Abigail
Acordei com a luz suave atravessando as cortinas do quarto medieval. O colchão ainda guardava o calor da noite passada, mas o espaço ao meu lado estava vazio. Levei alguns segundos para entender que Lourenço não estava mais ali. Pensei que talvez tivesse descido para o café da manhã ou estivesse cuidando de algo discreto, como sempre fazia. Mas à medida que os minutos passavam, o silêncio foi ficando pesado demais.
Levantei, enrolei-me no lençol e fui até a janela. O carro dele não estava mais no estacionamento do castelo. Meu coração deu um pulo. Tentei me convencer de que ele voltaria logo, mas algo dentro de mim dizia que não era uma ausência comum.
Olhei para o criado-mudo. Nada. Nenhuma carta, bilhete, mensagem. Apenas o perfume dele no travesseiro, misturado ao gosto amargo de abandono.
Não poder ser, ele não foi embora, Lourenço não iria embora depois da noite de ontem.
Desci até a recepção, ainda tentando manter alguma esperança.
— O senhor Lourenço saiu muito cedo — disse o atendente, educado. — Pediu que preparássemos a conta e partiu com urgência. Parecia preocupado.
— Ele... disse para onde ia? — perguntei, com a voz já embargada.
— Não, senhorita. Apenas que precisava voltar para a Itália.
Itália.
Sicília.
Aquela palavra soou como um rompimento.
Eu queria cair no chão e chorar desesperadamente, mas me manteve firme.
Voltei ao quarto, em silêncio. Sentei na beira da cama, e por alguns minutos, não consegui sentir nada além do vazio. Ele se foi. Sem uma despedida. Sem uma explicação. Sem um último olhar.
Eu estava mergulhada numa espécie de estupor emocional quando ouvi o celular vibrar. Mas não era Lourenço. Era minha prima, perguntando se eu ia aos treinos hoje.
Por um segundo, tive vontade de jogar o aparelho contra a parede. Mas então respirei fundo e respondi com um simples:
“Sim. Estarei lá.”
Agora é tudo que me resta é esquecer Lourenço Romano.
Lourenço – algumas horas antes
O telefone tocou antes mesmo do sol nascer. Seu pai nunca ligava sem um bom motivo.
— Alô?
— Lourenço... sua mãe está no hospital. Ela teve uma crise respiratória. Os médicos dizem que é grave. Preciso que volte. Agora.
O coração dele disparou. A voz do pai estava firme, mas cansada. A matriarca da família Romano sempre foi a força invisível que mantinha tudo de pé, até mesmo os negócios escuros da máfia. E agora, ela estava por um fio.
Minha mãe sempre foi chamada da dama de ferro, por comanda a máfia ao lado do meu pai, ante de mim assumi .
Lourenço olhou para Abigail, adormecida ao seu lado. Tão linda, tão serena, tão alheia à guerra que ele carregava por dentro.
Ele queria ficar. Queria dizer a ela que precisava partir, que não era um adeus, mas um até logo. Mas não conseguiu. Tinha medo de vê-la desmoronar. Tinha medo de desmoronar com ela.
Então foi embora em silêncio.
Deixou o castelo, o amor, o calor, e voltou para a escuridão da Sicília.
Abigail – de volta à rotina
Dois dias se passaram. Nenhuma mensagem. Nenhuma explicação. A ausência de Lourenço se transformou em um buraco fundo dentro de mim, mas eu decidi afundar minha dor em algo que sempre me salvou: a luta.
Voltei para a academia como quem retorna ao campo de batalha. A cada golpe no saco de pancadas, era como se eu estivesse expulsando a frustração, a saudade e aquela sensação horrível de ter sido descartada.
— Você está mais agressiva — comentou Miguel, meu treinador. — Aconteceu alguma coisa?
— Só estou focada — menti.
— Bom. Vai precisar disso. A seletiva está a menos de um mês. Você é uma das favoritas, mas vai ter que suar.
— Vou ser campeã e dar este orgulho para meu pai, falo focada no treino
E eu suei. Dia após dia.
Comecei a chegar mais cedo e sair mais tarde. Fiz treinos extras, assisti vídeos de lutas antigas, corrigi minhas falhas, melhorei meus reflexos. Não havia espaço para distrações, sentimentos ou esperanças.
Lourenço era um capítulo em branco que eu decidi não escrever mais. Se ele não teve coragem de se despedir, então talvez não tenha sido tão verdadeiro quanto eu pensava.
Mas, mesmo assim, em noites silenciosas, eu ainda sentia o fantasma do toque dele. O calor dos braços que me acolheram. A voz que sussurrava meu nome como se fosse a única palavra que importava.
Sicília – Vila Romana
Lourenço chegou à propriedade da família sob forte esquema de segurança. As oliveiras balançavam suavemente, como se estivessem conscientes da tensão que pairava no ar.
Sua mãe estava no hospital, ligada a aparelhos. O tempo parecia congelado naquele quarto. O pai m*l falava. Pietro, sim, estava lá — o irmão mais novo, com o rosto tenso e os olhos escuros.
Eles m*l se olhavam.
Ambos sabiam que havia algo não dito entre eles. Lourenço sentia, no fundo, que Pietro escondia algo relacionado àquela garota. Abigail. O nome dela ainda doía quando surgia em sua mente.
Ele não sabia que Abigail já conhecia Pietro. Não sabia que ele foi o garoto que a magoou na juventude. Que a ferida de Abigail tinha o mesmo sobrenome que a dor da família Romano.
Ele sabia que Pietro e Abigail estudaram na mesma escola, que eram amigos, talvez tiveram um namoro bobo.
Mas, cedo ou tarde, tudo viria à tona.
Abigail – dias depois
Já não me importava mais com mensagens que não chegavam. Com promessas não feitas. Com amores não ditos.
Meu foco era o campeonato.
Em pouco tempo, eu voltaria aos ringues. Eu lutaria não apenas contra outras atletas, mas contra todos os fantasmas do passado.
Se Lourenço voltasse... ele teria que me encontrar mais forte, mais fria.
E talvez, até lá, meu coração já não fosse mais dele.
Talvez eu tenha nascido para ficar sozinha, talvez o amor não seja para mim.
Agora tudo que quero é ganha o campeonato para que meu pai sinta orgulho da filha que seguiu seus passos.
Mas o destino tem muitas surpresas no caminho de Abigail.