FERA NARRANDO Quando a gaiola fechou atrás de mim e eu voltei pra cela, o barulho do ferro batendo ecoou mais alto do que devia. Não era o som da prisão. Era o som da ideia tomando forma. Sentei no colchão fino, encostei as costas na parede fria e fiquei olhando pro nada. A cabeça longe dali, presa nas palavras da doutora. Vitória. Esse era o nome dela. Não parecia nome de quem escolhe trabalhar num lugar como aquele. Não parecia nome de quem desafia guarda, muito menos de quem arrisca o próprio casamento pra proteger um preso. E era isso que não entrava na minha cabeça. Ninguém ajuda de graça naquele mundo. Ainda mais alguém como eu. Ainda mais ali dentro. Ela tinha falado com convicção. Olho no olho. Sem medo, sem tremedeira. Disse que odiava injustiça. Disse que não aceitava abuso

