Matthew
Essa garota Melinda está me deixando louco. Não consigo entendê-la. Num momento, ela está tremendo e mansa como um cordeiro; no outro, me dá um tapa na cara por chamá-la de prostituta.
Ela tem medo de mim — isso eu percebo pelas suas pupilas dilatadas, pela respiração ofegante e pelo modo como seus dedos se movem nervosamente. Mas, ao mesmo tempo, ela se recusa teimosamente a me contar qualquer coisa que realmente importe.
Só responde com ameaças, sempre dizendo que não sabe de nada — principalmente sobre a Indomáveis . E o mais irritante é que ela não quer me dizer quem causou esses hematomas e ferimentos no seu corpo.
Melinda estremece ao se abraçar, o vestido já curto subindo mais alto a cada movimento, deixando à mostra quase toda a curva de sua b***a. Seus cabelos cacheados balançam, e eu preciso de toda a minha força de vontade para não enrolar um cacho no dedo. Quem pode me culpar por ter pensado que ela era uma prostituta? Quem diabos usa vestidos assim se não está procurando um Cliente?
Mas então, por que ela estava sendo mantida sob a mira de uma arma pela Indomáveis ? Não faz sentido. Eles vendem armas — não carne humana como a Irmandade. Há algo que Melinda não está me contando, e isso está me enlouquecendo.
— Então você não vai me dizer quem te machucou? — pergunto, dando um passo à frente.
Ela balança a cabeça, a voz um sussurro tenso. — Você vai querer machucá-los.
Provavelmente, mas ela não precisa saber disso. Sou muitas coisas — Don da Família Martinelli, assassino, traficante e, de fato, um babaca —, mas não sou o tipo de homem que levanta a mão para uma mulher. Minha mãe me ensinou melhor do que isso, e se eu esquecesse, Casey me mataria.
— Por que está protegendo eles? — Mais um passo à frente. Seus olhos se arregalam quando nossa distância diminui. Vejo pontos dourados em seus olhos castanhos, cílios longos como asas de corvo e uma leve camada de sardas no topo do nariz. Seus lábios carnudos, rosados, se contraem quando ela morde o inferior, me desafiando a não pensar em nada além disso.
Melinda vira o rosto, desviando o olhar de mim, e sinto a irritação pulsar sob minha pele. Quem diabos ela pensa que é para ignorar minhas perguntas?
Coloco um dedo sob seu queixo e forço seu rosto de volta para mim, exigindo que me encare.
— Responda à minha pergunta — rosno. Sinto um lampejo de satisfação ao ver a respiração dela vacilar. Ela esfrega os dedos e sua boca se abre num pequeno suspiro. Perfeito. Ela deveria mesmo estar nervosa.
— Por favor... — ela sussurra, e quase rio. Ela acha mesmo que um “por favor” vai funcionar comigo?
Sua língua sai, rápida, para umedecer os lábios, e não posso evitar — meus olhos seguem o movimento, observando como sua língua rosada desliza pela a******a da boca.
Sinto meu p*u endurecer, mas me forço a ignorar isso. Melinda é um enigma que preciso decifrar antes de qualquer outra coisa.
— Você está tornando isso muito mais difícil do que precisa ser — murmuro, aproximando-me ainda mais. — Diga-me quem te machucou.
Minhas mãos descem para sua cintura, agarrando seus quadris com firmeza. Ela solta um pequeno gemido de surpresa e desvia o olhar, tremendo sob meu toque.
Isso me faz pausar. Se eu não estivesse convencido de que ela não era uma prostituta, essas reações já teriam mudado minha mente. Ela parece um animal encurralado, à beira de ser capturado a qualquer momento.
Um pensamento me atinge com força, gelando meu sangue e, ao mesmo tempo, me excitando de uma forma que eu odeio admitir: será que ela é virgem?
A ideia me desconcerta e me atrai de uma forma que não deveria. Mesmo que eu não tenha planos de tocar essa garota, imagino levá-la de volta de onde veio — e deixá-la à mercê de quem acha que a possui, apenas para mostrar que fui eu quem tirou sua inocência.
