Capítulo 4

2496 Words
Melinda Uma pulsação surda lateja atrás dos meus olhos enquanto recupero lentamente a consciência. Minha boca está seca como um deserto, minha língua parecendo uma lixa contra o céu da boca. Pisco devagar, finalmente conseguindo abrir um pouco as pálpebras. O luar atravessa as cortinas brancas, banhando o quarto desconhecido com um brilho suave. Esse não é o meu quarto. Meu coração dispara enquanto absorvo o ambiente estranho. Paredes creme decoradas com fotos de paisagens emolduradas. Uma cômoda de madeira escura, ornamentada com detalhes delicados. Lençóis azul-marinho amassados e emaranhados em volta das minhas pernas. O pânico me invade, e meu peito se aperta. Tento me levantar, mas uma dor latejante me atravessa a cabeça, me forçando de volta aos travesseiros com um gemido abafado. Ainda estou usando aquele vestido i****a, que subiu até a cintura, expondo minha b***a de forma humilhante. Minhas bochechas queimam. Espero que isso tenha acontecido enquanto eu estava inconsciente. Não suportaria a ideia de quem me resgatou me ver assim, tão vulnerável e indecente. Mas onde diabos estou? Memórias fragmentadas começam a se encaixar. Alicia e Brice transando… os Lewis querendo me vender para alguma organização da Irmandade… sendo trancada no porão… fugindo, e depois tiros, a sensação de alguém me empurrando antes do chão me engolir por inteiro. Então, escuridão. Engulo em seco e levo um braço pesado até a cabeça, tateando a área dolorida. Um g**o enorme lateja sob meus dedos, e um gemido escapa dos meus lábios. Certo, eu tenho um ferimento na cabeça. Fui nocauteada e, aparentemente, levada para cá. Fui sequestrada de novo? Desta vez, não tenho Marlon Lewis para me tirar dessa. Um calafrio sobe pela minha espinha. Tento afastar o pânico, inspirando profundamente. Preciso ser racional, ou pelo menos tentar, até minha mente confusa conseguir raciocinar de novo. Mas algo está diferente. Isso não parece um cativeiro — ao menos, não um típico. Estou deitada numa cama macia, coberta por lençóis limpos. Estou sozinha. Nenhuma corda, nenhuma corrente. Ainda assim, preciso sair daqui. Seja lá onde for “aqui”. Forço minhas pernas a se moverem, sentindo o carpete felpudo sob meus pés descalços. Me apoio na beirada do criado-mudo enquanto o quarto gira violentamente. Meus olhos pousam na porta do outro lado do quarto. Meu primeiro instinto é correr até ela e sair. Mas e se eu tropeçar direto em outra armadilha? Mordo o lábio, indecisa. Com um suspiro resignado, percebo que preciso de mais informações. Vasculho o quarto, mantendo o ouvido atento a qualquer ruído além da porta. Abro as gavetas de cima da cômoda, mas só encontro roupas femininas dobradas com cuidado. Blusas justas, lingeries rendadas. Então pelo menos sei que aqui vive — ou viveu — uma mulher. Isso me conforta minimamente. De repente, vozes abafadas ecoam pelo corredor. Seguro a respiração. — Você a trancou no quarto de hóspedes? — pergunta uma voz feminina, com claro tom de preocupação. — Onde mais eu poderia colocá-la? — responde um homem, a voz tensa e irritada. — Um hospital! Qualquer lugar, menos aqui! Um silêncio tenso paira. Então a voz masculina retruca, firme: — Não podemos levá-la a um hospital, Casey. Ela teria morrido. Ou pior. Uma risada curta e áspera ecoa. — Ah, então agora você quer bancar o herói, Matthew? Bom trabalho. Agora tire ela daqui. — Casey tem razão, Matthew — diz uma terceira voz, rouca e grave. — Deixe-a no hospital. Aquele g**o feio na cabeça vai garantir que ela nunca se lembre de ter estado aqui. — Não. Ela vai ficar aqui mesmo — responde Matthew, inflexível. Um estrondo surdo faz a parede vibrar. — Por que diabos você está sendo tão teimoso? — a mulher rosna, impaciente. — Não sabemos nada sobre ela ou por que estava com o soldado da Indomáveis — diz Matthew, a voz firme, como quem não aceita discussão. — Vamos interrogá-la antes de decidir o que fazer. — Isso é e******o, Matthew — retruca a terceira voz, mais baixa, mas carregada de desgosto. O silêncio que se segue é tão pesado que recuo um passo. Então a voz de Matthew surge, gelada como aço: — Do que você me chamou? — Não se desculpe, Vicente— diz a mulher, ríspida. — Ele tem razão, Matthew. Largue essa v***a. — Eu é que vou decidir — responde Matthew, cortante. Passos pesados ecoam no corredor, vindo em direção à porta. Cada passo faz minha respiração ficar mais rasa, minhas mãos começam a tremer. Vasculho o quarto com o olhar frenético, à procura de qualquer coisa que possa me proteger. Meus olhos encontram um taco de beisebol de madeira encostado perto da janela. Num impulso desesperado, corro até ele. Seguro-o com força, erguendo-o acima da cabeça, o