Texto 10
Se quiser voar
Tive sonhos. E como é de praxe nesse universo onírico, nada faz o menor sentido. Temos a percepção de que existem vários ambientes e pessoas distintas. Diálogos confusos, difíceis de serem recordados plenamente no dia seguinte.
Porém, há aqueles que se tornam memoráveis, por serem marcantes ou repetitivos. Estes, eu guardo com especial carinho e atenção, pois acredito que há uma verdade ali. Um tesouro escondido na loucura do universo onírico, com seus cenários confusos que se modificam sem explicação, sem o menor sentido.
Outro dia, um amigo especial me disse que eu buscava muito o sentido da vida, quando toda a realidade nos indica que ele não existe. Eu senti desamparo e questionei: então o que eu faço agora?
Ele me respondeu: “viva”
Havia leveza em sua resposta, a leveza de quem acha muito natural simplesmente viver. Como se viver fosse algo demasiadamente simples e eu estivesse complicando com essa história de buscar um sentido.
Na verdade, desde que me lembro, eu estou sempre tentando entender o sentido da minha existência, do porquê estou aqui e para onde realmente vou. Uma filósofa nata.
A busca de sentidos e explicações mais profundas sobre tudo, sempre me acompanharam. Eu captava a intensidade dessa busca. Ela me rendeu textos que eu guardo com carinho em uma caixa cheia de cadernos com os mais variados escritos dos meus sentimentos sobre o mundo. Uma busca que resultou em algo produtivo: a escrita e a possibilidade de me fazer entendida por quem lê, por um outro que pode sentir o mesmo que eu, e então nos abraçamos simbolicamente. Eis o poder transformador dos encontros. Com o outro e com as palavras desse outro.
Voltando aos sonhos porque, como é perceptível, eu me perco em divagações.
Nos sonhos citados no começo, uma antiga colega da faculdade me dizia repetidamente: você precisa aprender a ser só. Pesquisando textos para a escrita de um artigo, encontrei um que intitulava-se: Estar só.
Não acredito em acasos, em meras coincidências. Para alguém que cuja novela preferida é sobre uma mulher que se transforma em onça, percebe-se que o apego à racionalidade, a aquilo que é concreto e objetivo, nunca fez parte de mim. Vai ver que daí meu amor pela filosofia, que em nada tem de concreta ou objetiva.
Acredito nesse recado onírico: aprenda a ser só. E também no texto encontrado no dia seguinte reafirmando o mesmo imperativo. E sabe? Acredito que há sentido na existência, apesar de tantas vezes, não parecer.
Só que esse sentido não é dado. Nós o criamos. O problema é que, quase sempre, diferentes atravessamentos (familiares, culturais, dentre outros) estão sempre a nos determinar um sentido, a fim de que ele se apresente pronto.
Parafraseando Raul em “O carimbador maluco”, é quase como se o sentido de nossa existência tivesse que ser “selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado, se quiser voar”
Nisso, deixei de acreditar. Hoje, se eu quiser voar, será criando o meu próprio sentido. Do mesmo modo como os sonhos se apresentam como um compilado de situações confusas as quais nós encontramos/criamos um sentido em toda essa “bagunça”.
Essa criação é sempre solitária, afinal, o sonhar é pessoal, e o sentido que encontramos depois, ao acordarmos, também. Se trata de uma boa solidão. No entanto, assim como em meu citado sonho e, discordando do carimbador maluco: se quiser voar, é preciso aprender a ser só.