Mas então, os hematomas em seu corpo me arrancam desse devaneio, como um balde de água fria atirado sobre minha cabeça.
Antes de qualquer outra coisa, preciso de respostas. Primeiro: quem a machucou e por quê? Segundo: por que a Indomáveis a queria viva e sob a mira de uma arma? Terceiro: eu realmente quero me meter nisso?
Relutantemente, me afasto dela, mesmo que cada parte do meu corpo proteste. Pego meu celular, digitando rápido e frio.
Matthew: Volte. Preciso de você.
Quando volto o olhar para Melinda, vejo que ela está tão abalada quanto eu. Ela solta o ar que estava prendendo e me encara com olhos arregalados.
Eu sorrio. Ótimo.
A porta se abre segundos depois e Casey entra, franzindo a testa para nós.
— Na hora certa como sempre, Casey — digo, limpando uma mancha invisível do meu paletó. — Leve Melinda para um quarto de hóspedes e tranque a porta.
A expressão de horror dela quase me faz rir. Bem feito para essa teimosa.
— Mas… — ela tenta argumentar, a voz trêmula.
— Mas nada. Até eu descobrir quem você é e o que diabos fazer com você, você não vai a lugar nenhum.
Minutos depois, entro em uma sala m*l iluminada nos fundos do The Invictus, o contraste do meu terno impecável com as roupas ousadas dos frequentadores do clube deixando claro quem está no controle. Vicenteme acompanha de perto enquanto caminho até a mesa onde meus capos estão reunidos.
— O que temos? — pergunto, sentando-me e estalando os dedos para pedir um uísque. O copo aparece quase instantaneamente, e eu saboreio o calor amargo enquanto o álcool desce queimando minha garganta.
Emílio , o mais velho dos meus homens, me entrega um envelope grosso. — A remessa chegou hoje de Montreal. Produto de primeira.
Abro o envelope e examino as fotos — tijolos de pó branco empilhados de forma quase artística. — Algum problema na fronteira? — pergunto sem tirar os olhos das imagens.
— Nenhum — responde Emílio , exibindo um sorriso onde um dente de ouro brilha sob a luz fraca. — Nossos homens fizeram o serviço direito. Nem um olhar do governo.
— Excelente — digo, entregando o envelope a Vincente, que o guarda com eficiência. — E quanto ao resto?
Tomás , o mais novo dos capos, se adianta. — Ouvi rumores de que os Colombos andam farejando nossas operações na State Street. Talvez precisemos lembrá-los de quem manda aqui.
Um sorriso lento e predador se forma em meus lábios. Os Colombos... sempre querendo um pedaço do que é meu. Eles desertaram da Irmandade e ousaram criar sua própria família — e agora querem mexer no meu quintal?
— Então, acho que está na hora de mostrar a esses bastardos que não são bem-vindos — digo, a voz baixa e letal. — Preparem tudo. Quero que os Colombos entendam exatamente onde termina a paciência da Família Martinelli.
A sala fica em silêncio, exceto pelos meus pensamentos — pensamentos de sangue, de violência e, curiosamente, da estranha garota que ainda está trancada em um quarto, me desafiando com aqueles olhos castanhos que me deixam louco.
— Mande o Medina e o Jorge fazerem uma visita. Quebrem alguns ossos, se necessário, para passar a mensagem.
Os capos concordam, cientes de que meus métodos são duros, mas eficazes. Viro o resto do meu uísque e me levanto, ajustando o paletó enquanto olho ao redor. — Vou cair fora. Vocês sabem o que fazer.
Vicentee eu seguimos para o lounge VIP isolado, onde uma garçonete de coquetéis, vestida com uma saia tão curta que poderia ser considerada apenas um acessório, surge do nada. Ela nos traz mais dois copos de uísque sem que eu precise pedir. As batidas pulsantes da música techno vibram no ar, misturando-se com o cheiro de álcool e o calor dos corpos dançantes.
Sorrio maldosamente ao me acomodar no meu assento. Esse é o meu palácio de vícios e pecados, e eu sou o rei. Cada centímetro desse lugar respira o meu poder.
