Tubarão: Isso, pra casa da minha mãe. E o Lucas, como tá? Nd: Trabalhoso como sempre. – Riu fraco e eu senti que ainda faltava ele dizer algo. Tubarão: O que o moleque aprontou dessa vez? Nd: Meteu o pé da comunidade, a gente não sabe pra onde foi. Sua mãe talvez saiba, mas ele deu pinote nos caras e sumiu. Saiu ontem à noite mesmo. Falei sentindo o peso no peito. Tubarão: Ele tá fugindo é de mim. Lidar com o Lucas era f**a pra c*****o. Menor é meu único filho e consegui me traumatizar pra eu não ter mais nenhum. Tá certo que eu sei que é culpa minha: fui pai muito novo e não soube lidar com a situação. Era só eu, minha mãe e a mãe dele – os pais dela expulsaram ela e eu tive que abraçar na minha casa. Eu e ela éramos duas crianças na época; eu tinha somente 14 anos. Minha mãe quase me matou de verdade. Sem opção pra sustentar ele, entrei pro crime. No dia do nascimento dele, a mãe dele faleceu, e eu fiquei único responsável por ele. Foquei tanto em não deixar faltar nada pra ele comer e vestir que esqueci de dar atenção. Quando fui notar meu erro, ele já era uma criança revoltada da vida, vivia aprontando pra c*****o. Depois eu fui preso e isso distanciou mais a gente. Só que também não justifica as paradas que ele fez – me deixa puto pra c*****o. Mas se ele pensa que vai continuar agindo assim agora, tá enganado. Chegamos na comunidade e eu observava tudo: as diferenças eram gritantes, desde as pessoas até a forma que a comunidade estava. O Nd me deixou em frente a casa da minha mãe como eu havia pedido. Desci do carro com minha mísera sacola com uns itens básicos. Tubarão: Me arruma um celular maneiro, preciso pra hoje. – Falei escorado no carro. Nd: Tá bom, trago aqui ou você vai na boca hoje? Tubarão: Hoje não vou passar por lá, vou ficar na minha... Me entrega à noite na escola, preciso dar uma passada. – Falou e eu sorri pra ele. Nd: Beleza, chefe. Seja bem-vindo de volta. Caminhei até a casa da minha velha que já não estava da mesma forma de antes – havia sido reformada e tudo estava do bom e do melhor. Abri a porta e entrei chamando por ela. Juliana: Eu não acredito, meu Deus! – Veio até mim, me abraçando e beijando. – Como você tá? Tubarão: Tô bem, e você? Juliana: Estou na paz. Tubarão: Tá sabendo do Lucas? Cadê ele? Juliana: Mandou mensagem de manhã avisando que estava bem e logo voltaria, não disse aonde foi. Ele está impossível, Pedro – você precisa me ajudar com esse garoto. Tubarão: Vou por ele na linha, tá muito folgado. Conversei um pouco matando a saudade dela e depois subi pra tomar um banho. Como costume da cadeia, eu optei pela água fria – deixei cair sobre meu corpo e senti o prazer da minha liberdade novamente; a ficha não caiu. Quando a noite caiu, resolvi me arrumar e sair pra dar um rolê. Fui andando direto para a escola de ensaio da Mangueira – financio essa p***a desde que comecei a ter dinheiro. Minha mãe é quem costura a roupa do pessoal, então eu dou uma força pra escola. A diretora, Dandara, me recebeu de braços abertos como sempre. Troquei um papo com ela um pouco e depois ela foi me apresentar para um pessoal. Paramos em um grupo específico de meninas, que deveriam ser as passistas – notei pelo salto enorme no pé e a roupa decorada. Em meio à apresentação que ela estava fazendo, meu olhar percorreu até uma das meninas de cabelo cacheado. Ela tinha uma cara de novinha, mas o corpo dizia o contrário. Desviei meu olhar dela e cumprimentei a outra que se apresentou – essa já tinha cara de mais velha. Vi Nd no canto da quadra e pedi licença, fui até ele e o mesmo me entregou uma sacola preta com um celular dentro. Tubarão: Depois acerta com o Azevedo, fala que eu autorizei. – Ele confirmou. – Sabe me dizer quem é aquela de cabelo cacheado? Nd: Marcelly, amiga do Lucas. – Balancei a cabeça negando pra mim mesma. Era bonita, mas muito nova pra mim – fora de cogitação. Tubarão: Ela deve saber aonde esse filho da mãe está. – Falei certo daquilo. Esperei ela ir em direção à saída e fui atrás com o Nd. Esperei ela perceber que estávamos ali parados; quando finalmente se deu conta, notei que sua expressão mudou e ficou séria. Tubarão: Licença, tu é a Marcelly? – A voz saiu grossa. Marcelly: Sou, porque? Tubarão: Amiga do Lucas. – Ela confirmou com a cabeça. – Sabe me dizer aonde ele tá? Marcelly: Na verdade não, ele não me falou e também não veio aqui hoje. Eu tentei acreditar, mas ela é amiga dele – poderia estar mentindo. Tubarão: Certo... Se falar com ele, avisa que eu dou um dia pra ele aparecer, se não vai ser do meu jeito. – Ela pareceu assustada com a forma que eu falei. – Obrigada pela sua atenção e parabéns pelo samba. Marcelly: Obrigada? – Falou parecendo mais uma pergunta do que um agradecimento. Eu dei as costas e o Nd deu uma risada do meu lado. Nd: Não acho que ela esteja mentindo. Marcelly passa a vibe de certinha. É a única amizade do Lucas que eu vejo e parece ser normal. Tubarão: Já tive essa idade – eles mentem o tempo todo, adolescente...
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD