capitulo 19

1289 Words
VITÓRIA NARRANDO O Fera tá brincando com fogo. E o pior de tudo é que eu sinto, no fundo do peito, que no final dessa história quem vai acabar se queimando sou eu. Desde o dia em que eu fiz aquela ligação — a ligação que ele pediu, com a voz firme demais pra alguém que vive algemado — nada mais ficou em paz. O tal do Sombra começou a me ligar direto. Número diferente, chamadas curtas, sempre nos horários mais improváveis. Às vezes só perguntava se tava tudo “tranquilo por aqui”. Outras vezes queria saber se tinha movimentação estranha, se os guardas estavam mais tensos, se o clima tava pesado. E o problema não é nem ele ligar. O problema é o medo. O medo de o telefone tocar quando eu estiver em casa. O medo de o Felipe ouvir. O medo de tudo desmoronar de uma vez. Porque se tem uma coisa que o Felipe não tolera é perder o controle. E eu sei — eu sei com uma clareza que dói — que, se ele descobrir qualquer coisa, não vai ser uma discussão. Vai ser punição. Eu não tô achando r**m o Sombra ligar. Não mesmo. Em algum lugar distorcido dentro de mim, isso me faz sentir menos sozinha. Mas esse conforto vem sempre acompanhado de um frio na espinha, de uma sensação constante de estar andando na beira de um abismo. E o Fera… O Fera todo dia vai parar na enfermaria. Todo santo dia. Sempre uma briga diferente. Sempre um corte novo, um hematoma, sangue seco no canto da boca. No começo, os guardas ainda fingiam surpresa. Agora, nem isso. Eles só jogam ele na maca como quem larga um saco pesado no chão. — Já falei pra você parar com isso — eu disse num desses dias, enquanto limpava o ferimento acima da sobrancelha dele. — Ninguém mais tá caindo nesse papinho. Você vai acabar na solitária. E de lá você não sai. Ele sorriu. Aquele sorriso torto, perigoso, de quem sabe mais do que fala. — O dia de sair dali tá se aproximando — ele respondeu baixo. — E você precisa ficar em alerta. Meu estômago revirou. — Alerta pra quê? — Pra hora que a sirene tocar. Meu corpo inteiro gelou. — Quando você ouvir, se protege. Não pensa. Não questiona. Só se protege. Desde esse dia, eu trabalho com medo. Medo constante. Silencioso. Grudado em mim como uma sombra que não desgruda. Cada barulho mais alto me faz pular. Cada grito ecoando pelos corredores me deixa com o coração disparado. Eu nunca sei quando é a hora certa. Nunca sei se aquele dia vai ser só mais um… ou o último antes do caos. E então, a sirene tocou. Foi um som diferente. Não mais alto — mais fundo. Mais pesado. Como se atravessasse o corpo antes mesmo de chegar aos ouvidos. Meu coração disparou tão forte que por um segundo achei que fosse desmaiar. Minhas mãos tremiam. Minhas pernas simplesmente não respondiam. Demorei alguns segundos pra conseguir sair do lugar. Quando ouvi a tranca próxima destravando, o instinto falou mais alto que qualquer pensamento. Corri até a porta da enfermaria e passei o ferrolho com força, as mãos escorregando de tão suadas. Do lado de fora, vozes. Muitas. Batidas fortes na porta. — Abre aí, doutora! Deixa eu ir te fazer companhia. — É emergência! — Abre essa p***a! A gente só quer brincar doutora. Meu celular começou a tocar em cima da mesa. O som parecia ensurdecedor naquele silêncio tenso entre uma batida e outra. Corri pra pegar. Felipe. Meu peito apertou. Recusei a chamada. O telefone vibrou de novo, alguns segundos depois. Uma mensagem apareceu na barra de notificação. Não precisei nem abrir pra saber que ia doer. “Se você tivesse me escutado, não estaria passando por isso. Quantas vezes eu te falei