Meus guarda-costas, enormes como montanhas, ficam parados nas portas, as cabeças raspadas e os corpos robustos lembrando a todos que passarem que este não é um lugar para provocá-los. Vicentetoca a orelha — um sinal claro de que está recebendo uma mensagem pelo fone de ouvido — e se inclina na minha direção.
— George disse que o Augusto está aqui com o Samuel Ferrari. Eles querem falar com você.
Aceno com a mão irritada, observando dançarinas seminuas contorcendo seus corpos ao ritmo pesado da música. — Tragam-nos. —
O tio Augusto é irmão do meu pai e, antes, foi subchefe dos Martinellis. Após a morte do meu pai, houve uma disputa amarga pelo poder; o tio Augusto acreditava que era seu direito natural reivindicar a posição de Don. Mas essa posição era minha. Houve uma breve guerra. breve, mas sangrenta — em que reprimi brutalmente qualquer um dos apoiadores do tio Augusto. Depois disso, ele cedeu. Casey tentou me convencer a matá-lo mesmo assim, mas recusei. Talvez fosse uma estúpida lealdade familiar, ou apenas uma relíquia dos velhos tempos, mas não podia arrancar o último laço com a família do meu pai.
Então, o tio Augusto permaneceu à margem, como um lobo velho e domesticado, ocasionalmente servindo de voz da razão quando Casey e Vicentenão conseguiam me convencer.
Mas Samuel Ferrari... ah, Samuel . Os Martinellis e a Irmandade têm uma história complicada. Já fomos aliados — laços de sangue, negócios em comum. Eu estava noivo da filha dele, Marjorie.
Marjorie. Bela e perigosa. Pele de porcelana e grandes olhos azuis escondem o veneno que corre nas veias dela. Eu caí na armadilha, cego pela beleza, pela pose de dama refinada. Estávamos noivos, prontos para selar nossa aliança, quando Marjorie me pediu algo que nem eu podia conceder: que eu mandasse meus homens atirarem no pátio da escola do filho de um motorista que a desrespeitou no trânsito. Crianças são inocentes — eu não negocio com a morte de inocentes. Então, me recusei. Marjorie terminou comigo, alegando que eu não tinha “impulso” nem “comprometimento” para fazer o necessário. Mas ela, com a fúria de uma deusa vingativa, fez o serviço mesmo assim. O filho do motorista morreu no parquinho. E a mancha de sangue permaneceu.
Apesar do abismo entre mim e Marjorie, respeito Samuel . Ele é um vestígio da velha guarda, um elo com os dias decadentes da omertà siciliana. Ele tenta conter as tendências psicóticas de Marjorie, mas, como ficou provado, às vezes prefere ignorá-las.
Meus guarda-costas se separam, permitindo a entrada dos meus convidados.
— Tio Augusto — digo, sem me levantar. — Samuel . Espero que todos estejam gozando de boa saúde.
Eles murmuram gentilezas semelhantes, mas o ar já está carregado. Estalo os dedos e mais duas cadeiras confortáveis são trazidas. Samuel se senta com cuidado, cada movimento refletindo os anos de violência e política nas ruas.
Ele parece uma lenda viva. Seu corpo musculoso engrossou com a idade, mas ainda é imponente, como um touro velho e endurecido. O terno de corte fino aperta levemente o peito largo. Seu cabelo branco está aparado em um estilo militar severo, penteado para trás, longe do rosto enrugado que exala autoridade. Os olhos, porém, permanecem vivos — tão intensos e astutos quanto sempre foram.
— Vou direto ao ponto — diz tio Augusto , acendendo um charuto cubano. A fumaça azul dança no ar, como um véu de mistério. — O Samuel precisa de ajuda para encontrar alguém.
Levanto uma sobrancelha e olho para Samuel . — Isso é verdade?
Samuel me entrega um envelope pardo. Olho para Vincente, que assente, pega o envelope e o abre. Dentro, há um pedaço de papel dobrado e várias fotografias. Vicentefranze a testa, depois me entrega o conteúdo. Leio o contrato entre a Irmandade e um homem chamado Brice Reynolds.
