Eu fiquei parado no meio da sala, encarando a porta branca onde Lara Duarte se escondeu. Ela aceitou a chave. Ela se trancou.
Minha mão ainda formigava onde a pele dela tocou a minha. Meu corpo ainda estava dolorosamente rígido, o sangue bombeando com uma ferocidade que exigia alívio. Mas ela não estava mais ali para oferecê-lo.
Eu estava sozinho na minha gaiola de vidro.
A frustração s****l se transformou, em questão de segundos, em algo muito mais frio e perigoso. Raiva. Uma fúria branca e pura que precisava de um alvo.
Eu não ia dormir. Não com o cheiro dela impregnado no sofá e o fantasma do toque dela nas minhas mãos.
Peguei meu celular.
— Roca — minha voz saiu um rosnado.
— Don Juan. Estamos monitorando o perímetro da Torre. Tudo calmo.
— Esqueça o perímetro. Onde está Batista?
Houve uma pausa do outro lado da linha.
— O ex-capataz? Ele está no Galpão 4, na zona velha. Bebendo até cair, pelo que meus homens dizem. Ele não aceitou bem a demissão pública.
— Não o deixe sair — caminhei até o elevador, pegando minha arma no console do hall. — Estou indo.
***
O Galpão 4 cheirava a maresia podre, ferrugem e urina. Era um dos depósitos que meu pai mantinha por sentimentalismo, uma relíquia dos tempos em que o contrabando era feito em barcos de pesca de madeira, não em contêineres de aço.
Entrei. A luz amarela e fraca pendia do teto alto, iluminando a poeira que dançava no ar.
Batista estava sentado em um caixote, uma garrafa de aguardente barata pela metade na mão. Dois dos meus soldados estavam parados nas sombras, vigiando.
Quando me viu, Batista tentou se levantar, mas cambaleou. Ele estava bêbado, sujo e parecia ter envelhecido vinte anos desde o cemitério.
— Você... — Ele apontou um dedo trêmulo para mim. — Veio zombar mais um pouco? Veio chutar o cachorro morto?
Caminhei até ele, meus sapatos italianos fazendo um som nítido no concreto sujo.
— Quem contratou os Bascos, Batista?
Ele piscou, confuso. A menção ao clã rival pareceu perfurar a névoa do álcool.
— O quê? Bascos? Do que você está falando, rapaz?
Saquei a arma. O movimento foi fluido, treinado. Apontei o cano para a testa dele.
— Miguel está morto. Degolado na minha própria casa. O tablet dele sumiu. Informações sobre a minha vida, sobre a mulher que está comigo... tudo vendido.
Destravei a segurança.
— Você era o único com motivo. O único com ódio suficiente. O único que sabia como chegar a Miguel.
Os olhos de Batista se arregalaram. O medo sóbrio tomou conta dele.
— Não... Juan, não! — Ele largou a garrafa, que se estilhaçou no chão. — Eu te odeio, sim! Eu acho você um moleque arrogante que vai destruir o legado do Don Diego! Mas eu sou Tenorio! Meu sangue é leal! Eu jamais contrataria aqueles açougueiros de aluguel para atacar a família!
— Você me humilhou no enterro. Eu te humilhei de volta. E você revidou. É o que um homem fraco faria.
— Eu não fiz isso! — Ele caiu de joelhos, chorando. — Pela alma do seu pai! Eu preferiria morrer a trair o clã para estrangeiros! Deve haver outro...
— Não há outro — eu disse, frio. — O mundo me odeia, Batista, mas o mundo me teme. Só alguém de dentro teria a coragem.
— Você vai cometer um erro! — Ele gritou, a saliva voando. — Você é cego! Sua arrogância te cega! Você não é um Don, você é apenas um assassino!
— Eu sou o Clã.
Apertei o gatilho.
O som foi ensurdecedor no espaço fechado.
Batista caiu para trás, o buraco na testa fumegando. O silêncio voltou, mais pesado do que antes.
Olhei para o corpo. Esperei sentir a satisfação. O alívio. A sensação de justiça feita.
Mas não senti nada. Apenas o recuo da arma na minha mão e o zumbido nos meus ouvidos.
— Limpem isso — ordenei aos soldados, guardando a arma. — E garantam que todos saibam o que acontece com traidores.
Virei as costas e saí para a noite fria. O problema estava resolvido. Lara estava segura.
Voltei para a Torre Tenorio quando o céu começava a clarear, pintando o horizonte de cinza e roxo.
Passei na academia do prédio, nos andares inferiores. Tomei um banho gelado, esfregando a pele até ficar vermelha, tentando tirar o cheiro de pólvora e galpão velho. Vesti uma roupa limpa que guardava no armário de lá.
Subi para a cobertura.
A luz da manhã invadia a sala de vidro, impiedosa, revelando cada detalhe do luxo frio onde eu vivia.
Lara já estava acordada.
Ela estava sentada no mesmo sofá branco, as pernas encolhidas sob o corpo. A porta do quarto de hóspedes estava aberta.
Nas mãos dela, estava o jornal impresso do dia. A tinta fresca manchando os dedos dela.
A manchete em letras garrafais gritava a plenos pulmões:
"O MONSTRO DOS PORTOS".
Lara levantou os olhos do papel quando eu entrei.
Ela olhou para a manchete que ela mesma escreveu. Depois olhou para mim. Para o meu cabelo molhado, para a minha postura rígida, para os olhos de quem não dormiu e acabou de tirar uma vida.
Ela sabia. De alguma forma, ela sabia que o homem com quem ela não se deitou ontem... andava com o peso de mais uma alma roubada.
Eu caminhei até o bar e servi um café preto.
— Bom dia, Lara — minha voz estava rouca. — O café da manhã será servido em breve.
Ela não respondeu. Apenas continuou me olhando, segurando o jornal como um escudo. O monstro que ela criou no papel agora estava de pé na frente dela, em carne e osso.
E o pior de tudo: o traidor estava morto, mas a sensação de perigo na minha nuca... ela não tinha ido embora.