que esses marginais são perigosos? Quero ver como você vai sair dessa agora.” Passei a mensagem pro lado sem responder. Não tinha forças. Meu corpo inteiro tremia enquanto as batidas na porta continuavam, acompanhadas de vozes sujas, ameaças jogadas no ar sem pudor. Meu maior medo era simples e absoluto: eles abrirem aquela porta. Eu não conseguia pensar em outra coisa. Foi então que eu ouvi a voz dele. Foi como se algo dentro de mim se encaixasse no lugar. Quando ouvi o Fera do lado de fora, meu corpo inteiro pareceu entender, antes mesmo da minha mente, que ele ia me proteger. Um alívio tão grande me atravessou que meus olhos encheram de lágrimas na hora. Eu ainda tava com medo. Muito. Mas, do jeito mais louco e contraditório possível… do lado dele eu me senti segura. A porta foi aberta por ele. Não com delicadeza, mas com autoridade. O corredor tava um caos. Presos correndo, gritos, ordens sendo berradas pelos rádios dos guardas. Ele se colocou na minha frente sem pedir permissão. — Vem. Eu fui. E enquanto ele me levava pelo pavilhão, eu sentia os olhares em cima de mim. Muitos. Pesados. Curiosos. Mas ninguém — absolutamente ninguém — teve coragem de mexer comigo. Eu agradeci mentalmente por isso. Em determinado ponto do corredor, o clima mudou. Guardas surgiram na outra extremidade, avançando com escudos, cassetetes, armas apontadas. O Fera parou de repente. — Agora presta atenção — ele disse baixo, perto demais. Antes que eu entendesse, a mão dele subiu pro meu pescoço. Não apertou. Mas o suficiente pra parecer real. Fria. Firme. Em seguida, senti o metal de uma chave de f***a encostar de leve na minha garganta. Meu coração quase saiu pela boca. — O que você vai fazer pra sair daqui? — eu perguntei baixo, pra que os guardas não ouvissem. Meu corpo travou. A cena precisava parecer real. Eu sabia disso. Mesmo assim, o medo era verdadeiro. — Eu tô fazendo o serviço aqui de dentro — ele continuou. — E os meus caras tão fazendo o serviço do lado de fora. Apertei os olhos por um segundo. — Eu espero que você esteja certo — eu disse, a voz falhando de propósito — porque, se esse plano der errado… vocês estão perdidos. Ele riu. Um riso curto. — Chega a me ofender a tua pouca fé em mim, Doutora. Tu ainda não tá ligado das paradas que eu sou capaz. Mas fica em paz… você vai me conhecer melhor. Um dos guardas gritou: — Se afasta dela agora! O negócio vai ficar muito pior pra você! O Fera não se mexeu. — Isso é um aviso — ele respondeu. — E é melhor ouvir. Os policiais avançaram um pouco mais, escudos erguidos. O Fera pressionou levemente a chave de f***a na minha pele. Não doeu. Mas parecia que doía. — A única pessoa que vai abaixar qualquer coisa aqui são vocês — ele disse. — E é bom fazer isso logo, se não quiserem que eu machuque ela. Engoli em seco. — Por favor… — falei alto, tremendo de verdade — façam o que ele tá mandando. Eu acho melhor vocês ouvirem. Um dos guardas hesitou. — Vocês sabem quem é o marido dela? Essa frase caiu como uma bomba. Os guardas se entreolharam. Eu vi o exato momento em que a dúvida entrou na equação. O medo misturado com cálculo. O peso do nome do Felipe atravessando aquele corredor como uma ameaça invisível. E ali eu entendi. O Fera sabia exatamente o que estava fazendo. Sabia onde tocar. Sabia quais palavras usar. E, naquele instante, enquanto o caos tomava o presídio, eu percebi que já estava fundo demais pra fingir que ainda tinha volta. O fogo já tinha sido aceso. E eu… eu estava bem no meio dele.
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