A noite estava calma, como se o próprio vento temesse tocar as folhas. O acampamento dormia em paz — ou naquilo que se podia chamar de paz após tantos dias de batalha. Apenas as brasas de uma fogueira teimavam em arder, lançando pequenas faíscas que dançavam no ar e desapareciam entre os troncos retorcidos das árvores.
Mayara permanecia desperta. Seus olhos seguiam o brilho do fogo, mas sua mente estava distante. Desde que aprisionara parte da escuridão em um recipiente mágico, seu corpo parecia vibrar em frequências diferentes — ora calma, ora pulsante, como se a magia dentro dela respondesse a algo que ainda estava por vir.
Ela suspirou, tocando o amuleto em forma de folha que trazia no pescoço. O mesmo que sua mãe, a Rainha da Floresta, usava nos antigos retratos do palácio destruído. Havia dias que sonhava com um campo banhado por luz, e uma voz feminina que a chamava suavemente — mas naquela noite, algo diferente aconteceria.
Quando fechou os olhos, sentiu o ar mudar. Um sopro frio percorreu sua pele, e o som do vento se transformou em um eco distante, como o de sinos antigos. De repente, não havia mais floresta, nem fogo, nem chão. Apenas uma névoa dourada que a envolvia por completo.
Mayara estava sonhando. Mas não era um sonho comum — era uma visão.
De longe, uma figura emergiu da luz. Alta, graciosa, com cabelos longos que brilhavam como fios de ouro e olhos cor de mel. O coração de Mayara acelerou.
— Mãe... — murmurou, reconhecendo o rosto que via apenas em memórias fragmentadas.
A Rainha da Floresta sorriu, aproximando-se com leveza. Sua presença era quente e acolhedora, como um abraço que o tempo jamais apagaria.
— Minha pequena estrela — disse a rainha, sua voz ecoando suave, como vento entre flores —. Você está seguindo o caminho que sempre lhe pertenceu. Mas ainda há partes de sua história que o mundo escondeu de você.
Mayara sentiu os olhos marejarem.
— Eu tenho tantas perguntas... — respondeu, a voz embargada. — Sobre mim, sobre o poder que cresce em mim, e sobre as trevas que insistem em me chamar.
O sorriso da rainha se desfez aos poucos, transformando-se em uma expressão melancólica.
— Porque as trevas, minha filha, não estão fora de você. Elas fazem parte de quem somos. E de quem eu fui obrigada a perder.
Antes que Mayara pudesse responder, a névoa dourada começou a mudar de cor — tingindo-se de cinza, e depois de n***o. Um frio cortante envolveu o ar. Do outro lado da visão, uma sombra se formava. Alta, de cabelos escuros e olhos como duas luas mortas.
A figura caminhou lentamente, e a luz parecia se curvar diante dela.
— E eu — disse a nova voz, grave e melancólica — sou a parte esquecida dessa história.
Mayara deu um passo para trás, sentindo o coração bater descompassado. Mas a Rainha não se moveu. Apenas olhou para a recém-chegada com tristeza e ternura.
— Noctra... — disse a Rainha, e apenas esse nome bastou para que Mayara sentisse uma corrente de energia atravessar seu corpo.
A mulher sombria sorriu de canto. — Então finalmente a menina me vê.
Mayara encarou as duas, confusa. — Quem é você?
A Rainha respondeu, com lágrimas contidas:
— Ela é minha irmã. Sua tia. Aquela que um dia dividiu comigo o poder da floresta... e que se perdeu tentando entender o equilíbrio entre luz e escuridão.
Mayara ficou sem fala. O mundo ao redor parecia se mover mais rápido, como se a visão a tragasse por dentro.
— Você... é parte do meu sangue? — perguntou ela, com um tom quase de medo.
Noctra se aproximou lentamente. Sua presença era intensa, envolvente, e os olhos — tão escuros que refletiam o próprio vazio — pareciam querer ver através da alma de Mayara.
— Eu sou o que resta do poder original, menina. Aquele que nasceu quando a floresta ainda era selvagem e os deuses caminhavam entre os homens. Sua mãe escolheu a luz. Eu escolhi o conhecimento. E o conhecimento me levou à escuridão.
A Rainha balançou a cabeça, triste.
— Você buscou o poder acima do amor, Noctra. E foi isso que a destruiu.
— Não — respondeu Noctra, firme. — Foi o medo da luz que me destruiu. O medo de enxergar que ambas são necessárias. E agora... — seus olhos pousaram sobre Mayara — ...essa verdade corre em suas veias. Luz e trevas, unidas em um só corpo. A herdeira das duas forças.
Mayara sentiu uma pontada no peito. Um calor e um frio ao mesmo tempo. O símbolo no centro de sua mão — o mesmo que havia brilhado durante a cerimônia dos doze — acendeu-se com uma mistura de dourado e roxo. A fusão.
