Mais um texto de Teresa...
Nunca me esqueço dessa frase, dita pelo Christian Dunker, provavelmente no Café Filosófico, não tenho muita certeza. Diz respeito ao ato de narrar as nossas histórias. Dunker cita um exemplo que proporciona muita reflexão: Primo Levi, em seu livro autobiográfico “É isto um homem?”, tem sonhos perturbadores, em que fala sobre seu sofrimento vivido no campo de concentração nazista, mas não é ouvido. As pessoas ao seu redor bocejam e mostram-se claramente desinteressadas acerca dos fatos narrados.
Assim, estamos diante da importância de narrar nossas próprias histórias, mas também, de sermos ouvidos com atenção e sensibilidade ao fazê-lo.
Se a forma como falamos sobre o que sentimos, modifica o modo como sentimos, ter essa narrativa validada pelo outro é parte fundamental do processo. Para falar sobre o assunto, podemos ir um pouco mais além. No cristianismo, por exemplo, há o sacramento da confissão (inclusive, podemos encontrar artigos científicos que exploram melhor a ideia da psicoterapia como um legado deixado pelo ato de confissão). A escuta das nossas confissões, traz imediato alívio, porque externamos aquilo que antes era demasiadamente sufocante devido ao peso da culpa. Quase como libertar um animal de uma jaula que, desesperado, precisa sair e seguir outros rumos. Esses mesmos outros rumos também são tomados pelas palavras ao serem libertas.
A psicoterapia proporciona o mesmo movimento mas, no caso dessa, baseada em princípios éticos e qualificação da escuta. Qualificação que permite que o sujeito narre o seu sofrimento e as suas queixas, sem sentir-se acuado pela possibilidade de ser exposto, ou mesmo, pela possibilidade de não ter a sua dor devidamente validada e acolhida.
Outra frase que muito me marcou, assim como a do Dunker citada no começo, foi sobre como nós, e aqui falo de psicoterapeutas (atuantes e em formação), somos só uma pequena pedra no caminho. Uma pedra que o indivíduo pisará para tomar um impulso e, desse impulso, alçará voos guiados por seu próprio potencial. Como se cada um de nós já tivéssemos as respostas que procuramos, e não precisássemos de um outro que intervenha nos dizendo o que fazer. Pelo contrário, necessitamos de um outro que nos escute para que as nossas próprias palavras delineiam o caminho a ser percorrido, de forma autônoma.
As respostas moram dentro de nós, muitas vezes, em lugares que ainda não conhecemos. Os vasculhamos com a ferramenta da narração das nossas histórias. Ao falar do que sentimos, encontramos esses espaços esquecidos até, quem sabe, alguns baús empoeirados, dentro destes podemos nos surpreender com o encontro inesperado dessas respostas que não imaginávamos saber. Quando as encontramos, por meio da fala e da escuta do outro, abrimos espaço para a tão desejada transformação. Afinal, o modo como falamos sobre o que sentimos, muda o que sentimos.