Vitória narrando
Depois daquele dia cansativo, eu fui pra casa no automático. O corpo indo, a cabeça ficando pra trás, presa nos corredores frios da penitenciária, nos olhares tortos, nos silêncios que diziam mais do que qualquer ameaça dita em voz alta. Assim que entrei, larguei a bolsa em qualquer canto e fui direto pro banheiro. Precisava da água. Precisava daquele barulho constante pra abafar o resto.
Entrei no chuveiro e deixei a água escorrer pelo meu corpo como se pudesse levar junto o peso do dia. Fiquei ali parada, os olhos fechados, sentindo o calor bater na pele, tentando respirar direito. Como é que alguém consegue ser daquele jeito? Eu não entendo. Não entendo como aqueles guardas podem agir assim. Eles estão ali pra cumprir o serviço deles, pra garantir segurança, e usam a farda como desculpa pra abusar da autoridade, pra oprimir, humilhar, esmagar quem já tá no chão.
Não é sobre defender bandido. Nunca foi. É sobre humanidade. É sobre entender que ninguém perde o direito de ser tratado como gente.
A água descia pelo meu rosto misturada com algo que eu me recusava a chamar de lágrima. Não chorei. Só deixei cair.
Saí do banho depois de um tempo que eu nem sei medir. Enrolei a toalha no corpo e fui secar o cabelo em frente ao espelho. Meu reflexo parecia mais cansado do que o normal. Os olhos fundos, a expressão dura, como se eu tivesse envelhecido alguns anos em poucos meses. Passei a escova devagar, quase em transe, tentando organizar o cabelo enquanto a cabeça insistia em voltar para o mesmo lugar.
A penitenciária.
Os ferimentos.
O Fera.
Coloquei uma roupa confortável, passei meus cremes no rosto, aquele ritual automático que eu fazia mais por hábito do que por cuidado, e desci pra cozinha. Felipe não estava em casa. E, pela primeira vez no dia, eu agradeci por isso. Não tinha energia pra mais silêncio agressivo, mais olhares cheios de julgamento, mais tensão ocupando cada canto da casa.
Fiz uma tapioca simples com ovo, do jeito mais rápido possível. Enquanto a frigideira esquentava, espremi algumas laranjas pra fazer um suco. O som da fruta sendo apertada, o cheiro cítrico no ar… tudo parecia pequeno, quase insignificante, mas ao mesmo tempo era a única coisa concreta naquele momento. Era o que eu conseguia controlar. Já fui limpando tudo ora não deixar bagunça aqui depois.
Comi em silêncio, encostada na pia, sem nem sentir direito o gosto da comida. Depois subi pro quarto, deitei na cama e liguei a televisão e o ar-condicionado. A TV ficou ligada em algum canal qualquer, imagens passando, vozes falando coisas que eu não ouvi de verdade. Eu só fiquei ali, olhando pro nada, sentindo o cansaço me puxar pra dentro.
Apaguei.
Acordei no dia seguinte com a luz entrando pela janela. Olhei pro lado da cama e, como esperado, nenhum sinal do Felipe. Nem bagunça, nem barulho, nem presença. E, sinceramente, isso pra mim era ótimo. Eu não queria nem olhar na cara daquele escroto. Não hoje. Talvez nunca mais.
Levantei, fui tomar outro banho e me arrumei pra trabalhar. Enquanto colocava o uniforme, senti aquele aperto familiar no peito. A mistura de medo, responsabilidade e teimosia que vinha me acompanhando desde que eu aceitei aquele emprego. Eu sabia que estava andando em terreno perigoso. Sabia que estava cutucando um sistema que não gosta de ser questionado. Mas eu também sabia que não conseguiria dormir em paz fingindo que não via.
No caminho até a penitenciária, com o trânsito passando lento demais, meus pensamentos começaram a se organizar em algo mais concreto. Eu precisava saber se o Fera estava bem. Precisava confirmar se tudo aquilo que eu tinha ameaçado realmente tinha surtido efeito. Se ele ainda estava apanhando. Se tinha piorado. Se tinham só mudado a forma.
Só que eu não podia simplesmente pedir pra falar com ele. Não daquele jeito. Tudo ali precisava de justificativa, de protocolo, de papel. E foi então que a ideia surgiu.
Exame.
Eu podia alegar uma alteração. Dizer que precisava refazer. Não era totalmente mentira — com o histórico dele, qualquer exame podia, de fato, precisar de acompanhamento. Não tinha certeza se ia funcionar, mas eu precisava tentar. Era isso ou continuar no escuro.
Cheguei na penitenciária, passei pela revista de sempre. Bolsa aberta, olhares vasculhando cada compartimento como se eu estivesse escondendo uma bomba e não um estetoscópio. Engoli o incômodo e segui direto pra enfermaria.
Assim que cheguei, vi que o dia não ia ser tranquilo. Dois detentos tinham se pegado na porrada e estavam ali, algemados, sentados em lados opostos da sala pra evitar que se grudassem de novo. Um deles tinha a boca cortada, sangue seco no queixo, o outro com o supercílio aberto e o olho começando a inchar.
Respirei fundo e fui fazer o atendimento.
Comecei pelo da boca. Enquanto limpava o corte pra poder dar os pontos, ele não parava de falar. Falava alto, falava demais, falava coisas que me davam nojo.
— Doutora, você é linda demais pra estar num lugar desses… gostosa desse jeito… se desse uma chance pra um homem de verdade, eu te mostrava coisa boa…
Eu não respondia. Nem levantava o olhar. Fingir que não ouvia era, muitas vezes, a única forma de não dar combustível. Minhas mãos continuavam firmes, o foco no ferimento, no procedimento, no profissionalismo que ele nunca teria.
Ele riu quando percebeu que eu não reagia.
— Finge que não escuta não, doutora… mas eu sei que escuta.
Ignorei de novo. Terminei os pontos, limpei, fiz o curativo e me afastei.
— Tá feito. Não mexe. — falei seca, anotando tudo na ficha.
Atendi o outro em silêncio, preenchi a papelada do ocorrido e chamei o guarda que estava responsável por levá-los de volta pro pavilhão. Quando ele se aproximou, aproveitei.
— Eu preciso ver o Fera. — falei, direta.
Ele franziu a testa na hora.
— O Fera? Não tô sabendo de nada não, doutora.
— O exame dele apresentou alteração. Preciso refazer pra confirmar o que é. — respondi com firmeza, sustentando o olhar.
Ele me encarou por alguns segundos longos demais. Daqueles que não são só avaliação, são tentativa de intimidação. Eu não desviei. Se tinha uma coisa que eu tinha aprendido ali era que recuar só alimentava.
— A médica aqui sou eu. — completei. — E eu estou informando o que eu preciso fazer.
O silêncio se esticou entre nós. Eu sentia o coração bater mais rápido, mas mantive a postura. Finalmente, ele suspirou, como quem cede mais por preguiça do que por respeito.
— Espera aí. Vou deixar esses dois na cela e depois trago ele. — disse, antes de virar as costas.
Eu assenti, tentando não demonstrar o alívio que senti.
Enquanto aguardava, sentei na cadeira da enfermaria e respirei fundo. Não fazia ideia de como aquele encontro ia ser. Não sabia o que eu ia encontrar quando ele entrasse por aquela porta. Mas uma coisa era certa: eu não ia mais fingir que não via. Mesmo que aquilo me custasse caro depois.
Às vezes, ajudar alguém começa exatamente assim: indo contra tudo que manda você ficar quieta.