Texto 9:
Vazio
Agora eu sei de onde vem todo o meu vazio. Descobri lendo Clarice, num dia chuvoso de sábado. Deus sabe como amo dias chuvosos e nublados, acho que eles têm a cor da minha alma. Uma alma nublada. Melancólica e cinzenta. Não acho isso r**m. A maioria das pessoas apreciam o sol e dias azuis, eu gosto deles também, quando estou caminhando na areia da beira da praia e sinto as ondas lavando os meus pés. No entanto, tenho especial apreço por dias nublados, cinzas, chuvosos. Amo tempestades, raios e trovões. Sei dos riscos que envolvem esses fenômenos naturais, mas me encanto ao assisti-los ou só ouvi-los. Me sinto viva. Daí que veio a minha crença de que a minha alma tem a cor de um dia chuvoso, dia de tempestade. Chuva de São Pedro também, meu querido e santo amigo.
Meu vazio vem porque acredito que, minha alma, além de nublada e cinzenta, não gosta do plano em que está. Não vê sentido nesse lugar, e ela está certa porque volta e meia todos os seres humanos lidam com a falta de sentido em suas existências. Para a minha alma, encontrar, ou melhor, criar (porque não acredito que encontramos e sim inventamos) um sentido, é demasiado cansativo. Existir parece um trabalho tão árduo para ela que, às vezes ela me pede, em tom desesperado, para que abandonemos juntas esse corpo. Falo de mim no plural porque creio ser plural, como todos são.
Meu vazio vem da crença de que tudo isso é tão passageiro, efêmero e por vezes cansativo, que não vale a pena. Meu vazio vem desse desejo da minha alma nublada, de ir morar com meu criador. Só que o meu criador não me quer perto dele agora. Eu entendo, com pesar, afinal, foi ele quem me criou, então sabe exatamente para quê sirvo e onde devo estar. Um dia esse plano passará, e eu habitarei em outro, que me parece tão mais interessante. Só que mesmo nesse, eu de vez em quando toco o outro plano, afinal eles coexistem. Podemos atravessar, às vezes, o véu que os separa. Para alguns, esse véu é tão espesso que torna o outro lado inexistente, para outros e, aqui falo de mim, esse véu é tão fino e leve, que sinto que pode se rasgar a qualquer momento. Então eu habitarei os dois mundos ao mesmo tempo. Acho que é essa a falta que eu sinto, a falta do outro lado. O vazio deixado pelo outro mundo. Cada vez mais, eu sinto que me aproximo dele, sem qualquer medo. Então eu estarei completa.
Enquanto isso, nesse plano concreto, tangível, fugaz e efêmero, eu vou aguentar o máximo que puder, e quando for insuportável, como às vezes é, vou me lembrar que aqui rimos até a barriga doer, que existem beijos muito bons e roupas que meu corpo ama vestir. Vou lembrar que é tão passageiro porque não é o lugar mais importante. É só um degrau, uma etapa. Meu desafio é vencer essa etapa, chegar ao final, sem ter desistido no caminho, sabendo apreciar as coisas do outro mundo que nos invadem de vez em quando. Sabendo principalmente que, na linha de chegada, estará o meu criador me esperando. O meu amado. Meu querido amado, invada esse plano e me faça feliz.