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— O que estou olhando?
Samuel se inclina para a frente. — Brice Reynolds
é o nosso novo recruta — diz ele, a voz rouca. — Para provar sua lealdade, ele nos prometeu uma jovem virgem. Nós adiantamos uma boa quantia para garantir a entrega.
Mantenho meu rosto frio e impassível, mas internamente sinto o nojo crescer. A Irmandade sempre foi envolvida em tráfico de pessoas — algo que me recuso a tolerar. Drogas, armas, chantagem? Claro. Mas escravizar garotas? Nunca.
— Seu primeiro erro foi dar o dinheiro antes de receber o bem — digo, largando o contrato no chão.
Samuel estreita os olhos. — Você tem algum problema com a forma como administro meu negócio, Matthew?
Dou de ombros, sem esconder o desdém. — Talvez sim.
O tio Augusto ergue a mão para interromper. — Calma, pessoal. Não vamos transformar isso em uma briga. Somos todos amigos aqui.
Eu poderia rir. “Amigos.” No nosso mundo, isso não existe. Apenas pactos frágeis, sempre à beira de desmoronar.
— Tenho certeza de que o Matthew não quis desrespeitar ninguém — continua o tio Augusto , com uma voz suave. — Foi apenas um m*l-entendido.
Franzo a testa, mas cedo à encenação. — Sim, só um m*l-entendido.
Samuel me observa com frieza. — Cuidado para que isso não se repita.
Ah, se fosse tão fácil. Mas em vez de revidar, aceno com a mão. — Continue.
— Brice trancou a garota. Mas o i****a contou a ela qual era o plano, e a menina fugiu antes que chegássemos.
— Como ela escapou? — pergunto.
— Uma janela no porão — diz Samuel , cuspindo as palavras como se fosse ácido. — O i*****l nem se deu ao trabalho de proteger o perímetro.
Penso no quão patético isso soa. — E você quer que eu a encontre?
— Sim — interrompe Augusto, a mão apertando o braço da cadeira. — Os Martinellis sempre foram bons em rastrear pessoas.
— Por que não mandou a Marjorie? — pergunto, a provocação pairando no ar.
Samuel fecha o rosto, seus olhos brilhando com um lampejo de fúria. — Porque eu quero a garota viva. Marjorie... tem métodos demais.
Ponto justo. Faço sinal para Vincente, e ele me entrega a pilha de fotos. — O que eu ganho com isso? — pergunto casualmente, folheando as imagens. — Vai dar trabalho. E trabalho custa caro.
— Se você encontrá-la e a trouxer viva, te darei dez por cento de desconto na venda dela.
— Trinta — rebato sem hesitar.
— Vinte — devolve Samuel , firme.
— Vinte e cinco.
Ele me estuda, depois solta um suspiro pesado. — Vinte e cinco. Fechado. — Apertamos as mãos, como verdadeiros cavalheiros — ou ao menos fingindo ser.
— Ela deve ser muito importante para você vir até mim pessoalmente — comento, passando para uma foto de uma casa modesta e uma padaria na esquina.
Samuel se remexe na cadeira, o desconforto evidente. — Muito importante. Ela será nosso artefato de maior valor.
Levanto uma sobrancelha enquanto viro outra foto. A garota está de perfil, alheia ao fotógrafo. Cabelos castanhos, longos e cacheados, presos para trás. Um pescoço delicado e uma postura assustada.
Ela parece tão familiar que meu coração dispara. — Algum motivo especial?
— Não importa — interrompe Augusto rapidamente. — Só precisamos que ela seja encontrada logo.
Olho a última foto. A garota, agora de frente, encara algo ao longe, os olhos castanhos arregalados de medo. O sangue congela nas minhas veias. Porque sei exatamente quem ela é — Melinda. A garota que está trancada no meu porão, escondida do mundo.
— O nome dela é Melinda — diz Samuel , a voz grave. — Melinda White.
E nesse instante, sei que a noite está apenas começando.