Antes que eu pudesse falar de mim, eu já olhava, atônita, o meu reflexo no espelho.
Eu encarava aquela imagem que eu não sabia o significado
Me divertia com o reflexo daquela pessoa que era parecida comigo, mas talvez não fosse exatamente eu
O que seria “exatamente eu”?
Antes que eu pudesse falar de mim
Eu unia as portas espelhadas do meu guarda-roupa e me escondia no vão entre as duas, para ver meu próprio reflexo dividido em 6 partes
Eu me divertia com as 6 partes e imaginava como seria se existissem 6 eus
6 pessoas exatamente como eu
mas ainda não sabia quem era eu
Antes que eu pudesse falar de mim
Já existia uma voz a dizer quem eu sou, então eu deixei que essa voz falasse por mim
Essa voz era a minha mãe e a mãe dela
a igreja que eu frequentava
meu pai um tanto ausente na infância, e o anseio pelo seu abraço
Essa voz era Deus, conforme me apresentaram. E também era o modo como eu nunca deixei que Ele se apresentasse, neurótica obsessiva que sou, com medo do incerto e do desconhecido
Essa voz era meu superego rígido que continha bem mais que as 6 partes do reflexo das portas do guarda-roupa
Era um amontoado de vozes de gente que eu lembro, e de gente que eu jamais vou saber. o Outro é quem sabe
Embora eu queira que ele se cale
Antes que eu pudesse falar de mim, eu já implorava para que os outros falassem primeiro e me dissessem do meu próprio desejo
Antes que eu pudesse falar de mim
eu escondia meu desejo e o buscava no desejo do outro. queria morar lá, naquele mundo distante
Antes que eu pudesse falar de mim
me vi sem voz e sem saber se um dia iria enfim falar de mim
agora eu
falo.