coração disparado de terror. A porta se abre devagar, e três pessoas surgem no vão. Uma mulher de beleza fria, cabelos pretos lisos e franja emoldurando grandes olhos castanhos que me encaram com tédio e irritação. Ao lado dela, um homem tão alto e largo que parece preencher toda a porta, o peito largo pressionando os botões de sua camisa como se fosse estourar. Mas é o homem à frente que me faz gelar até os ossos. É o homem bonito da padaria — mas agora, sem o sorriso caloroso, só sobra uma carranca sombria. Seus olhos escuros me prendem como correntes. — Abaixe o taco — ele ordena, a voz grave e rouca. Balanço a cabeça, recuando um passo. Não posso. Algo dentro de mim se recusa. — Larga. Isso — ele diz novamente, avançando um passo, a sombra de ameaça em cada linha de seu corpo. Aperto o taco com força, meu corpo todo tremendo. Não sou forte, mas sei que se for preciso, vou lutar. Ele avança num piscar de olhos, arrancando o taco das minhas mãos como se fosse nada. Com um estalo seco, quebra ele no joelho musculoso. O som me faz gritar e encolher de medo. — Qual é o seu nome? — ele pergunta, jogando os pedaços de taco para longe. — Onde estou? — sussurro, a voz quase sumida. — Não — ele diz, olhos fixos em mim. — Não vai funcionar assim. Eu faço a pergunta, e você responde. Qual é o seu nome? Engulo em seco, a garganta fechada de pavor. Meu coração martela, todos os meus instintos gritando para fugir, mas estou presa no olhar dele. — Não quero dizer — murmuro, quase inaudível. Num segundo, ele está na minha frente, tão perto que sinto o calor de sua respiração. — Isso não é uma opção — ele rosna, o olhar tão intenso que parece despir minha alma. — Você não decide o que vai compartilhar. Meu coração salta no peito, meus lábios se abrem num soluço silencioso. O homem bonito da padaria sumiu; só resta o predador. Ele me segura pelos braços, seus dedos se cravando na minha pele. Um gemido escapa dos meus lábios enquanto sinto a força dele me imobilizando. — Matthew — diz o homem gigante atrás dele, a voz carregada de advertência. Mas Matthew — se é esse o nome dele — nem pisca. E eu sei, num lampejo de certeza, que minha vida nunca mais vai ser a mesma. — Não vou perguntar de novo — ele sibila, a voz carregada de ameaça. — Me dá o seu nome, p***a. Lágrimas ardem em meus olhos. — Me –Melinda — gaguejo, com a voz trêmula. — Meu nome é Melinda. Matthew solta o aperto, um sorriso satisfeito se espalhando em seu rosto bonito. — Viu? — ele diz, zombeteiro. — Não foi tão difícil, foi? Não digo nada, meu corpo tremendo com uma mistura potente de medo e vergonha. Entreguei minha identidade a esse estranho e, nesse instante, sinto-me completamente impotente. — Sou Matthew. E para responder à sua pergunta, você está na minha casa. Agora que as formalidades acabaram, o que você estava fazendo com um soldado dos Indomáveis? — Quem? — Minha confusão deve estar estampada em meu rosto, porque Matthew revira os olhos com impaciência. — Você foi mantida sob a mira de uma arma mais cedo — diz ele, cada palavra carregada de desprezo. — Por um m****o da gangue Indomáveis. Por que ele estava atrás de você? — E-eu não sei — sussurro, ainda atordoada pela sua pergunta. Esfrego meus braços, constrangida, dolorosamente consciente do vestido que estou usando. A vergonha queima minhas bochechas e luto para conter as lágrimas. Matthew inclina a cabeça, seus olhos escuros me encarando. — Você não sabe? — repete ele. Balanço a cabeça furiosamente, ignorando a dor que esse movimento causa. — Não — insisto. Ele começa a circular ao meu redor como um predador estudando sua presa. — Então você quer que eu acredite que estava no lugar errado, na hora errada, justo em um bairro administrado pela Indomáveis? — Ele para, balança a cabeça e sorri com desdém. — Consegue entender por que isso soa como mentira para mim? Eu nem sei do que ele está falando. Não sei quem é essa tal de Indomáveis e não entendo o que ele quer dizer quando afirma que o bairro é “administrado” por eles. — Você conhece a Irmandade? Fico tensa, lembrando que Brice mencionou algo sobre me vender para a tal Irmandade. Mas não sei quase nada além do nome. — Não, não sei — respondo baixinho. — Então — Matthew continua, a voz escorregadia. — Ou você está mentindo para mim — o que eu recomendo fortemente que não faça — ou você é uma prostituta que teve um encontro que deu errado. — Ele observa meu vestido, seu olhar descendo pelas minhas pernas expostas. Minha boca se abre em choque. Uma raiva incandescente me percorre. Antes que possa pensar, minha mão aberta estala contra a bochecha dele num tapa sonoro. — Eu não sou uma prostituta! — quase grito, a indignação me fazendo