cap 03 elas tiraram meu juízo

892 Words
Tubarão Tubarão: Abre a boca, o gato comeu tua língua? Encostei na mesa da cozinha, observando a cara de sonso do Lucas. Encontraram esse moleque numa festa de bacanal lá na Zona Norte do Rio. A notícia chegou pra mim antes mesmo da polícia aparecer. Um bando de menor metido a adulto, se achando dono da própria vida. O que me pegou de surpresa foi a forma como o tempo tinha passado. A última vez que vi Lucas, ele tinha nove anos. Agora, com dezessete, já estava quase do meu tamanho. O rosto lembrava o da mãe, mas o jeito? Todo meu, o mesmo gênio r**m. Tubarão: Tu acha que manda em você mesmo? Tu é menor de idade, deve satisfação pra tua vó e respeito. Acha que é quem pra sair sem avisar e sumir? Lucas: Eu mandei mensagem... Interrompi antes que terminasse. Tubarão: Você deveria ter pedido pra sair. Outra coisa, festa de p*****a não é ambiente pra você, não, moleque. Pega a visão e abre o teu olho. Tu quer ser tratado como adulto? Então faz por onde. Lucas: Você não tem moral pra me dar sermão. Ele se levantou da cadeira, mas antes que se afastasse, segurei firme no ombro dele. Tubarão: Eu tenho porque sou teu pai, quer você queira ou não. Sou eu quem sustento você, então sim, eu tenho moral. Soltei o ombro dele e vi quando virou as costas, bufando, pronto pra sair dali. Mas antes que ele passasse pela porta eu falei novamente. Tubarão: Senti tua falta também. Ele sumiu para dentro do quarto sem responder. Minha mãe, que observava tudo em silêncio, me lançou um olhar de repreensão. Juliana: A forma que fala com ele não vai melhorar a relação que vocês têm. Tubarão: Eu quero me aproximar dele, mas ele vai aprender a me respeitar. Menino tem dezessete anos e não respeita ninguém, nem a senhora. Se ele quer viver a vida dele achando que é adulto, que vá arrumar um serviço. Juliana: Ele quer sua atenção, faz tudo por isso. Tubarão: Minha atenção ele vai ganhar quando souber me respeitar como pai dele. Posso ter errado pra c*****o com esse moleque, mas se hoje ele luxa com o bom e o melhor, é por minha causa. Não é pra ele sair sem te avisar, entendeu? Se ele der mancada, me fala. Juliana: Tá bom, Pedro, só fala com ele com mais calma. Não retruquei mais. De qualquer forma, minha mãe sempre defenderia o neto. Me despedi dela com um abraço e saí, precisava tomar um ar fresco e ainda resolver uns assuntos. Segui até a quadra, onde o movimento estava como sempre: alguns bares ao redor, mesas espalhadas, gente jogando conversa fora e a batida baixa de um funk vindo de alguma casa. Localizei os caras sentados na mesa do canto e fui até eles, cumprimentando um por um. Cabra: Seja bem-vindo, chefe. Como tu tá? Tubarão: Tô de boa. Preciso saber como andaram as coisas. Eles trocaram olhares antes que Acerola se pronunciasse. Acerola: Se tu quiser saber em relação aos lucros, vem sendo bom. Final de semana passado fizemos um milhão vendido em droga, fora que tamo dando a assistência pros moradores, conforme você pediu. Tubarão: Certo. Então organiza mais um baile maneiro esse final de semana. Antes que ele respondesse, o som alto de um tamborim e um cavaquinho começou a preencher o ambiente. Virei o rosto para a quadra e vi algumas meninas entrando, posicionando uma caixinha de som no chão. Uma delas aumentou o volume, e a música tomou conta do espaço. Acerola: Se esses caras já não estavam prestando atenção na p***a do assunto, imagina agora. Não tinha hora pior pra essas novinha virem ensaiar... Nd riu, balançando a cabeça. Nd: Qual foi, Acerola? Não gosta de mulher? Soltei uma risada baixa, mas sem tirar os olhos da quadra. Tubarão: Deixa elas ensaiarem. As meninas começaram a se organizar e a dança começou. Mas foi ela que prendeu minha atenção. De todas, era a que mais se destacava. Cabelo cacheado solto, balançando a cada movimento que seu corpo fazia. A pele parecia que até estava brilhando quando o sol bateu – ela exalava leveza e uma confiança absurda. A maneira como rebolava, mantendo o controle da dança, me fez esquecer por um momento o que eu estava fazendo ali. Passei a língua pelos lábios secos. Ela se divertia, sorria enquanto dançava, o olhar brilhando. Mas, em meio ao movimento, seus olhos encontraram os meus. Por um instante, continuou dançando como se nada tivesse acontecido – mas agora, sabendo que era observada. O sorriso que já carregava ganhou um detalhe a mais. O fato dela não ter desviado o olhar de imediato, fez com que eu me questionasse sobre as intenções dela. E então ela virou o rosto, como se nada tivesse acontecido. Nd: Tubarão? Pisquei devagar, voltando a focar na conversa. Tubarão: Tava pensando só, fala aí. Acerola: Eu falei, essas novinhas da Dandara tiram o juízo de qualquer um. Nd: Quinta a gente vai ficar por lá ou volta? Tubarão: Depende de como a pista vai estar. Me inclinei na mesa, pegando um cigarro no maço sobre a madeira. Acendi com calma, puxando a fumaça e soltando devagar. Mas, por mais que tentasse me concentrar na conversa, minha atenção ainda estava na quadra.
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