Capítulo 16 – Vozes do Subsolo

529 Words
A noite havia sido longa, mas a alvorada trouxe consigo um fio de esperança. O acampamento ainda dormia sob o manto de folhas encantadas, mas Mayara já estava desperta, sentada à beira do rio onde pequenas flores de lótus mágicas flutuavam. O frasco com a sombra pulsava ao seu lado, e em suas mãos, antigos pergaminhos abertos revelavam inscrições esquecidas do tempo. A runa que havia visto em sua visão estava ali, repetida diversas vezes nos registros dos magos da Lua Escarlate. Ela murmurava palavras ancestrais, tentando compreender o significado. O nome “Abyssus” se repetia nas páginas, sempre acompanhado de símbolos que indicavam profundidade, ruptura e uma origem não pertencente àquela dimensão. Algo mais antigo que os próprios elfos, mais sombrio que as trevas da Noite Eterna. Arleo se aproximou em silêncio, sentando-se ao lado dela. Seus dedos tocaram levemente os dela. — Dormiu alguma coisa? — ele perguntou, a voz baixa. — Um pouco... — respondeu. — Mas minha mente não para. Esse ser, esse... “Abyssus”, não é só um espírito corrompido. É uma entidade que existe desde antes da criação da floresta. E parece que alguém — ou algo — está tentando libertá-lo. — Você acha que é isso que está por trás da corrupção de Milena? Mayara assentiu. — Não foi ela quem procurou a escuridão. Ela foi escolhida. Alguém a usou como receptáculo. Talvez até mais de uma pessoa... Ela olhou para o frasco, onde a sombra se agitava em fúria. — Vou precisar estudar mais. E talvez... descer até as cavernas da base da floresta. Arleo franziu o cenho. — Os Túneles Raízes? — Sim. Lá onde a floresta toca o subsolo profundo, onde a magia é crua e instável. Dizem que é lá que a voz da floresta sussurra seus segredos. Se houver algo que possa nos preparar para enfrentar essa entidade, é lá que estará. --- Enquanto isso, no acampamento, Milena ainda repousava, mas Kael já despertava. Suas mãos tremiam, mas seus olhos procuravam apenas uma coisa: a figura de Milena, deitada sob um véu protetor de luz. Ele tentou se levantar, e apesar dos protestos das curandeiras, caminhou até ela. — Milena... — sussurrou. — Não me abandone. Você lutou tanto... Ele se ajoelhou ao lado dela, segurando sua mão. Pela primeira vez desde que se conheceram, a escuridão dentro dela pareceu recuar. Apenas um pouco. Como se a presença de Kael lhe trouxesse uma fagulha de paz. --- Ao entardecer, Mayara convocou todos. Os guardiões, as curandeiras, Milena, Kael, Arleo, Aurora, Leia. Todos estavam reunidos ao redor da fogueira central. — Amanhã, eu partirei para os Túneles Raízes. Não peço que venham comigo, pois é perigoso. Mas preciso ir. Arleo se adiantou. — Onde você for, eu irei. Leia cruzou os braços. — E você não vai sozinha, né. Eu te protegi desde criança. Não vou parar agora. Kael, mesmo ferido, assentiu. — Também irei. Milena, surpreendendo a todos, levantou-se. Sua voz ainda fraca, mas firme: — Eu também. Mayara hesitou. — Você ainda está se recuperando... — Justamente. Quero entender. Quero lutar por mim. E por você. A decisão estava tomada. Ao amanhecer, desceriam.
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