VITÓRIA NARRANDO No caminho até a penitenciária, minha cabeça fervilhava. Pensamentos se embaralhavam, se sobrepondo em um turbilhão de preocupações, planos e medos. Entre todos, um insistia com mais força: como eu ia tirar minhas coisas de lá sem que o Felipe percebesse. Eu tinha comprado muita coisa para aquela casa, mobiliado cômodos, escolhido cada objeto com uma ideia vaga de futuro. Mas, naquele momento, não fazia mais questão de levar nada. Nada que carregasse o peso daquela vida. Só queria as coisas que minha avó deixou para mim: o cobertor de tricô, a foto no porta-retrato de prata, a bíblia com as páginas marcadas. Essas sim, eram minhas. O resto… eu me viro. Eu reconquisto. Do zero, se for preciso. Foi quando, quase por reflexo, meus olhos encontraram o retrovisor. Um carro.

