O som das travas de aço deslizando na porta foi o ponto final da discussão.
Eu fiquei parada no meio do hall, olhando para o painel do elevador onde os números desciam rapidamente. 40... 30... 20... Térreo.
Juan tinha ido embora.
E ele não saiu como um executivo atrasado para uma reunião de negócios. Ele saiu como um soldado marchando para o front. O colete à prova de balas ajustado sobre a camisa preta, o coldre no ombro, o olhar gelado de quem já aceitou que pode ter que matar ou morrer antes do almoço.
Caminhei até a parede de vidro, abraçando o meu próprio corpo. A cidade lá embaixo parecia tranquila, cinza sob a poluição matinal, indiferente ao fato de que seu "Rei" acabara de declarar guerra.
"Vou lembrar a Héctor Guerrero quem é o Rei dessa cidade."
A frase ecoou na minha mente.
Não era linguagem corporativa. CEOs não falam em "reinados". Eles falam em market share, em ações, em conselhos administrativos. Juan falava como se São Pietro fosse um território feudal e ele fosse o monarca com a espada na mão.
Minha mente de jornalista, que tinha sido silenciada pelo medo e pelo desejo nas últimas horas, finalmente acordou.
O homem da boina. A saída às pressas para comprar um rival que queria matar quem se envolvesse com ele. O medo de que outros me matassem para atingi-lo. E agora, Héctor Guerrero.
Isso não era espionagem industrial. Nem de longe. Isso era crime organizado.
Corri para o sofá e peguei meu notebook. Não o que Juan me ofereceu, mas o meu velho de guerra, amassado e cheio de adesivos, que estava na minha bolsa.
Abri o navegador e digitei o nome que ele gritou.
Héctor Guerrero.
O resultado da busca encheu a tela com imagens de brilho, luxo e excesso.
Héctor Guerrero não era um fantasma. Ele era uma celebridade. O dono do Cassino Royale de São Pietro, da rede de hotéis Palazzo e de metade das casas noturnas da zona sul.
As fotos mostravam um homem bonito, de uma beleza agressiva e latina, sempre cercado por modelos, políticos e jogadores de futebol.
Ele era o Rei da Noite, assim como Juan era o Rei do Dia.
Li as manchetes antigas.
"Guerrero inaugura novo resort de luxo na orla." "Escândalo abafado: Filho de deputado encontrado em festa privada no Cassino Royale." "Império do Entretenimento: Como Héctor Guerrero revitalizou o turismo noturno."
Tudo parecia legítimo na superfície. Entretenimento, hotelaria, turismo. Mas, como jornalista, eu sabia ler as entrelinhas. Havia rumores. Sempre havia.
Sussurros sobre o que acontecia nos quartos VIP dos hotéis, sobre garotas que chegavam do interior com promessas de carreira de modelo e acabavam dançando nas boates dele.
Mas nunca nada concreto. Nenhuma denúncia formal.
Recostei-me no sofá, a compreensão me atingindo como uma onda fria.
Juan Tenorio. Logística, portos, transporte. Héctor Guerrero. Cassinos, hotéis, noite.
Por que o dono de uma empresa de logística estaria armado até os dentes indo caçar o dono de uma rede de cassinos?
Não fazia sentido no mundo dos negócios legais. Eles não eram concorrentes. Um transportava contêineres, o outro vendia fichas de pôquer.
A única razão para uma guerra... era se o que eles realmente vendiam e transportavam não estivesse nos relatórios anuais.
— Submundo — sussurrei para a sala vazia.
Juan não era apenas um CEO corrupto ou tirano, como eu escrevi. Ele era algo muito pior. Ele era parte de uma engrenagem que eu nem sabia que existia em São Pietro.
Eu olhei para o jornal na mesa.
"O MONSTRO DOS PORTOS".
Eu achei que estava destruindo a reputação dele por causa de monopólio e taxas abusivas. Que piada. Eu estava atirando pedras em um tanque de guerra.
Juan não me prendeu aqui porque tinha medo de processos ou da imprensa. Ele me prendeu porque, lá fora, homens como Héctor Guerrero resolviam disputas comerciais com fuzis de assalto, não com advogados.
Levantei-me e fui até a janela novamente.
Meus olhos varreram o horizonte, tentando localizar onde ficavam os territórios de Guerrero, as luzes de neon que agora estavam apagadas sob o sol.
Em algum lugar lá fora, Juan estava caçando. E pela primeira vez, o medo que senti não foi dele. Foi por ele.
Porque se Juan Tenorio não voltasse daquela caçada, eu estaria trancada nesta gaiola de ouro, esperando o próximo "Rei" vir reivindicar o espólio.
E eu tinha a terrível sensação de que Héctor Guerrero não seria tão... paciente quanto Juan.