CAPITULO 17

1126 Words
SOMBRA NARRANDO A boca e o morro nunca dorme. Eles só muda de ritmo. Naquele dia, eu tava desde cedo resolvendo as paradas do morro. Cobrança atrasada, fornecedor pressionando, moleque novo querendo provar que é mais do que realmente é. O Fera preso bagunçou muita coisa, mas não desmontou a estrutura. Ele deixou tudo organizado antes de cair. E enquanto ele tá lá dentro, sou eu que seguro. Não por vaidade. Por necessidade. Se alguém vacila, o sistema engole. Eu tava sentado na minha sala, janela aberta, o som do morro vivo lá fora — moto subindo, criança gritando, rádio estalando aviso — quando um dos caras me acionou no rádio. — Sombra… a Samira tá aqui fora querendo falar contigo. Levantei o olhar devagar. — Samira? — Samira. Na hora, eu soube que aquilo não vinha coisa boa. Samira não aparece do nada. Samira só sobe quando quer alguma coisa. Ou quando acha que tem direito a alguma coisa. — Pode deixar passar — falei, seco. Os caras abriram caminho e ela entrou com o queixo erguido demais pra quem pisa onde pisa. Vestida simples, mas com aquela postura de quem acha que ainda manda em alguma coisa só porque foi fazer uma visita. Fechei a cara. — Fala logo, tô cheio de parada pra resolver. Ela nem sentou. — Eu vim saber da visita desse final de semana. E também preciso de dinheiro pra comprar as coisas pra fazer comida pra ele. Eu peguei uma lista lá do que entra e do que não entra, por que essa semana que passou eu acabei tendo que sair da fila pra ir deixar em uma barraca um pote com algumas coisas que não entraram. Cruzei os braços. — Tô vendo os detalhes ainda. Ela franziu a testa. — Como assim, vendo os detalhes? — Do jeito que eu falei — respondi, sem levantar a voz. — Tô vendo se vai ser você de novo. Ela riu, incrédula. Riu errado. Riu alto demais. — Sombra, o meu nome tá lá. Como é que vai outra pessoa? Olhei pra ela com calma. Aquela calma perigosa que antecede problema. — O que é que você ainda tá olhando? Ela respirou fundo, visivelmente irritada. — Eu tô olhando pra você como alguém que tá falando uma coisa que não faz sentido. É óbvio que sou eu que tenho que ir. Assinamos um papel de amazia, ou seja somos casados agora. A palavra casados ecoou na sala como provocação. Inclinei o corpo um pouco pra frente. — Casados? — falei. — Tu ta ganhando pra fazer isso. Ela piscou. — Como é que é? Foi aí que ela perdeu a noção das paradas. Levantei da cadeira. Não precisei gritar. Não precisei ameaçar. Só levantei. O silêncio caiu pesado. — Samira… — falei baixo. — Você esqueceu com quem tá falando. Ela travou. O dedo caiu. O rosto perdeu a cor. Os olhos correram pela sala, como se procurassem uma saída invisível. — N-não… — ela negou com a cabeça, dando um passo pra trás. — Eu só— — Some da minha frente — cortei. — Se eu tiver alguma parada pra falar contigo, eu te procuro. Ela engoliu em seco. — Mas a visita— — SOME. Ela virou quase correndo, tropeçando no próprio orgulho. A porta bateu forte quando saiu. Voltei pra cadeira devagar, respirando fundo. Samira sempre confundiu acesso com poder. E ali, naquele momento, eu precisava deixar claro que enquanto o Fera estivesse preso, quem manda nessa porr.a sou eu. Voltei pras paradas que tava resolvendo. Resolvi o que dava. Ajustei o que precisava. O rádio não parava. Mensagem entrando, cobrança saindo. O sol foi descendo sem pedir licença, e quando dei por mim, já era quase noite. As luzes do morro acenderam uma por uma. Foi quando meu celular vibrou em cima da mesa. Número desconhecido. Olhei pra tela por um segundo e rejeitei. Não atendo chamada assim. Quem precisa falar comigo sabe como chegar. Sabe o caminho. Sabe a regra. Mas o celular vibrou de novo. Mesmo número. Encostei na cadeira, pensando. Por um minuto, passou pela minha cabeça que pudesse ser o Fera. Não direto, claro. Nunca direto. Mas do jeito dele. Indireto, calculado, testando terreno. Atendi. — Alô? Do outro lado, silêncio por meio segundo. Depois, uma respiração contida. — Alô… — uma voz feminina. Baixa. Tensa. — Eu… eu tô ligando porque o Fera mandou. Meu corpo inteiro ficou alerta. — Quem é você? — Meu nome não importa — ela respondeu rápido. — Ele disse pra eu falar que o recado chegou. E que precisa agilizar as paradas pra ontem. Fechei os olhos por um segundo. Então era isso. — Onde você conseguiu esse número? — perguntei. — Ele me deu — ela respondeu. — Disse que você ia entender. Entendi mesmo. Endireitei na cadeira, prestando atenção no que ela falava — Então passa a visão Ela respirou fundo do outro lado. — Ele disse que era importante. Disse que… quando tudo tiver certo, as coisas viram. O mesmo discurso. O mesmo código. Ele tá pressionado — falei, pra mim mesmo — E quando o Fera se mexe, ninguém fica parado. — Eu só fiz o que ele pediu — ela disse, a voz tremendo agora. — Não sei exatamente no que tô me metendo. Soltei um meio sorriso sem humor. — Ninguém sabe — respondi. — Até estar dentro. Fiquei em silêncio por alguns segundos, organizando a cabeça. — Faz o seguinte — falei. — Tu vai falar pra ele que eu vou agilizar as paradas. se ligou? — Mas— — Sem mas — cortei. — pra tu tá me dando uma notícia dessa, é porque você deve trabalhar lá dentro e tem acesso até ele, então vou precisar de você pra levar o recado. Ela concordou em silêncio. — E… — completei. — precisamos saber o dia, então se informa melhor e me passa a informação completa. A ligação caiu logo depois. Fiquei olhando pra tela apagada do celular, sentindo o peso daquilo tudo. O Fera não pedia ajuda à toa. E se ele tinha colocado uma mulher no meio, era porque a situação lá dentro tava mais apertada do que parecia. E ele deve confiar nela. Levantei e fui até a janela. O morro tava vivo. Iluminado. Barulhento. Tudo funcionando. Mas por baixo daquela rotina, eu sabia: alguma coisa grande tava se mexendo. E quando o Fera dizia que “quando tudo tivesse certo, eles iam virar”… Não era figura de linguagem. Era aviso. Chamei o juninho, mandei reunir os homens porque agora nos próximos dias, o bicho vai pegar, e logo vamos trazer o Fera de volta pra casa, que é o lugar dele.
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