— Eu não quero escolher entre vocês — disse ela, firme. — Eu quero entender. Quero unir o que foi separado.
A Rainha sorriu, mesmo entre lágrimas. — Então, talvez, você seja o elo que nós não conseguimos ser.
Noctra estendeu a mão, e uma chama n***a flutuou sobre sua palma. — Para unir luz e trevas, será preciso mais do que bondade, menina. Será preciso coragem para olhar dentro do abismo... e não se perder nele.
Mayara olhou para aquela chama e, por um instante, quis tocá-la. Mas quando deu um passo, o chão da visão começou a ruir. A luz e a escuridão se misturavam, como um redemoinho. As duas figuras — sua mãe e sua tia — começaram a se afastar, tragadas pela névoa.
— Espere! — gritou Mayara, estendendo a mão.
Antes que desaparecessem, a voz da Rainha ecoou pela última vez:
— Procure pelas Cavernas do Coração da Terra. Lá, as respostas dormirão. E lá... o seu destino desperta.
A visão se desfez.
Mayara abriu os olhos, ofegante.
O fogo do acampamento havia se apagado, restando apenas cinzas. O céu começava a clarear. Os primeiros raios do sol tocavam as árvores quando ela se levantou, sentindo o corpo vibrar com uma energia diferente — como se dentro dela algo antigo tivesse acordado.
Kael se aproximou, observando-a atentamente. — Você não dormiu, não é?
Ela apenas balançou a cabeça. — Eu vi minha mãe... e Noctra.
O rosto de Kael empalideceu. — Noctra? O nome das antigas crônicas?
Mayara assentiu. — Ela é minha tia. E... parte das trevas.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Até que Kael, com sua serenidade costumeira, disse:
— Então agora entendemos por que você é o elo. A força das trevas corre em seu sangue tanto quanto a da luz. O equilíbrio sempre esteve em você.
Ela o encarou, determinada. — Precisamos ir às cavernas. As Cavernas do Coração da Terra.
Aurora, que se aproximava com um mapa em mãos, ouviu a última frase e ergueu as sobrancelhas. — As cavernas proibidas? Aquilo é mais velho que qualquer templo. Dizem que foram construídas pelos primeiros guardiões.
Mayara respirou fundo. — Então é lá que precisamos estar.
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A jornada começou ao nascer do sol.
Os doze guardiões seguiam à frente, abrindo caminho por entre as raízes gigantescas. Kael caminhava ao lado de Mayara, silencioso, mas atento a cada passo dela. O ar se tornava mais denso à medida que avançavam — e o som de algo profundo, como batidas de coração, começou a ecoar do subsolo.
— Está ouvindo isso? — perguntou Aurora, cautelosa.
— O coração da Terra — respondeu Mayara, com a voz firme. — Está vivo.
Quando chegaram ao fim da trilha, uma imensa f***a se abria diante deles. Dela emanava uma luz azulada, e correntes de ar quente subiam do abismo. Mayara aproximou-se, estendendo a mão. A energia a reconheceu. O símbolo em seus punhos brilhou novamente, e uma ponte de energia surgiu, ligando as duas bordas da f***a.
— Ela abriu o caminho — murmurou Kael, admirado.
— Então vamos — disse Mayara, dando o primeiro passo.
Dentro das cavernas, o ar era úmido e vibrava como se estivesse cheio de magia antiga. Nas paredes, inscrições brilhavam em línguas esquecidas. Em cada curva, runas mostravam cenas antigas — a criação da floresta, a guerra dos deuses, e duas irmãs separadas pelo destino.
Mayara parou diante de uma das inscrições. Duas mulheres de traços semelhantes — uma envolta em luz, outra em sombras. Abaixo, uma profecia escrita em uma língua que só ela parecia compreender:
> “Quando a herdeira das duas luas despertar, o mundo voltará a respirar.”
Ela tocou a parede, e por um instante, o chão tremeu.
O coração da Terra pulsou novamente, mais forte. E uma voz antiga, profunda como o tempo, ecoou ao redor:
— A união começou. Mas o preço do equilíbrio será cobrado.
Mayara fechou os olhos, sentindo uma lágrima escorrer. — Eu sei... — sussurrou. — E estou pronta.
Kael colocou a mão sobre o ombro dela, firme. — Não importa o que venha, nós enfrentaremos juntos.
Mayara ergueu o olhar, e no reflexo das pedras viu sua própria imagem — metade iluminada, metade coberta por sombras.
Ela sorriu.
— Que assim seja.
E ao dar mais um passo nas profundezas da caverna, as luzes nas paredes se acenderam, como se a própria Terra saudasse o retorno da herdeira da luz e das trevas.