O café estava preto e amargo, exatamente como o meu humor.
Lara estava sentada à minha frente na mesa de vidro, vestida com a mesma roupa de ontem. Ela parecia lavada, recomposta, a armadura de jornalista de volta ao lugar.
O jornal com a manchete "O MONSTRO DOS PORTOS" estava dobrado ao lado da xícara dela, como um troféu ou uma arma fumegante.
O silêncio na cobertura não era de paz. Era o silêncio de um tribunal antes da sentença.
— Eu cumpri a minha parte — ela disse, quebrando o gelo. A voz dela era firme, mas seus dedos tamborilavam na mesa. — O site da Gazeta caiu duas vezes hoje de manhã, por causa da quantidade de acessos. As ações da sua empresa abriram em baixa histórica. O conselho está pedindo sua cabeça.
Ela empurrou o jornal na minha direção.
— O mundo te odeia, Juan. Exatamente como você pediu.
Tomei um gole do café, sentindo o líquido quente descer pela garganta, tentando lavar o gosto de pólvora que parecia ter grudado no fundo da minha boca desde a noite passada.
Ah, ela era ótima.
— Excelente trabalho, Duarte — eu disse, sem emoção. — Você é muito eficiente em destruir coisas.
— Posso ir para casa agora?
Olhei para ela. Para os olhos castanhos que me desafiaram, para a boca que eu tinha beijado até ficar inchada. Uma parte de mim, a parte egoísta que Vênus alimentava, queria dizer não.
Queria mantê-la aqui, trancada, até que ela esquecesse o mundo lá fora e lembrasse apenas do toque da minha mão. Da promessa de tudo que eu podia proporcionar a ela.
Mas eu não podia.
Batista estava morto. O traidor foi eliminado. O contrato com os Bascos foi cancelado. Manter Lara aqui agora não era proteção; era sequestro. E eu não sou um carcereiro.
Ainda.
— Sim — respondi, colocando a xícara na mesa. — O problema foi... neutralizado. O contrato acabou. Você está livre.
Lara soltou o ar, os ombros relaxando visivelmente. Ela se levantou rápido, pegando a bolsa e o notebook, ansiosa para fugir da minha gravidade.
— Vou chamar o elevador — eu disse, levantando-me.
Caminhamos até o hall de entrada. A distância entre nós parecia quilométrica. Ontem à noite, eramos fogo e gasolina. Hoje de manhã, eramos estranhos com segredos sujos.
Apertei o botão. As portas de aço se abriram.
— Adeus, Juan — ela disse, parando na soleira. Ela não olhou para trás. Não houve beijo de despedida, nem promessa de retorno. Apenas a pressa de voltar para a normalidade.
— Adeus, Lara.
Ela entrou. As portas começaram a deslizar para fechar.
Foi quando meu celular tocou.
O som agudo cortou o ar. O mesmo toque de emergência. Roca.
Atendi imediatamente, um instinto r**m arrepiando os pelos da minha nuca.
— Fale.
— Don Juan... — A voz de Roca estava sem fôlego, com o som de vento e sirenes ao fundo. — Perdemos a carga.
Franzi a testa.
— Que carga?
— O carregamento especial do Porto Sul. Os fuzis de assalto para o Rio de Fevereiro. Foi interceptado.
O mundo parou.
— Interceptado pela polícia?
— Não, senhor. Por homens mascarados. Profissionais. Eles emboscaram o comboio na saída das docas. Levaram tudo.
Olhei para o meu relógio de pulso.
— Quando?
— Agora mesmo. Há uns dez minutos. Ainda estamos apagando o incêndio dos caminhões.
O celular quase escorregou da minha mão.
Dez minutos atrás.
Batista estava morto há seis horas. O corpo dele já devia estar frio em algum necrotério clandestino ou no fundo da baía.
Batista não poderia ter coordenado um ataque militar complexo de dentro de um caixão.
A realização me atingiu com a força de um soco físico.
Eu errei.
Eu matei o homem errado. Batista era um bêbado, um ressentido, um idiota... mas era inocente da traição. Eu executei um leal ao sangue Tenorio baseado em uma coincidência e na minha própria arrogância.
E o pior: o verdadeiro traidor, ou o verdadeiro inimigo, ainda estava lá fora. Rindo. E ele acabara de roubar um arsenal de guerra.
Roubo de carga militar. Isso não é coisa de funcionário descontente. Isso é coisa de Clã rival.
Guerrero.
Levantei os olhos. As portas do elevador estavam a centímetros de se fechar, escondendo Lara Duarte de mim. Escondendo-a da minha proteção.
Se o inimigo ainda estava ativo... Lara ainda era um alvo. Se eu a deixasse sair naquele saguão, ela estaria morta antes do meio-dia.
— Não! — Gritei.
Avancei e enfiei a mão entre as portas de aço. O sensor de segurança apitou e as portas recuaram.
Lara, que já estava encostada no fundo do elevador, olhou para mim assustada.
— O que foi? O que você está fazendo?
Entrei na cabine, invadindo o espaço dela, forçando-a a recuar contra o espelho. O pânico subiu em seus olhos.
— Saia — ordenei.
— O quê? Não! — Ela abraçou a bolsa contra o peito. — O acordo acabou! Você disse que eu estava livre!
— O acordo mudou — agarrei o braço dela e a puxei para fora do elevador, de volta para o hall da cobertura. — O homem que eu matei não era o mandante.
Ela tropeçou, tentando se soltar, mas eu não a larguei. Arrastei-a para dentro da sala e bati a mão no painel da parede, ativando as travas de segurança máxima.
— Do que você está falando? — Ela gritou, a voz trêmula de medo. — Você matou alguém? E não era ele?
Virei-me para ela. Eu devia parecer insano. A culpa pelo erro com Batista e o medo por ela se misturavam numa tempestade tóxica dentro de mim.
O CEO se chocava com o Don.
— A guerra não acabou, Lara — eu disse, minha voz baixa e terrível. — Ela acabou de começar. E você não vai sair daqui.
— Você não pode me prender aqui! Eu tenho uma vida!
— Você tem um alvo nas costas! — Gritei de volta, fazendo-a se encolher. — Roubaram uma carga militar minha há dez minutos. Quem quer que esteja fazendo isso não está brincando. Se você sair por aquela porta, eles vão te pegar para me atingir. E dessa vez, não vai haver resgate.
Caminhei até o quarto para pegar meu colete à prova de balas e outra arma.
— Fique aqui. Não abra para ninguém.
— Onde você vai? — Ela perguntou, a voz pequena, derrotada, olhando para a porta trancada.
Parei, ajustando o coldre no ombro. Eu não ia cometer o mesmo erro duas vezes. Dessa vez, eu não ia atrás de um fantasma. Eu ia atrás de um rival.
— Vou lembrar a Héctor Guerrero quem é o Rei dessa cidade.