Tubarão
Tubarão: Abre a boca, o gato comeu tua língua?
Encostei na mesa da cozinha, observando a cara de sonso do Lucas. Encontraram esse moleque numa festa de bacanal lá na Zona Norte do Rio. A notícia chegou pra mim antes mesmo da polícia aparecer. Um bando de menor metido a adulto, se achando dono da própria vida.
O que me pegou de surpresa foi a forma como o tempo tinha passado. A última vez que vi Lucas, ele tinha nove anos. Agora, com dezessete, já estava quase do meu tamanho. O rosto lembrava o da mãe, mas o jeito? Todo meu, o mesmo gênio r**m.
Tubarão: Tu acha que manda em você mesmo? Tu é menor de idade, deve satisfação pra tua vó e respeito. Acha que é quem pra sair sem avisar e sumir?
Lucas: Eu mandei mensagem...
Interrompi antes que terminasse.
Tubarão: Você deveria ter pedido pra sair. Outra coisa, festa de p*****a não é ambiente pra você, não, moleque. Pega a visão e abre o teu olho. Tu quer ser tratado como adulto? Então faz por onde.
Lucas: Você não tem moral pra me dar sermão.
Ele se levantou da cadeira, mas antes que se afastasse, segurei firme no ombro dele.
Tubarão: Eu tenho porque sou teu pai, quer você queira ou não. Sou eu quem sustento você, então sim, eu tenho moral.
Soltei o ombro dele e vi quando virou as costas, bufando, pronto pra sair dali. Mas antes que ele passasse pela porta eu falei novamente.
Tubarão: Senti tua falta também.
Ele sumiu para dentro do quarto sem responder. Minha mãe, que observava tudo em silêncio, me lançou um olhar de repreensão.
Juliana: A forma que fala com ele não vai melhorar a relação que vocês têm.
Tubarão: Eu quero me aproximar dele, mas ele vai aprender a me respeitar. Menino tem dezessete anos e não respeita ninguém, nem a senhora. Se ele quer viver a vida dele achando que é adulto, que vá arrumar um serviço.
Juliana: Ele quer sua atenção, faz tudo por isso.
Tubarão: Minha atenção ele vai ganhar quando souber me respeitar como pai dele. Posso ter errado pra c*****o com esse moleque, mas se hoje ele luxa com o bom e o melhor, é por minha causa. Não é pra ele sair sem te avisar, entendeu? Se ele der mancada, me fala.
Juliana: Tá bom, Pedro, só fala com ele com mais calma.
Não retruquei mais. De qualquer forma, minha mãe sempre defenderia o neto. Me despedi dela com um abraço e saí, precisava tomar um ar fresco e ainda resolver uns assuntos. Segui até a quadra, onde o movimento estava como sempre: alguns bares ao redor, mesas espalhadas, gente jogando conversa fora e a batida baixa de um funk vindo de alguma casa.
Localizei os caras sentados na mesa do canto e fui até eles, cumprimentando um por um.
Cabra: Seja bem-vindo, chefe. Como tu tá?
Tubarão: Tô de boa. Preciso saber como andaram as coisas.
Eles trocaram olhares antes que Acerola se pronunciasse.
Acerola: Se tu quiser saber em relação aos lucros, vem sendo bom. Final de semana passado fizemos um milhão vendido em droga, fora que tamo dando a assistência pros moradores, conforme você pediu.
Tubarão: Certo. Então organiza mais um baile maneiro esse final de semana.
Antes que ele respondesse, o som alto de um tamborim e um cavaquinho começou a preencher o ambiente. Virei o rosto para a quadra e vi algumas meninas entrando, posicionando uma caixinha de som no chão. Uma delas aumentou o volume, e a música tomou conta do espaço.
Acerola: Se esses caras já não estavam prestando atenção na p***a do assunto, imagina agora. Não tinha hora pior pra essas novinha virem ensaiar...
Nd riu, balançando a cabeça.
Nd: Qual foi, Acerola? Não gosta de mulher?
Soltei uma risada baixa, mas sem tirar os olhos da quadra.
Tubarão: Deixa elas ensaiarem.
As meninas começaram a se organizar e a dança começou. Mas foi ela que prendeu minha atenção.
De todas, era a que mais se destacava. Cabelo cacheado solto, balançando a cada movimento que seu corpo fazia. A pele parecia que até estava brilhando quando o sol bateu – ela exalava leveza e uma confiança absurda. A maneira como rebolava, mantendo o controle da dança, me fez esquecer por um momento o que eu estava fazendo ali.
Passei a língua pelos lábios secos. Ela se divertia, sorria enquanto dançava, o olhar brilhando. Mas, em meio ao movimento, seus olhos encontraram os meus.
Por um instante, continuou dançando como se nada tivesse acontecido – mas agora, sabendo que era observada. O sorriso que já carregava ganhou um detalhe a mais. O fato dela não ter desviado o olhar de imediato, fez com que eu me questionasse sobre as intenções dela.
E então ela virou o rosto, como se nada tivesse acontecido.
Nd: Tubarão?
Pisquei devagar, voltando a focar na conversa.
Tubarão: Tava pensando só, fala aí.
Acerola: Eu falei, essas novinhas da Dandara tiram o juízo de qualquer um.
Nd: Quinta a gente vai ficar por lá ou volta?
Tubarão: Depende de como a pista vai estar.
Me inclinei na mesa, pegando um cigarro no maço sobre a madeira. Acendi com calma, puxando a fumaça e soltando devagar. Mas, por mais que tentasse me concentrar na conversa, minha atenção ainda estava na quadra.