A noite havia sido longa, mas a alvorada trouxe consigo um fio de esperança. O acampamento ainda dormia sob o manto de folhas encantadas, mas Mayara já estava desperta, sentada à beira do rio onde pequenas flores de lótus mágicas flutuavam. O frasco com a sombra pulsava ao seu lado, e em suas mãos, antigos pergaminhos abertos revelavam inscrições esquecidas do tempo. A runa que havia visto em sua visão estava ali, repetida diversas vezes nos registros dos magos da Lua Escarlate.
Ela murmurava palavras ancestrais, tentando compreender o significado. O nome “Abyssus” se repetia nas páginas, sempre acompanhado de símbolos que indicavam profundidade, ruptura e uma origem não pertencente àquela dimensão. Algo mais antigo que os próprios elfos, mais sombrio que as trevas da Noite Eterna.
Arleo se aproximou em silêncio, sentando-se ao lado dela. Seus dedos tocaram levemente os dela.
— Dormiu alguma coisa? — ele perguntou, a voz baixa.
— Um pouco... — respondeu. — Mas minha mente não para. Esse ser, esse... “Abyssus”, não é só um espírito corrompido. É uma entidade que existe desde antes da criação da floresta. E parece que alguém — ou algo — está tentando libertá-lo.
— Você acha que é isso que está por trás da corrupção de Milena?
Mayara assentiu.
— Não foi ela quem procurou a escuridão. Ela foi escolhida. Alguém a usou como receptáculo. Talvez até mais de uma pessoa...
Ela olhou para o frasco, onde a sombra se agitava em fúria.
— Vou precisar estudar mais. E talvez... descer até as cavernas da base da floresta.
Arleo franziu o cenho.
— Os Túneles Raízes?
— Sim. Lá onde a floresta toca o subsolo profundo, onde a magia é crua e instável. Dizem que é lá que a voz da floresta sussurra seus segredos. Se houver algo que possa nos preparar para enfrentar essa entidade, é lá que estará.
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Enquanto isso, no acampamento, Milena ainda repousava, mas Kael já despertava. Suas mãos tremiam, mas seus olhos procuravam apenas uma coisa: a figura de Milena, deitada sob um véu protetor de luz. Ele tentou se levantar, e apesar dos protestos das curandeiras, caminhou até ela.
— Milena... — sussurrou. — Não me abandone. Você lutou tanto...
Ele se ajoelhou ao lado dela, segurando sua mão. Pela primeira vez desde que se conheceram, a escuridão dentro dela pareceu recuar. Apenas um pouco. Como se a presença de Kael lhe trouxesse uma fagulha de paz.
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Ao entardecer, Mayara convocou todos. Os guardiões, as curandeiras, Milena, Kael, Arleo, Aurora, Leia. Todos estavam reunidos ao redor da fogueira central.
— Amanhã, eu partirei para os Túneles Raízes. Não peço que venham comigo, pois é perigoso. Mas preciso ir.
Arleo se adiantou.
— Onde você for, eu irei.
Leia cruzou os braços.
— E você não vai sozinha, né. Eu te protegi desde criança. Não vou parar agora.
Kael, mesmo ferido, assentiu.
— Também irei.
Milena, surpreendendo a todos, levantou-se. Sua voz ainda fraca, mas firme:
— Eu também.
Mayara hesitou.
— Você ainda está se recuperando...
— Justamente. Quero entender. Quero lutar por mim. E por você.
A decisão estava tomada.
Ao amanhecer, desceriam.