O elevador desceu, levando-a para longe, mas o cheiro dela permaneceu.
Eu me deixei cair no sofá branco, exatamente onde nós quase queimamos um ao outro minutos atrás. Joguei a cabeça para trás, encarando o teto escuro da cobertura, ignorando a vista de São Pietro lá fora.
Eu estava sem camisa. O ar-condicionado central mantinha a sala numa temperatura ártica, mas meu corpo ainda fervia. O sangue ainda pulsava pesado nas minhas veias, concentrado, doloroso e delicioso.
Lara... Lara Duarte.
Eu passei o polegar no meu lábio inferior. Ainda podia sentir o gosto dela. Vinho, menta e desafio. O gosto da resistência.
A maioria das mulheres que eu trazia aqui olhava para a vista e via cifrões. Lara olhou para a vista e viu injustiça. E quando eu a toquei... ela não se derreteu como uma fã; ela entrou em combustão como uma igual.
Ela fugiu. Ajeitou o seu vestido de brechó e correu para o elevador como se o d***o estivesse em seus calcanhares.
Que ela corresse. A caçada é a melhor parte.
Eu fechei os olhos, permitindo-me imaginar o próximo encontro. Dessa vez, eu trancaria o elevador.
O zumbido do meu celular na mesa de vidro quebrou o silêncio.
Não era um toque de chamada. Era o padrão de vibração do canal seguro. O canal da família.
Abri os olhos, irritado. Quem ousava me interromper agora?
Estiquei o braço e peguei o aparelho. A tela brilhou no escuro.
Mensagem de: Capataz Roca. "Assunto urgente. Aguardamos o senhor na Villa Tenorio."
Eu bufei.
Villa Tenorio. A velha mansão do meu pai. Um mausoléu de pedra e madeira escura, isolado na parte rural do estado, cercado por vinhedos que não produziam uvas e cães de guarda que comiam carne crua.
Ficava a duas horas de viagem daqui. Duas horas enfadonhas de estrada escura para lidar com algum problema menor de contrabando ou alguma disputa territorial i****a entre soldados.
Eu não estava com humor para viajar. Eu não estava com humor para o passado do meu pai.
Digitei a resposta, meus dedos batendo com força na tela.
Eu: "Não vou sair da cidade. Fale por aqui. Agora."
A resposta demorou trinta segundos.
O celular vibrou novamente.
Dessa vez, não havia texto. Apenas uma imagem carregando.
Eu franzi a testa. Roca sabia que eu odiava enigmas. Se ele me fizesse perder tempo com bobagens, ele teria o mesmo destino de Batista.
A imagem carregou.
O ar saiu dos meus pulmões. O calor que eu sentia por Lara evaporou instantaneamente, substituído por um gelo que começou na base da minha espinha e congelou meu estômago.
Não era uma disputa territorial.
Era Miguel.
Meu assistente. O fantasma eficiente que estava comigo no cemitério, que organizou a reunião com a diretoria, que me entregou o relatório sobre Lara.
O homem que conhecia o lado legal e o lado sujo do meu império melhor do que ninguém.
Na foto, Miguel estava sentado em uma cadeira na sala de jantar da Villa Tenorio.
Sua cabeça estava tombada para trás em um ângulo antinatural. A garganta... não havia mais garganta. Apenas um corte profundo, cirúrgico, de orelha a orelha. O sangue ensopava o terno impecável que ele usava horas atrás.
Mas não foi o corte que me fez levantar do sofá num salto.
Foi o que estava na boca dele.
Enfiada entre os dentes de Miguel, havia uma moeda antiga de ferro. E, cravada no peito dele com uma faca, uma boina preta.
Eu conhecia aquela assinatura. Eu a tinha comprado muitas vezes.
Os Bascos.
O Clã Basco. Os executores. Os cães de guerra que deveriam ser leais a quem pagasse mais. Eles eram meus aliados. Eu os pagava milhões para manter a paz.
Alguém cobriu a oferta.
Alguém pagou a Iñaki e seus homens para entrarem na minha casa ancestral, na fortaleza do meu pai, e degolarem meu braço direito.
Isso não era um aviso. Era uma declaração de guerra.
Eu joguei o celular no sofá. O desejo por Lara, a excitação, o jogo de sedução... tudo isso foi trancado em uma caixa no fundo da minha mente.
O Don Juan que sorria para jornalistas morreu naquele momento.
Caminhei até o quarto para pegar uma arma e uma camisa preta. A viagem de duas horas não seria enfadonha. Seria o início de um m******e.