Abigail
Ainda ofegante, deixei a boate para trás, sentindo o gosto amargo do beijo roubado de Pietro queimando em meus lábios. O vento gelado da noite parisiense tocava meu rosto molhado pelas lágrimas. Eu corria sem rumo, mas o destino parecia saber exatamente para onde me levar.
E lá estava ele: Lourenço.
Encostado em seu carro luxuoso, o olhar firme suavizado por uma expressão preocupada. Quando me viu, abriu os braços, e sem hesitar, corri para ele como uma criança que finalmente encontra abrigo.
— Alguém te machucou lá dentro? — ele perguntou, alisando meu rosto com delicadeza.
— Não... só fantasmas do passado — murmurei, tentando esconder o abalo em minha voz. — Me tira daqui, por favor.
— Com o maior prazer — respondeu com um tom malicioso, mas também protetor. Seu jeito sempre me confundia: rude e carinhoso, selvagem e gentil... como fogo e vinho.
Ele abriu a porta para mim, ajustou o cinto de segurança com mãos firmes, e logo estávamos a caminho. Eu achei que ele me levaria para sua casa — onde, semanas atrás, entreguei meu corpo sem pensar nas consequências. Mas não.
O carro seguiu por ruas estreitas, afastando-se da cidade até que, como num conto de fadas, surgiu diante de nós um castelo antigo. Ele fora transformado em hotel de luxo, com torres medievais iluminadas por luzes douradas e janelas em arco. Um verdadeiro refúgio.
— O que é este lugar? — perguntei encantada.
— Um segredo meu — ele sorriu de lado. — Achei que você precisava de um pouco de paz. E de um jantar decente.
O restaurante ficava em um dos salões do castelo, com candelabros pendurados, móveis em madeira escura e uma lareira acesa criando uma atmosfera de sonho. Ele me ofereceu o braço, como um cavalheiro, e seguimos até a mesa reservada.
Eu já ouvido falar deste lugar em Reims, mas nunca tinha vindo, também nunca pensei que fosse tão lindo assim.
Como se estivesse num conto de fada.
Sou tirada dos meus pensamentos com a voz grossa de Lourenço dizendo.
— Você está linda esta noite — disse ele, me olhando com intensidade, como se enxergasse cada centímetro da minha alma.
— Mesmo com o rímel borrado?
— Especialmente assim. Mostra que você é real.
Senti o coração bater forte. Lourenço tinha esse poder: ele me desarmava com um olhar, com uma frase, com o calor de sua presença. E naquele ambiente, isolados do mundo, era como se só existíssemos nós dois.
O jantar começou com vinho tinto italiano e uma entrada de bruschettas. Em seguida, uma massa artesanal feita com trufas e queijo derretido, regada com azeite de oliva. Eu não conseguia parar de observar a forma como ele segurava os talheres com elegância, a cicatriz pequena que cortava sua sobrancelha, o jeito como seus olhos escuros me vigiavam, como se quisesse me decifrar.
— Você não fala muito sobre você — comentei, entre um gole e outro.
Ele apoiou os cotovelos na mesa e suspirou.
— Perdi minha esposa para uma doença c***l. Faz quase três anos. Depois disso, não restou muito em mim. A máfia... os negócios... tudo virou automático. Até que você apareceu. E eu não sei se você vai me salvar ou me destruir, Abigail.
Minhas mãos tremeram um pouco sobre o guardanapo. O tom dele era grave. Havia dor em suas palavras, mas também um desejo desesperado de recomeço.
— Eu não quero destruir ninguém, Lourenço. Nem ser salva por ninguém. Só quero... viver. Sem ser ferida de novo.
Ele me encarou por longos segundos. Seus olhos procuravam algo nos meus — talvez sinceridade, talvez perdão. Ou talvez estivesse à beira de dizer algo que ainda não tinha coragem.
E ele não disse. Pelo menos, não ainda.
Depois do jantar, caminhamos pelos jardins do castelo. As flores noturnas exalavam um perfume suave, e as estrelas pareciam mais próximas. Em silêncio, ele entrelaçou os dedos aos meus. Senti que poderia me perder ali para sempre.
Paramos diante de uma fonte antiga. Ele me puxou pela cintura, lentamente, e me beijou.
Dessa vez, não houve pressa. O beijo foi diferente de tudo que já senti. Não havia roubo, não havia dor, não havia dúvida. Havia entrega. Uma dança silenciosa entre dois corações partidos.
E eu me entreguei. De novo.
Subimos para o quarto do hotel — uma suíte com paredes de pedra, velas acesas e uma cama digna de realeza. Ele me despiu como se estivesse abrindo um presente precioso. Cada toque era reverente, como se quisesse me reconstruir com as mãos. Naquela noite, fizemos amor como quem se despede do passado. Como quem esquece tudo que machuca.
Eu dormi em seus braços, sentindo que finalmente havia encontrado meu lugar no mundo.
Mas o destino adora brincar com corações feridos.
O que eu não sabia — o que Lourenço ainda não teve coragem de me contar — é que Pietro, o mesmo garoto que me fez chorar na escola, o mesmo que me humilhou na minha festa de quinze anos, o mesmo que roubou meu primeiro beijo e partiu meu coração... era seu irmão mais novo.
Lourenço tinha mandado investigar Abigail, ele descobriu o envolvimento de seu irmão com ela, mas não sabia de todas as maldades que seu irmão fez como ela.
Ele achou melhor não conta muito coisa para Abigail, sobre sua família e o que fazem.
Lourenço é um homem quebrado e mando por violência.
E que ele, Lourenço — o homem que me seduz, me envolve e me oferece um mundo novo — é o chefe da máfia italiana. Um homem marcado por perdas, que me vê como uma chance de salvação... ou como uma maldição.
Enquanto eu dormia em seus braços, sonhando com amor, eles estavam acordados... vivendo um passado que em breve cairia sobre nós como uma tempestade.
Tudo que eu queria era fica com Lourenço, mesmo que minha família não aceite nossa diferença de idade.
Lourenço tem muitos segredos, eu pretendo descobrir e vou lutar para ficar com ele, nem mesmo Pietro pode me fazer muda de ideia, o que eu sentia por Pietro ficou no passado.
Era o que eu pensava.