tremer. — Como você ousa? Ele cambaleia para trás, o rosto contorcido em surpresa e, logo em seguida, raiva. Aqueles olhos escuros agora me prometem retribuição. — Matthew! — a mulher próxima à porta grita, alarmada com a tensão no ar. Recuo, o peso do que acabei de fazer caindo sobre mim. O que eu estava pensando, batendo nesse homem? Principalmente um homem que me mantém cativa e que demonstrou força suficiente para quebrar um taco de beisebol ao meio? Matthew se vira lentamente para a mulher e o homem ao lado dela. — Deixem-nos — diz ele, com um tom perigoso. — Mas… — Agora. Eles trocam olhares, e meu coração dispara. Quero implorar para que fiquem, mas minha voz morre antes de sair. Observo impotente enquanto a mulher e o homem obedecem, fechando a porta atrás deles. Seus passos desaparecem pelo corredor, deixando-me sozinha com o estranho. Matthew volta a me encarar, a mão erguida. Uma cena antiga, familiar, toma forma na minha mente, e eu me encolho, lágrimas subindo aos meus olhos. — P-por favor, não me bata — imploro, a voz falha. — Sinto muito. Eu não queria. Foi um acidente, eu… Matthew para, a mão ainda suspensa, os olhos escuros vacilando entre a raiva e algo que parece… confusão? — Bater em você? — ele repete, a voz baixa. — Eu não ia bater em você. Minha respiração fica presa quando aponto, tremendo, para a mão dele no ar. Ele segue meu gesto e, num instante, parece perceber o que estou pensando. Seus ombros relaxam e ele abaixa a mão devagar. Um alívio quente me envolve, como se eu pudesse finalmente respirar. Fecho os olhos e solto um suspiro tremido. Quando os abro, a expressão dele mudou. Matthew está olhando fixamente para a marca roxa na minha bochecha — o hematoma deixado por Brice. — Onde você conseguiu isso? — pergunta ele, e sua voz agora soa estranhamente suave, quase… protetora. Minha boca seca e eu me afasto quando Matthew se aproxima. Ele ergue as mãos num gesto de rendição. — Eu não vou te machucar — murmura. — Eu não te conheço — sussurro, abraçando a mim mesma. — Você é Melinda e eu sou Matthew — ele diz com um meio sorriso. — Viu? Agora nos conhecemos. — Não é assim que funciona — murmuro, abraçando meus braços mais apertados. Seus olhos escuros se detêm nos hematomas em meus braços, e seu semblante se fecha. — Olha, está claro que você está machucada — ele fala num tom calmo. — Quero ter certeza de que você vai ficar bem. A mudança dele me confunde, quase me atordoa. Num instante, ele é um monstro que exige respostas com violência; no outro, está preocupado com meus machucados. — Então por que você não me leva ao hospital, como seus amigos sugeriram? Por um instante, vejo sua expressão escurecer. É sutil, mas está lá — e sei que falei demais. Ele não queria que eu ouvisse essa conversa. — Eu… eu só… — Posso dar uma olhada nos seus ferimentos? — ele pergunta, a tensão se dissipando. Mordo o lábio, lutando contra minhas emoções. Ele é um estranho perigoso, mas sinto que há verdade no cuidado dele. É estranho, perturbador… mas também reconfortante. — E então? — Matthew insiste, os olhos fixos nos meus. Depois de um momento de hesitação, baixo os braços, vulnerável. — Ok — murmuro. À medida que ele se aproxima, sinto meu estômago revirar. Seu perfume me envolve, um calor que me deixa inquieta. Quando seus dedos roçam meu rosto, meus olhos se fecham. Sibilo quando ele pressiona um ponto dolorido na bochecha, mas não posso evitar a onda de calor que se espalha pela minha pele. — Quem te machucou? — Matthew pergunta baixinho, o toque de seus dedos tão gentil que parece um contraste impossível ao seu jeito rude. — Esses hematomas não foram causados pela Indomáveis . — Ele passa os dedos ao longo do meu rosto, depois desliza as mãos pelas minhas costas. — Vou te virar para dar uma olhada. — Ok — sussurro de novo. Sinto-me exposta e frágil, mas de algum modo… também protegida. Brice nunca me fez sentir assim. As mãos de Matthew são quentes e seguras enquanto tocam minhas costas. Estremeço de dor quando ele pressiona minhas costelas. — Você tem um hematoma enorme perto das costelas — diz Matthew, a voz grave. — Isso não veio daquele soldado. Parece que alguém te jogou de um lado para o outro. Vou perguntar de novo. Quem te machucou, Melinda? Sinto arrepios percorrendo minha pele, o calor dele se infiltrando no meu corpo como um fogo lento. É desconfortável, mas também eletrizante. Aquele olhar dele me queima por dentro. Eu sei que não posso mentir mais — mas ainda hesito. Eu o encaro, e por um segundo quase cedo ao desejo de contar tudo. Mas meu orgulho e medo me seguram. Matthew vai arrancar essa resposta de mim — disso eu não tenho dúvida.
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