capitulo 12

1112 Words
VITÓRIA NARRANDO Depois que ele saiu da enfermaria algemado, escoltado de volta pra cela, eu fiquei parada por alguns segundos, olhando a porta fechar. Não foi muito tempo, mas o suficiente pra eu respirar fundo e tentar convencer meu próprio corpo de que, pelo menos por agora, ele estava em segurança. Os guardas tinham recuado. Não por consciência. Não por humanidade. Mas por medo. E isso, por mais errado que fosse, me deu um certo alívio. Voltei a organizar os tubos de ensaio, descartei as luvas, limpei a bancada como se fosse mais um dia comum. Como se eu não tivesse acabado de mentir, manipular e ameaçar indiretamente homens armados dentro de um presídio. Como se meu coração não estivesse batendo mais rápido do que deveria. Durante o resto do expediente, tentei me manter focada no trabalho. Atendi outros internos, preenchi prontuários, ouvi queixas repetidas, dores que às vezes eram reais, às vezes só uma tentativa desesperada de sair da cela por alguns minutos. Mas, mesmo com tudo isso, minha cabeça insistia em voltar pra ele. Pro jeito como ele me olhou quando percebeu que tinha algo errado. Pro jeito como entendeu tudo sem que eu precisasse explicar nada. Ele é perigoso. Eu sei disso. Não sou ingênua. Não romantizo o que ele é, nem o que fez. Mas existe uma linha muito clara entre cumprir uma pena e ser torturado, humilhado, espancado por quem deveria zelar pela lei. E essa linha estava sendo cruzada todos os dias ali dentro. Quando meu plantão acabou, eu senti o corpo inteiro pesar. Como se só então eu tivesse permissão pra sentir o cansaço, a tensão acumulada, o medo que eu vinha segurando desde cedo. Peguei minha bolsa, assinei a saída e caminhei até o estacionamento respirando fundo, tentando me preparar mentalmente pro que me esperava fora daqueles muros. No meio do caminho pra casa, o celular começou a tocar. Felipe. Olhei o nome piscando na tela e senti um aperto no estômago, seguido de uma irritação quase automática. Não atendi. Não tinha cabeça. Não tinha paciência. Não tinha vontade nenhuma de ouvir a voz dele. Deixei tocar. Chamou de novo. Ignorei outra vez. Na terceira, joguei o celular no banco do passageiro e segui dirigindo, esperando que ele se tocasse e desistisse. E desistiu. Caiu na caixa postal. Um pequeno alívio. Mas esse alívio durou pouco. Quando virei a esquina da minha rua e vi o carro dele parado na frente de casa, senti o corpo inteiro endurecer. Meu maxilar travou. As mãos apertaram o volante com força. — Ótimo… — murmurei pra mim mesma. Estacionei, peguei minhas coisas e desci do carro já sabendo exatamente o que ia acontecer. Cada passo até a porta parecia um aviso silencioso de que a paz tinha acabado antes mesmo de começar. Assim que entrei, nem tive tempo de fechar a porta direito. — Por que é que você não atende essa p***a desse celular, Vitória? — a voz dele veio alta, atravessando a casa como um tiro. Fechei a porta com calma. Respirei fundo. Tirei o sapato. Eu não ia começar gritando. Não hoje. — Eu precisava falar com você — ele continuou — pra você passar na lavanderia e pegar uma das minhas fardas. Tive que deixar lá porque manchei. E você não ia saber lavar direito. Levantei o olhar devagar. — Eu estava trabalhando, Felipe. — minha voz saiu firme, mesmo com tudo fervendo por dentro. — Não sou sua empregada. Se você quer a farda, vai você buscar. Ele ficou me olhando em silêncio por alguns segundos, como se estivesse tentando entender quem era aquela mulher falando com ele daquele jeito. Como se eu tivesse quebrado um roteiro que ele acreditava ser imutável. — Você é minha esposa, Vitória. — disse, por fim. — E tem que fazer o que eu mandar. Senti o sangue ferver. — Se esse seu emprego começar a te desviar das suas funções dentro de casa, eu não vou mais aceitar você trabalhando. Tá me ouvindo? Ele se aproximou e segurou meu rosto com força. O toque dele me deu ânsia. Antes que eu pensasse duas vezes, empurrei ele pra trás. — Você não manda em mim. — falei, sentindo a voz tremer, mas não recuar. — Você não é meu pai. Ele me olhou surpreso. — Eu sou sua mulher. — continuei. — Quer dizer… por enquanto, né? Porque nem embora eu posso ir. Nem esse direito eu tenho. Então não ache que eu vou ficar fazendo as suas vontades, porque eu não vou. Eu só tô aqui porque sou obrigada. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ele respirava fundo, passando a mão no rosto, andando de um lado pro outro. Eu sabia que ele estava nervoso. Muito. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não me importei. Sem dizer mais nada, ele pegou a chave do carro e saiu batendo a porta, indo buscar a farda maldita. Fiquei sozinha na sala, sentindo as pernas bambas. Apoiei a bolsa no sofá e fechei os olhos por um instante. A cabeça começou a girar. Que tipo de homem mancha uma farda e não traz pra casa? Que tipo de desculpa é essa? Uma suspeita começou a se formar, lenta, incômoda. E eu não gostei nem um pouco do caminho que meus pensamentos tomaram. — Era só o que me faltava… — murmurei. Subi pro quarto, querendo distância, silêncio, água quente. Coloquei a bolsa em cima da cama e fui direto pro banheiro. Conforme tirava a roupa, a imagem dele — do Fera — voltou à minha mente sem pedir licença. O jeito como ele tentava parecer forte o tempo todo. A forma como escondia a dor atrás daquele olhar duro. A maneira como me escutava de verdade, mesmo sem dizer quase nada. Entrei no chuveiro e deixei a água cair sobre mim, tentando lavar não só o corpo, mas também a confusão dentro da minha cabeça. Apoiei as mãos na parede fria e fechei os olhos. O que eu tô fazendo? Era uma pergunta que ecoava sem resposta. Eu sabia que estava ultrapassando limites. Sabia que aquilo podia acabar muito m*l pra mim. Mas também sabia que, se eu não fizesse nada, ninguém faria. Enquanto a água escorria, comecei a pensar em possibilidades. Em brechas. Em formas de trazer ele pra enfermaria com mais frequência. Um exame aqui. Um acompanhamento ali. Qualquer coisa que me permitisse vê-lo, garantir que ele estivesse inteiro. Porque, naquele lugar, sobreviver não era garantido. E se eu podia usar o pouco poder que tinha pra evitar que ele fosse destruído ali dentro, eu ia usar. Mesmo que isso me custasse tudo.
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