VITÓRIA NARRANDO Eu respirei fundo, tentando manter a calma. Meu primeiro impulso foi responder no mesmo tom, mas alguma coisa dentro de mim gritou que aquilo só ia piorar tudo. Ajustei a sacola no braço e falei, com a voz o mais controlada que consegui: — Me desculpa. Foi um acidente, eu tava distraída. Ela riu. Não foi uma risada engraçada, foi carregada de deboche. — Acidente? — ela repetiu, me olhando de cima a baixo. — Tu acha que eu sou o quê? Otária? Senti meu estômago embrulhar. Algumas pessoas em volta diminuíram o passo, curiosas. O morro tem disso: qualquer atrito vira espetáculo em segundos. — Eu já pedi desculpa — respondi, firme, mesmo com o coração acelerado. — Se você não quer aceitar, eu não posso fazer nada. Virei o corpo pra sair. Não queria confusão, não queria

