Luz reveladora

1183 Words
Dante - Dante, isso precisa parar! - Aquele conversa ocupava a maioria dos meus sábados. Eu continuava mantendo a minha promessa de vir almoçar com os meus pais, e sempre era cobrado pelo meu estado de espírito. E nos últimos meses, a abordagem do meu pai se tornou cada vez mais direta. - A sua vida não acabou, meu filho. Mas, você vive amargurado, sendo uma sombra do que um dia pode vir a ser. - Orlando, por favor! - A minha mãe sempre tentava me proteger, e isso só me deixava com mais raiva. - Se afundar em tristeza não vai fazer eles voltarem a vida! - O meu pai falou a frase de efeito que faltava, para ultrapassar o meu limite. Empurrei o prato com mais força do que deveria e fiquei de pé. - Pai, nada vai fazer eles voltarem a vida! - Respondi. - O que mais espera de mim? - A pergunta retórica correu pela sala. - Eu segui os seus passos, assumi a empresa, fiz faculdade e pós-graduação. Sou o CEO mais novo do Brasil a ser premiado por inovação e tripliquei a nossa fortuna. O que mais você precisa de mim ??? - A minha voz estava alta agora, e eu sentia a dor queimar no meu coração. - Quero que seja feliz, meu filho. - Ele falou, baixo. - Desde que os Vasconcelos morreram, você nunca mais foi o mesmo. - Fechei os olhos e precisei lutar contra as imagens que me enchiam de saudade. - Eu perdi os meus melhores amigos naquele dia. O homem que deveria ser o meu sócio, a menina que eu sonhava em me casar, pai. Isso, sem falar dos meus padrinhos! - Afirmei com força. - Parte de mim morreu queimada com eles naquela noite! Durante parte da minha vida, eu vi uma parceria única entre a família Vasconcelos e a minha família, os Salvatores. O meu pai, Orlando Salvatore cresceu com o Hélio Vasconcelos, e dessa amizade de infância, uma rede de afeto se criou. As esposas, a minha mãe Júlia e a esposa do Hélio, Sílvia, se tornaram amigas quase que imediatamente, bem como os seus filhos. Eu sou filho único, mas até os meus 17 anos, não me senti assim. O Matheus, era o irmão que eu nunca sonhei em ter, e como tínhamos poucas semanas de diferença em idade, vivemos tudo juntos. Tínhamos planos audaciosos, de tornar a empresa dos nossos pais a maior da América do Sul no ramo de tecnologia, e estávamos nos preparando para o vestibular, quando a tragédia aconteceu. E o quarto membrö daquela família eu normalmente, evito pensar, porque a perda dela era dolorosa em dose dupla. Naquela noite eu perdi a minha amiga e a minha única paixão. Luísa Salvatore tinha apenas 15 anos, mas era muito madura para a própria idade, e sempre me tratou com pouco mais do que carinho, e conforme eu assistia ela crescer, a cada dia, eu sentia o meu sentimento por ela mudar. No dia da tragédia eu a beijei pela primeira e única vez. Foi um beijo roubado, depois do parabéns do aniversário de 15 anos dela, e eu nunca vou esquecer dos olhos dela brilhando, cheios de expectativas, quando eu puxei ela para mim e realizei a minha maior vontade dos meses anteriores. - Eu perdi os meus amigos e os meus afilhados, Dante! E definhei por quase dois anos por isso, mas a vida continua. - O meu pai falou com uma calma que eu duvidava que ele sentisse. - Eles merecem ser honrados, e é vivendo que fazemos isso. Senti os meus olhos encherem de água, como todas as vezes que esse assunto acontecia, mas o meu pai parecia convicto em me convencer dessa vez. - Estou vivendo, pai! - Menti, com toda a força que eu tinha. - Preciso listar tudo o que eu já realizei? - Filho, você pode ser o homem mais rico do planeta, mas não é isso que quero. - Ele falou com calma. - Nunca mais vi um sorriso verdadeiro em você. Nunca mais você se envolveu com ninguém, nem os seus amigos acreditam na sua amizade. - Eu entendia as intenções do meu pai. Eu sabia exatamente o que ele estava exigindo, mas eu não tinha forças nem vontade de nada daquilo. Os amigos que fiz depois de perder o Matheus e a Luísa, foram sempre distantes demais. Eu sempre tive medo de me abrir de novo, da mesma forma, e sofrer outro golpe. As mulheres que toquei, nunca foi por mais do que uma noite. Depois da Luísa, eu beijei apenas uma mulher, e assim que senti os lábios dela nos meus, me afastei. A dor que rasgou o meu coração era incontrolável, e eu não queria sentir isso nunca mais! A minha frieza era famosa entre a alta sociedade carioca e eu não me importava com isso. Quanto mais as pessoas me temessem, mais distante ficariam, e era melhor assim. - Preciso ir. - Declarei, quando ficou difícil respirar. Beijei a minha mãe, que sempre chorava em conversas como essa, e dei as costas. Foram horas perdido em pensamentos, jogado no meu sofá, depois daquilo e eu realmente considerei dar um bolo no Júnior. Eu não estava em condições de fingir estar bem, não hoje, não quando as lembranças pareciam tão vivas na minha cabeça. Foi com um esforço fora do comum que levantei e me arrumei para ir na despedida de solteiro, e precisei de todas as minhas forças, para colocar um sorriso no rosto ao chegar lá. Afinal, eu sou o padrinho dessa merdä! 20 homens estavam bêbados e felizes em volta do noivo, e isso foi um alívio, porque eu não precisava fingir qualquer ânimo. Depois de horas assistindo homens imaturos e bêbados demais dando em cima das dançarinas, eu respirei finalmente com alívio. A última dança da noite foi anunciada, e essa seria a minha deixa para ir embora. As luzes diminuíram e suspirei quando ouvi a voz nos alto falantes da boate. - Temos um futuro ex-solteiro essa noite? - Os homens que estavam comigo gritaram e se aproximaram do palco, prontos para babar em mais um corpo seminü. A silhueta era apenas uma sombra quando começou a se mover no palco, e eu comecei a contar na minha cabeça quanto tempo levaria a tal apresentação. Os movimentos da moça eram leves e fluidos, e quando ela girou o corpo no ferro preso ao palco, eu me arrumei na cadeira, realmente impressionado. A luz mudou de novo, e agora era possível ver a moça por completo. Ela estava de costas, movendo os quadris na cara do Júnior, e percebi uma pequena multidão se movendo conforme o corpo da menina. Ela deu um giro, e outra onda de gritos a acompanhou, seguida de aplausos. Quando a moça parou, de frente para as pessoas, e teve o rosto completamente revelado pela luz, eu senti o ar sair dos meus pulmões, a vida fugir do meu corpo, e a minha alma voar, para nunca mais voltar.
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